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A Hóspede do Meu Interior

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Mora uma doença em minha casa. Não aqui, no interior onde vivo, mas no meu próprio interior. Está hospedada há muito tempo; chegou devagar e fui deixando ficar. Optei por não incomodá-la, sobretudo quando descobri que era extremamente temperamental. Com o passar do tempo, ela foi tomando conta de tudo, transformando-se numa governanta controladora de grande parte das minhas emoções e sentimentos. Passou a se envolver de tal forma na minha vida que, desde então, já não sei dizer se as minhas reações aos eventos da vida são minhas ou se são ditadas por ela. Creio que se transformou na gerente da minha existência — que coisa. Passou a viver dentro de mim como uma hóspede indesejada, infernizando meus dias. Preciso mandá-la embora, mas já não sei como fazer isso. Ela cresceu tanto, envolveu-me de...

A Ilusão do Bom Sujeito

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" — Viajante Emocional, descanse um pouco a enxada e venha aqui... — Pois não. — Se dividíssemos as dores da mente e da alma em dois grandes lados — o dos malvados e o dos bonzinhos —, de que lado você se colocaria? — Bonzinhos e malvados? — Por aí, Viajante Emocional. Bonzinhos e malvados, algozes e vítimas, espertos e tolos... Compreendeu? — Compreendi. — E em qual das turmas você ficaria? — Sem dúvida, no grupo dos doentes bonzinhos. — E o que faz de você um bonzinho, Viajante Emocional? — Eu nunca contrario ninguém; jamais digo um "não"; engulo sapos para agradar; soterro os meus sentimentos e me torno invisível ao menor sinal de conflito. Tudo isso faz de mim um sujeito bastante bonzinho. — E por que agir assim, Viajante Emocional? — Porque não suporto os malvados e me falta cora...

As Dezesseis Cadeiras Vazias

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" 19:00 horas. Estou na sala presencial. Chove lá fora. Aqui dentro, dezesseis cadeiras vazias.  Amo a sala de 12 Passos viva, acolhedora. Sem as pessoas, é só mais um cômodo qualquer. Aguardo mais um pouco. Quem sabe alguém chega?  Não posso reclamar. Aceito que a chuva atrapalhe os caminhos. Não controlo o tempo, não controlo os companheiros, não controlo nem minhas próprias emoções. Não controlo nada. Na sala ao lado, em vinte minutos, começa a reunião de AA, a irmandade mãe. Se ninguém vier, me junto a eles. Posso me identificar como alcoólico seco — afinal, o programa de 12 Passos também tem a sua dose de “secos e molhados”. A chuva cai, as cadeiras esperam. No ruído dos carros sobre o asfalto molhado e no silêncio que se faz, sinto a presença de um Poder Superior, conforme eu O concebo. N...

O orgulhoso Boneco de Cera

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Era uma vez um boneco de cera que vivia isolado em seu grandioso e sombrio castelo — uma fortaleza erguida, tijolo por tijolo, sobre o alicerce do puro orgulho. Todas as manhãs, ele se corroía por dentro. Para além de suas muralhas, o mundo despertava banhado por uma luz exuberante. E o boneco de cera detestava a luz. Incapaz de tolerar aquilo, decidiu abandonar a escuridão para enfrentar aquele que, sem sua permissão, ousava iluminar seus domínios. Antes do alvorecer, empunhou sua espada e vestiu sua rígida armadura — feita de ferro e amargura. Marchou até o pátio, disposto a acertar as contas com o sol, cujo clarão sentia como um insulto diário.  Permaneceu ali, imóvel, espada em punho, olhar fixo no horizonte. O tempo passou. A claridade foi surgindo, lenta e inexorável. Enraivecido, ele a...

Um Encontro com a Alegria

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Na época em que a depressão me dominava, eu imaginava o despertar espiritual como um raio de luz cortando as nuvens, por onde chegariam seres celestiais para carregar minhas dores para sempre, fazendo de mim um santo feliz no mesmo instante. Que nada! Era o segundo dia do encontro nacional da irmandade de 12 Passos, em um sábado de setembro em Guarapari. Levantei cedo e fui caminhar antes do café da manhã. No caminho, fui atravessado por uma alegria avassaladora. Era a alegria do meu pai, o Sebastião — uma força tão viva que transbordava para todos ao redor. Não cabia dentro de mim, do mesmo jeito que não cabia nele. Foi um sentimento que jorrou do meu peito aos borbotões ao longo de todo aquele dia. "Senhor da Vida, conforme eu O concebo, desejo que todas as pessoas encontrem essa mesma...

Depressão: O Inferno Interior.

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Vivi cinquenta anos no inferno. Acordava todos os dias desejando não existir, mas a vida teimava em pulsar dentro de mim. ​Naquele lugar, eu não suportava a pessoa que era, tampouco aceitava os outros como eram. Em síntese: eu não gostava de gente. Minha mente dividia o mundo em duas categorias rígidas: os maus e os bons; os algozes e as vítimas. Claro que me colocava entre os bons, ainda que, desse lado, só coubesse eu e mais meia dúzia de almas — consequência direta de uma rejeição cega que me impedia de enxergar um milímetro além do meu próprio nariz. ​Enquanto acreditei que aquele inferno era provocado por terceiros ou por circunstâncias que eu tentava alterar com pensamentos mágicos e imaginação, permaneci trancado no mesmo sofrimento. ​Meus demônios tinham o rosto das pessoas autoritári...

Morando nos Outros

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Aos 19 anos saí da casa dos meus pais, no interior, para estudar e morar no Rio de Janeiro. Nunca mais voltei. Mas houve uma saída anterior e mais profunda: quando nasci, saí do ventre da minha mãe e fui morar nos outros. Nunca morei em mim. Hoje, 67 anos depois, ainda não encontrei totalmente o caminho de volta para a minha própria casa. Mas já não estou mais perdido. O programa de 12 Passos tem sido o mapa que me orienta de volta para o meu lar, não aquele no interior do mundo, mas aquele no interior de mim. Clique em Sob o Céu de Guarapari para ler a crônica anterior, ou em Depressão: O Inferno Interior  para ler a seguinte. Pública é a minha codependência, consciente de que sou muito maior do que todas as minhas ilusões. Só por hoje, eu me dou o direito de ser a pessoa mais importante da...