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Terra à Vista

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Ontem, na reunião presencial, tirei uma carta do Baralho das Emoções. A pergunta era simples e direta: "Você já encontrou o seu Eu profundo?" Confesso: ainda não. Mas essa busca me deu algo inesperado. Eu encontrei o meu ego. O meu eu raso, e a sensação foi indescritível. Foi como Colombo no convés, ouvindo o grito do marujo lá da gávea: "Terra à vista!" Eu tinha avistado um continente novo dentro de mim. Um território inteiro que eu nem sabia que existia. Agora eu posso explorá-lo. Essa descoberta me deu uma certeza: Minhas dores emocionais estão centradas no ego. Meu ego é mental e transitório, e a responsabilidade por ele é toda minha. Mas a melhor parte veio depois: Eu não sou o meu ego. Atrás dele, existe algo mais profundo. Mais real. Mais saudável. O meu Eu Verdadei...

O Homem Elefante

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" O filme era em preto e branco, e eu, um adolescente.  Na tela, o personagem principal exibia o corpo todo deformado por uma doença terrível. Tratado como uma aberração humana e um débil mental, ele era usado como atração de um circo de horrores na Inglaterra do século XIX. O tratamento que recebia era de uma crueldade sem limites, como se ele não passasse de um animal desprezível. Até que surge alguém naquele espetáculo degradante. Um médico que, movido por uma profunda compaixão, decide resgatá-lo da sarjeta e acolhê-lo no hospital. No início, a sociedade olhava para aquele homem com ceticismo e frieza. Diante dos olhares distantes dos especialistas e de suas perguntas mecânicas, o "Homem Elefante" se recolhia em si mesmo e se calava. Para muitos, o diagnóstico estava dado: uma vis...

O Medo de Todos os "Caras"

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras"   Mim Viajante Emocional, mim tem medo dos caras. Mim tem medo de todos os caras: os caras pálidas, os caras amarelos, os caras negros e os caras vermelhos. Mim tribo dos caras pálidas, mas infelizmente Mim tem medo dos caras pálidas também, mim não se sente integrado na tribo. Mim tem medo dos caras desde que  Mim  era mirim. Mim gosta de ficar nos campos junto à natureza, mim gosta dos bichos, do sol, do céu, da lua, da noite, do dia. Mim gosta de ficar longe dos caras. Cara pálida grita, cara pálida coloca de castigo, cara pálida julga, cara pálida mente, cara pálida aponta o dedo,  Mim  tem muito medo dos caras pálidas e dos outros caras também. Para  Mim  todos os caras são iguais,  Mim  tem medo de todos os caras. Mim tem dificuldades de sentir o Grande...

O Fósforo Úmido

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" A doença das emoções opera de forma sutil. Ela se assemelha à história de uma mulher que, todas as noites, esquecia sua caixa de fósforos na janela aberta, exposta à umidade do sereno. Pela manhã, inevitavelmente, era um sacrifício conseguir acender um único palito. Imediatamente, começavam as reclamações: "Esses fósforos não prestam! Esta marca já foi melhor... Que porcaria! Já não se fazem mais fósforos como antigamente. Tudo mudou para pior! Nunca mais compro desse fabricante." O marido, que compartilhava da mesma dinâmica emocional, sentia-se incomodado com o barulho e retrucava: "Eu já te falei para não deixar a caixa perto da janela! Mas não adianta, você sempre deixa." A resposta vinha rápida como um raio: "Mas eu nunca deixo a caixa na janela! Deve ter sido vo...

Minha Dulcinéia aos 14 Anos

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Eu tinha 14 anos quando a vi pela primeira vez. Linda. Sorridente. Meiga.  A princesa do conto de fadas que ia preencher minha vida de sentido até o fim.  Num segundo, eu transformei uma garota normal numa deusa vinda de outra galáxia. Esse foi o primeiro tiro certeiro da codependência em mim. Porque nós, codependentes, somos exímios sonhadores.  Temos medo do mundo real, então criamos o nosso. Idealizado. Perfeito. Nosso! Se passaram mais de 50 anos desde aquele dia.  E até hoje, aqui dentro, mora a sensação de que ela poderia me salvar. Me levar num passe de mágica pra um lugar feliz que eu nunca visitei. É como se tudo tivesse acontecido há 5 minutos —  Na codependência, a dor da infância é uma ferida aberta.  Todos os dias são o mesmo dia. Se você não é codependente, va...

A Criança Oculta: A Linha que Divide a Neurose e a Codependência

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Lendo nas páginas do livro da minha própria vida, finalmente percebi a sutil diferença entre minha neurose e minha codependência. Toda criança, ao nascer, traz potencialmente um adulto dentro de si. A partir do primeiro suspiro, ela começa a crescer e a se desenvolver em direção a esse adulto que um dia será. No entanto, nesse processo natural, algo curioso acontece: mesmo quando o adulto se manifesta plenamente, a criança não desaparece. Ela permanece viva, habitando nosso íntimo como a nossa eterna criança interior. A neurose ocorre quando o adulto negligencia, silencia e se esquece da criança que foi um dia — abandonando sua imortal essência infantil. A codependência se instala quando essa criança interior esquecida decide bater à porta do adulto, reclamando desesperadamente por sua presen...

A Criança Esquecida no Porão

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" O Sr. Neurótico recebeu um visitante em casa. Orgulhoso, mostrou cada cômodo reformado. Até que, no meio da visita, um som estranho: um choro abafado. Um lamento de criança. O visitante parou. "O senhor tem filhos pequenos?" "Não", respondeu o Sr. Neurótico, confuso. "Meus filhos já cresceram. Deve ser engano." Mas não era. Havia sim uma criança naquela casa. Perdida. Machucada. Trancada num porão nos fundos. O Sr. Neurótico não mentiu. Ele só não sabia. Não sabia que existia um porão ali. Nem que uma parte dele chorava por atenção, há anos. Essa é a minha neurose profunda. Minha mente esconde dores e segredos em lugares tão escuros a ponto de eu mesmo perder o acesso. Passei muitos anos da minha vida reformando e decorando minha casa, mas esqueci de cuidar do me...