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Mostrando postagens de outubro, 2023

O Feitiço do Cinema e o Ator Atormentado

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Um certo menino amava ir ao cinema aos domingos; assistia aos filmes maravilhados, e no fim da sessão, tal como os demais presentes, saía em direção a realidade exterior. Mas acontecia algo muito estranho, uma vez fora da sala de projeção o menino sentia-se completamente deslocado da realidade, e o seu maior desejo era o de voltar o mais rapidamente possível para o interior do cinema, independentemente do filme que havia assistido. Isto se repetiu por centenas de domingos ao longo de sua vida, findado o filme, sempre o desejo de permanecer para sempre dentro do cinema. Talvez o cinema de sua cidade estivesse enfeitiçado, pensou um dia o menino, mas depois de ter frequentado tantos outros cinemas em outras cidades o feitiço continuava, seriam enfeitiçados todos os cinemas do mundo? O que tanto...

O Medo, a Coragem, o Rejeitado e a Rejeição

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Um dia um senhor chamado Rejeitado perdeu sua cadelinha; grande foi o seu pesar, por onde andaria sua cadelinha?  Deste dia em diante, sem saber exatamente o porquê, o senhor Rejeitado passou a ser constantemente visitado pela senhora Rejeição, sua vizinha do lado, mas apesar de toda a familiaridade e proximidade, o senhor Rejeitado não conseguia sentir-se confortável na presença da senhora Rejeição, porém o senhor Rejeitado não tinha coragem de dizer isto olhando diretamente nos olhos dela  — o senhor Rejeitado não olhava nos olhos de ninguém . "Como evitar que Rejeição venha sempre à minha casa, como?", pensava Rejeitado ao longo de seus dias, até que finalmente Rejeitado achou a solução para afugentar de sua vida Rejeição, de forma a nunca mais sentir sua inconveniente presença  ...

A Felicidade Codependente

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Ah... lá vem a minha felicidade, lá vem o caminhão vermelho despontando na curva da rua; perdoem-me, algum engano, a felicidade não chegou na boleia do caminhão do meu pai. Mas agora a felicidade está finalmente ao alcance de minhas mãos; finalmente terminei o curso primário, amanhã coloco as mãos no meu primeiro canudo e, com a conquista merecida,  a felicidade estará presente, vida eterna ao dia de amanhã, o dia de minha primeira formatura. Não, ainda não, perdoem-me mais uma vez, minha felicidade não durou nem dois dias, dizem todos agora para mim — os próximos e os distante — que preciso passar no dificílimo exame de admissão ao ginásio, e vencido este obstáculo — creio que o último — eu certamente terei um longo período de felicidade naquele prédio bonito e envidraçado no alto da colina ...

A Causa Presente e a Causa Remota da Minha Desconhecida Dor Dominical

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Uma manhã de domingo, entre centenas de manhãs de domingos ao longo da minha vida; tudo tranquilo, um pouco de serenidade, um pouco de paz, um pouco de alegria, um agradável dia, mas conforme o tempo e a manhã avançam em direção à tarde, uma metamorfose emocional começa a acontecer. O horário do almoço é um divisor de águas, para trás vai ficando definitivamente a alegria e a serenidade da manhã, e a cada instante em direção ao entardecer vou sendo preenchido, gota a gota, por um profundo e ignoto sentimento, sentimento este que atinge o seu clímax lá pelas duas horas da tarde, permanecendo até o final do dia, doendo de forma ainda mais profunda e contundente  —  tal como uma ferroada de marimbondo  —  ao anoitecer, adormecendo e despertando dolorosamente ao meu lado na segunda-feira...

O Décimo Segundo Passo e o Companheiro Sentado na Calçada

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Vamos logo dando nome aos bois: O dia era 3 de outubro de 2023, uma terça-feira, havia terminado de assistir a uma reunião de AA; já estava na calçada precariamente iluminada caminhando em direção ao carro, quando ouvi uma voz de uma pessoa sentada na porta de uma loja "moço, moço...", eu nem olhei quem era o cidadão, provavelmente alguém pedindo dinheiro, ah, lembrei-me agora, tinha certeza de que era uma pessoa que ficava pedindo sempre na porta do supermercado próximo, mas naquele dia não era. Após ouvir o "moço, moço..." respondi imediatamente via piloto automático, "hoje eu não tenho nenhum dinheiro", e então eu ouvi a resposta mais desconcertante das últimas 24 horas, ou 24 anos, ou mesmo 24 séculos, "moço, eu não quero o seu dinheiro, moço eu quero é ...

O Insano Balaio Codependente e as Bestas do Apocalipse

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Estou dentro do insano balaio da Codependência; não sei onde eu começo, não sei onde eu termino, dentro do balaio todos juntos e todos misturados, que coisa mais louca. Alguém no balaio grita, não necessariamente para mim, mas o grito me afeta e me atemoriza, no balaio codependente as emoções dos outros confundem-se com as minhas, bem como as minhas confundem-se com as dos demais, se alguém gritou, gritou comigo; se alguém está de mal humor, está de mal humor comigo; se alguém está triste, está triste comigo  — seria na verdade o humano balaio codendente um sem número de crianças centradas o tempo todo em seus próprios e enormes umbigos? Quero sair do balaio, mas não sei onde eu começo e não sei onde eu termino, no fundo este balaio é um imenso rolo, um imenso rolo de arame farpado, onde esto...

O Terceiro Passo é Como Um Abraço Amigo na Escuridão

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  " Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Estou voltando para casa, voltando de um encontro de 12 Passos em Belo Horizonte; "motorista, por favor, não vou seguir até o Rio de Janeiro, preciso descer no Posto Fiscal da BR 040, no quilômetro seis", falo com o condutor do ônibus. Cansado entro no ônibus, e depois de observar as serras cheias de minério de ferro adormeço, e quando desperto já era início da noite, já não havia mais minério, agora contemplo simplesmente alguns bois pastando na terra e brilhantes estrelas pastando nos céus das Minas Gerais. A noite veio e o ônibus avançava escuridão adentro; eu sabia que a parada estava longe, deveria simplesmente relaxar e aguardar, mas meu ego nunca dorme, e na sua contínua tagarelice mental começou a roubar o meu sossego, "e se o motorista não parar no lugar correto, já ...