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No Princípio Era o Poço

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" No princípio, havia apenas um poço muito fundo, um túnel escuro e sem saída, e montanhas longínquas e intransponíveis. Tudo era dor sem fim, trevas, solidão e depressão profunda. Até que, num certo dia, uma réstia de luz venceu a escuridão e me encontrou no mais completo autoabandono. Na presença daquele raio luminoso, vi uma árvore pela primeira vez na vida — apesar dos meus 34 anos de idade. Era uma ameixeira. Peguei uma de suas sementes, plantei em uma lata e passei a cuidar dela. A planta germinou, e foi exatamente nesse dia que o meu despertar começou, quatro anos antes de eu conhecer os 12 Passos. Lá se vão muitos anos desde aquele dia glorioso. Nunca mais parei de plantar árvores e, quando entrei no programa, fiz delas o meu Poder Superior — o que não foi nada difícil para mim. Trabalh...

Os Verdes Mares de Fortaleza

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" 1970... Meu pai era caminhoneiro. Certa vez, ele fez a viagem mais longa da vida: de Volta Redonda, no Rio de Janeiro, até Fortaleza, no Ceará. Quase 2.580 km de estrada. Demorou mais de um mês para voltar, e eu senti muito a falta dele. Quando finalmente retornou, a casa inteira se encheu de alegria. E ele me disse uma frase que ficou gravada para sempre: — Meu filho, viajei até o fim da BR-116. Então eu perguntei: — Pai... e o que tinha depois do fim da estrada? Ele respondeu: — O mar, meu filho. Depois da estrada, só o mar sem fim. Um dia, eu preciso ver com meus próprios olhos esse mar de Fortaleza. Ele era tão grande que não coube no olhar do meu velho pai, o caminhoneiro Sebastião. E, muito provavelmente, também não vai caber no meu. 2026... Fui a um encontro em Fortaleza. Revi velhos a...

A Capa da Ausência

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Sempre fui fascinado pelos filmes do Homem Invisível. A ideia de poder estar em qualquer lugar sem ser notado era incrivelmente atraente. Mas, ao refletir sobre isso, percebi que buscava algo mais profundo: talvez eu quisesse ser invisível porque, no fundo, tinha medo de ser ferido. A capa da invisibilidade do herói nunca foi uma opção para mim. Em vez disso, criei a minha própria versão — a capa da ausência. A diferença é sutil, mas profunda. O Homem Invisível está presente no mundo, interagindo com as coisas e as pessoas, mesmo que ninguém possa vê-lo. Já eu, com a minha capa da ausência, estou fisicamente presente, notado por todos, mas minha mente e meu coração raramente habitam o lugar onde piso. É uma sensação estranha viver escondido no meio de uma multidão, desconectado do mundo e pro...

Conversa de Neurótico

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Eu, na condição de neurótico, penso de forma A, ajo de forma B e falo de forma C. — Uai, moço, então o C é neurótico! Mas é claro que não! — Uai, sô, mas o C escreveu isto. Mas é claro que sim... ah, é porque eu escrevo de uma forma D. — Mas como assim o C escreve de uma forma D? De uma forma D doido. — Uai, esse trem tá complicado, então o C é doido! Mas é claro, eu não sou doido. — Moço, mas então o C é completamente neurótico! Mas é claro, o neurótico é o C. — Moço, vamos parar com essa prosa, o C é muito complicado. O C tem razão — mas é claro que eu não sou neurótico. — Até que enfim chegamos num entendimento desse trem, sô. O C tem razão, mas é claro que eu não sou neurótico: o neurótico é o D e o doido é o C. Clique em O Toque de Deus para ler a crônica anterior, ou em A Capa da Ausên...

O Toque de Deus

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Eu preciso tocar nas minhas feridas emocionais diariamente. É um toque doloroso, mas, se o evito, a angústia se torna ainda mais intensa. O que machuca já não é a ferida em si, mas a ausência do meu próprio toque — o eco da minha autorrejeição. É um paradoxo perverso: ao tentar fugir do sofrimento, eu o amplifico; ao ousar tocar minhas feridas, eu abro caminho para a cicatrização. Se eu não me toco, torno-me intocável para o mundo. E, conforme concebo o divino, preciso ardentemente do toque Dele para reaprender a me acolher e, assim, sentir transbordar o meu próprio toque de amor por todas as expressões da vida. Clique em O Agricultor e o Incendiário para ler a crônica anterior, ou em Conversa de Neurótico para ler a seguinte. Pública é a minha codependência, consciente de que sou muito mai...

O Agricultor e o Incendiário

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Ontem, fui ao campo. Estava em paz, acreditando que o aceiro impediria o fogo de avançar até lá.  Mas ele chegou. Queimou muitas árvores e me deixou uma profunda tristeza.  “Como isso aconteceu, se a área está protegida?” Olhando em volta, vi muito pasto queimado ao longe. Na cerca, o fogo sempre parava. Ele não entrou sozinho. Percebi: quem entrou foi o incendiário. Por um impulso doentio, riscou o fósforo na área de reflorestamento. Em meu próprio processo de recuperação em 12 Passos, preciso aceitar que foi o fogo que queimou meu campo, não a pessoa. Se eu me prender à raiva e a pensamentos de vingança contra alguém que nem conheço, retorno ao ressentimento, ao vitimismo e à doença. Só por hoje, o irmão fogo consumiu as árvores do amado campo degradado que adotei com amor.  Eu aceito e...

O Passo da Prontificação

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" No Sexto Passo, me prontifico inteiramente a deixar que Deus remova todos os meus defeitos de caráter. Demorei uma barbaridade para compreender este passo; a princípio, achava que era um erro de impressão, algo totalmente sem sentido. Estava redondamente enganado... Eu não conseguia entender o sentido do Passo Seis simplesmente por não enxergar que eu possuía — e ainda possuo — defeitos de caráter. A raiz da minha doença emocional é a negação de minhas próprias falhas. É uma patologia que deturpa tudo ao meu redor, transformando os outros em seres defeituosos e chatos que precisam ser corrigidos por mim. É ela que faz de mim um Dom Quixote moderno, saindo de casa todos os dias para tentar transformar o mundo à força, em uma cruzada de absoluta insanidade. A profundidade da minha recuperação é...