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As Duas Bolhas

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Observei duas bolhas, transparentes como gotas d’água, lado a lado. Na primeira, uma criança. Carregava tristeza, angústia e uma carência funda. Em sua dor, procurava alguém que aplacasse seu sofrimento. Na segunda, um adulto. Mente acelerada, um mar sem fim de pensamentos, fugas e fantasias. Racional ao extremo, mas por dentro o mundo era escuro, triste, depressivo. Também buscava alguém — talvez uma alma gêmea — que rompesse sua solidão absoluta. Apesar de tão próximas, a criança não via o adulto. E vice-versa. Na bolha dela, uma placa: “Criança Codependente”. Na dele: “Adulto Neurótico”. Não sei como, mas as bolhas sumiram. Uma força poderosa os atraiu, creio que tenha sido a força do amor. No encontro, fundiram-se. Adulto e criança tornaram-se um só — sem neurose, sem codependência. Públi...

O Eu Verdadeiro e o Falso eu

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" "Quem está aí preso dentro de mim?" Sou Eu, o seu Eu mais profundo. "Deve haver algum engano, pois eu estou aqui do lado de fora." Quem está aí do lado de fora é o seu eu falso, superficial. Seu eu verdadeiro sou Eu, aqui dentro. "E por que seria você aí dentro o meu Eu verdadeiro, enquanto aqui fora sou o meu eu falso?" Porque aqui dentro Eu não uso máscaras. Sou absolutamente autêntico. "Máscaras? Como assim, máscaras?" Você aí fora sente medo, solidão, ressentimentos, mágoas, angústia, raiva, anorexia, fobias, desejos sem fim de controle, rejeição... Já consegue perceber que isso são máscaras? Que você as usa para tentar se adequar minimamente ao mundo? Já percebe que essas máscaras não te definem, e que são apenas formas de adaptação à sua realidade...

A Procrastinação

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Depois da recuperação serei feliz; hoje ainda não. Quando não sentir mais a funda depressão serei um homem realizado, mas só depois, por ora não. Estou pensando aqui num Quarto Passo que farei, onde revelarei todas as minhas dificuldades emocionais, mas hoje não, já que estou no quarto vou pensar mais um pouco e logo em seguida dormir bastante aguardando pelo dia de amanhã, o grande dia da minha libertação. Hoje tem reunião presencial, mas logo hoje que está tão frio. Melhor eu deixar para ir na reunião na semana que vem, hoje não, hoje ficarei em caso pensando um pouco, comendo um pouco, lendo um pouco, fugindo um pouco, mas na semana que vem certamente estarei presente na sala. Preciso praticar o Terceiro Passo e fazer a minha entrega para Deus. Este passo é muito difícil para mim, e no meu...

Os Marimbondos Mentais

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Na cozinha, meu sobrinho neto que está no espectro autista - não sei precisar o nível, mas sei que não é o nível 1, o nível leve - falou com a avó: "Vovó, eu gostaria de parar de pensar, penso tanto e o tempo todo sem parar vovó. Ficou muito cansado de tanto pensar." Teria a avó compreendido toda a extensão do drama do neto? Dentro do espectro autista sei exatamente o que são os pensamentos contínuos o tempo todo por todo o tempo, pensamentos que furtam cada instante presente da vida fora do mundo mental. O Nível 1, anteriormente conhecido como "autismo leve" ou "Síndrome de Asperger", é a classificação que exige baixo nível de suporte. Indivíduos neste nível possuem boa comunicação verbal e autonomia, mas enfrentam desafios sutis, porém significativos, na intera...

Eu e o Meu Velho Ego

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" O meu ego existe pra manter-me vivo e funcional como indivíduo. Ele é basicamente o “gerente” da minha mente. Sem meu ego, eu não saberia onde termino e onde o resto do mundo começa. Através dele consigo dizer "meu nome", "minha história", "meus limites", "meu endereço", etc. Sem ele eu não conseguiria atravessar a rua sem ser atropelado, não conseguiria comprar um pão, não conseguiria voltar para minha casa... Sem ele eu estaria completamente perdido neste planeta — meu ego é minha identidade o GPS da minha vida. Meu ego me faz sentir medo de pular de um prédio, vergonha pra não sair pelado na rua, orgulho para defender meu território... Evolutivamente, quem não tinha ego virou almoço de fera. O paradoxo é que o mesmo ego que me protege também me limit...

Olhem Lá Dentro do Poço

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Olhem lá dentro do poço, olhem... Sou eu companheiros, sou eu completamente enraivecido, arruinado, endurecido, magoado, chateado, revoltado... Estou nas cordas apanhando da vida, estou nas cordas amedrontado, ferido, envergonhado, estou nas cordas companheiros... Sinto-me como um lixo humano; sinto-me como o verme putrefato da pata traseira esquerda do cavalo do bandido; sinto-me como poeira voando ao sabor dos ventos; sinto-me como um ser sem valor nenhum; sinto-me como o pó cósmico perdido para sempre dentro de um grande buraco negro em algum lugar distante do universo. Ah, miséria sem fim... Todos os dias desperto do meu pesadelo com a sensação de estar carregando um saco de cimento sobre o peito e arrastando pesadas correntes atadas aos meus pés. Meus sentimentos de cansaço e desânimo sã...

A Vergonha Tóxica e a Ave Fênix

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Cinco da manhã. Acordo. Antes de qualquer pensamento comum, vejo sob um nevoeiro um grande círculo de pessoas. No centro, uma criança. Um bebê. O ar é pesado. Opressivo. Ninguém sorri. Todas de cara fechada. Olhares duros. Amarguradas. Raivosas. Ressentidas. Intolerantes. Todas querendo se libertar de algo. Todas prontas pra julgar. Pra punir. Era um julgamento. As pessoas do círculo eram os juízes. E eu, a criança indefesa no centro, era o réu. Todos falam juntos, ao mesmo tempo, a mesma coisa:  "Você é o nosso problema. Você é o problema de toda a humanidade. Veja o que você fez. Isto é intolerável. Estamos com raiva e a culpa é sua! Estamos frustrados e a culpa é sua! Magoados, ressentidos, ofendidos, revoltados — a culpa é sua! Nossa vida é péssima e a culpa é toda sua!" De repe...