A Escuridão do Inferno Depressivo
"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
Vivi cinquenta anos no inferno. Acordava todos os dias desejando não existir, mas a vida teimava em pulsar dentro de mim. Naquele lugar, eu não suportava a pessoa que era, tampouco aceitava os outros como eram. Em síntese: eu não gostava de gente. Minha mente dividia o mundo em duas categorias rígidas: os maus e os bons; os algozes e as vítimas.
Claro que me colocava entre os bons, ainda que, desse lado, só coubesse eu e mais meia dúzia de almas — consequência direta de uma rejeição cega que me impedia de enxergar um milímetro além do meu próprio nariz. Enquanto acreditei que aquele inferno era provocado por terceiros ou por circunstâncias que eu tentava alterar com pensamentos mágicos e imaginação, permaneci trancado no mesmo sofrimento.
Meus demônios tinham o rosto das pessoas autoritárias, daquelas que usam o poder para calar os outros e impor a própria vontade. Querendo fugir deles, percebi que estavam por toda parte: em casa, na rua, na escola, perto e longe. Onde quer que eu fosse, lá estavam eles. Exausto de procurar um esconderijo impossível, resignei-me à ideia de conviver com aquilo até o fim. E essa resignação era a própria cela que me mantinha preso à ilusão de que a dor seria eterna.
O ciclo só se rompeu no dia em que cruzei a porta de uma sala de 12 Passos. Ali, pela primeira vez, comecei a encarar essas sombras ao dar voz a elas diante de companheiros que apenas escutavam. Essas partilhas foram — e continuam sendo — a minha libertação. Compreendi, finalmente, que usei os demônios dos outros como escudo para não encarar o essencial: o demônio que habitava em mim mesmo. O demônio das minhas ilusões, o maior adversário da humildade e de qualquer Poder Superior ao meu — o meu imenso orgulho.
Hoje, a origem da dor se revela por inteiro: o orgulho me cegava a ponto de projetar nos outros todos os defeitos de caráter que pertenciam a mim. Foi sob o véu dessa cegueira espiritual que vaguei por longos anos, prisioneiro da minha própria escravidão.
Se existe um inferno fora de mim, eu não sei. Só sei que o inferno que criei no meu interior tem um nome: depressão.
Clique em O Próximo que habita em mim para ler a crônica anterior, ou em Escrevendo Para Minha Criança Interior Ferida para ler a seguinte.
Pública é a minha codependência, consciente de que sou muito maior do que todas as minhas ilusões. Só por hoje, eu me dou o direito de ser a pessoa mais importante da minha própria vida.

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