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Vergonha Tóxica: A Filha no Canto Escuro

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  " Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" A expressão "onde Judas perdeu as botas" costuma definir um lugar distante, isolado, de difícil acesso. Para mim, contudo, esse lugar inacessível é aquele onde habita a minha vergonha tóxica. Sei onde fica. Através de atalhos emocionais já conhecidos, chego lá na velocidade do pensamento. Mas luto para não ir. Edifico barreiras para me proteger desse encontro: rejeição, retraimento, isolamento, fugas, pensamentos acelerados e ansiedade... Se a vergonha tóxica fosse minha filha, seria uma filha renegada. Uma filha a quem eu nunca dirigiria o olhar, escondida num canto escuro da casa. Uma presença insuportável, que me arranca o chão e me lança num abismo de desequilíbrio — sem ação, sem palavra, sem nada. Perdido no tempo e no espaço, desejando apenas desaparecer. A aversão seria ab...

O Mundo é Grande

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Quando eu vivia fechado no meu próprio e escuro mundinho — onde tudo girava em torno do meu umbigo —, eu sentia apenas a minha própria dor. Sentia-me único no mundo. Mas, assim como a manhã sempre chega, a recuperação também veio trazendo a luz. Somente por hoje, percebo que já não estou mais isolado. Que graça! O mundo deixou de girar ao meu redor, e agora, além do que me dói, consigo enxergar e sentir a dor do outro. A recuperação é este grande processo de despertar: o momento em que descobrimos que não estamos mais sós. Neste momento, já não sou mais o único no mundo. Clique em A Fugaz Felicidade Codependente para ler a crônica anterior, ou em Vergonha Tóxica: A Filha no Canto Escuro  para ler a seguinte. Pública é a minha codependência, consciente de que sou muito maior do que todas as m...

A Fugaz Felicidade Codependente

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Desejo intensamente ser feliz, mas nunca agora — é preciso sempre esperar mais um pouco. Meu pai é um homem de estradas. Quando ele voltar, aguardarei a felicidade e, com a sua chegada, serei finalmente pleno. No intervalo entre a partida e o retorno, restam apenas o vazio e uma saudade que pesa e entristece. Até que ele, enfim, retorna, trazendo consigo a minha alegria. Oh, glória! Papai voltou. Agora sou feliz. Contudo, já no dia seguinte, mesmo com ele em casa, volto a ansiar pela felicidade. Ela já se foi, evaporou-se, e eu recaio no velho padrão de buscar o bem-estar não no aqui e no agora, mas num instante futuro que teima em não se fixar. Papai parte novamente em seu caminhão, e o golpe se repete: “Oh, que dor, papai partiu. Se ele ficasse, eu seria imensamente feliz...” E assim o cicl...

O Orvalho no Deserto

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" O deserto é tão quente que impede que uma única gota d'água toque o seu solo árido — ela evapora antes mesmo de alcançar o chão. A rejeição que ainda sinto age exatamente assim: como um calor que repele a queda de uma simples gota do momento presente na minha terra ressecada. Para transformar essa realidade, preciso aprender a me entregar. Apenas assim um minúsculo pingo de Deus conseguirá, enfim, tocar a minha alma, transformando-a em solo fértil e cheio de vida — o Terceiro Passo. Assim como uma única fagulha foi capaz de incinerar todo o meu campo, compreendo que basta um toque do Divino para inflamar a minha existência, reacendendo a Sua presença viva dentro de mim. Tenho fé nos resultados da prática do programa de 12 Passos. Clique em A Doença do Eu Sozinho para ler a crônica anteri...

A Doença do Eu Sozinho

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" A doença da minha emoção é a doença do “eu sozinho”: aquela em que tenho sempre razão e sei exatamente como curar o mal alheio. Poderia ser também a doença do controle, na qual — é claro — governo tudo para que o mundo funcione do meu jeito. (Seria eu um imperador?) Tento buscar a paz assim: uma paz imposta de fora para dentro, pela força da minha vontade, e nunca pela via do autoconhecimento. Ilusão pura. Arquitetura mental inútil. Poderia ser, ainda, a doença da cegueira espiritual. Enxergo com nitidez cirúrgica os defeitos dos outros, revolto-me com eles e quero transformá-los a todo custo, enquanto sigo cego para as minhas próprias falhas. Para o meu ego imaturo, o mundo deveria ser uma galeria de espelhos projetando a minha figura por onde eu caminhasse. A glória máxima do velho ego... Q...

Lugar de Bodes é no Pasto

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" O problema não está naquilo que compartilho nas Salas de 12 Passos. O que verbalizo é solução: é luz, recuperação e libertação. O verdadeiro problema — e que problema! — está naquilo sobre o que me calo. Está no que ainda escondo e que me prende a velhos julgamentos e a padrões de comportamento já arruinados: os meus velhos bodes. Aquilo que compartilho me liberta; aquilo que oculto me aprisiona. Guardado por tanto tempo, apodreceu dentro de mim, fazendo-me um mal imenso. Uma Sala de 12 Passos é o único lugar no universo onde posso ser verdadeiramente eu mesmo, sem julgamentos, expressando-me com a mais profunda liberdade. Nem mesmo numa fuga para Marte eu encontraria tamanha acolhida e confiança. Quando falo com o coração, muitos me ouvem e — que maravilha — ninguém me critica. Pelo contrári...

À Caça de Mim Mesmo

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Sou profundamente grato ao Poder Superior, conforme eu O concebo. Felizmente, não adotei bichinhos virtuais nem saí caçando criaturas em telas; dessas modernidades consegui me livrar. Para a maioria das pessoas, contudo, sou meio doido. Ando pelas ruas recolhendo sementes e, tempos depois, volto aos mesmos cantos para cuidar das mudas que nasceram. Dizem que sou lelé, esquisito, funcionário da prefeitura ou biólogo. Alguns acham que queimei os miolos estudando matemática, e há quem jure que sou um ET vindo de longe. Ninguém fala comigo; preferem apenas julgar de longe. Mal sabem eles que frequento grupos de 12 Passos — do contrário, já teriam chamado o resgate. Cuidar de brinquedos eletrônicos é socialmente aceito. O que não aceitam é acordar cedo para plantar árvores, preocupar-se com o futu...