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A Capa da Ausência

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Sempre fui fascinado pelos filmes do Homem Invisível. A ideia de poder estar em qualquer lugar sem ser notado era incrivelmente atraente. Mas, ao refletir sobre isso, percebi que buscava algo mais profundo: talvez eu quisesse ser invisível porque, no fundo, tinha medo de ser ferido. A capa da invisibilidade do herói nunca foi uma opção para mim. Em vez disso, criei a minha própria versão — a capa da ausência. A diferença é sutil, mas profunda. O Homem Invisível está presente no mundo, interagindo com as coisas e as pessoas, mesmo que ninguém possa vê-lo. Já eu, com a minha capa da ausência, estou fisicamente presente, notado por todos, mas minha mente e meu coração raramente habitam o lugar onde piso. É uma sensação estranha viver escondido no meio de uma multidão, desconectado do mundo e pro...

Conversa de Neurótico

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Eu, na condição de neurótico, penso de forma A, ajo de forma B e falo de forma C. — Uai, moço, então o C é neurótico! Mas é claro que não! — Uai, sô, mas o C escreveu isto. Mas é claro que sim... ah, é porque eu escrevo de uma forma D. — Mas como assim o C escreve de uma forma D? De uma forma D doido. — Uai, esse trem tá complicado, então o C é doido! Mas é claro, eu não sou doido. — Moço, mas então o C é completamente neurótico! Mas é claro, o neurótico é o C. — Moço, vamos parar com essa prosa, o C é muito complicado. O C tem razão — mas é claro que eu não sou neurótico. — Até que enfim chegamos num entendimento desse trem, sô. O C tem razão, mas é claro que eu não sou neurótico: o neurótico é o D e o doido é o C. Clique em O Toque de Deus para ler a crônica anterior, ou em A Capa da Ausên...

O Toque de Deus

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Eu preciso tocar nas minhas feridas emocionais diariamente. É um toque doloroso, mas, se o evito, a angústia se torna ainda mais intensa. O que machuca já não é a ferida em si, mas a ausência do meu próprio toque — o eco da minha autorrejeição. É um paradoxo perverso: ao tentar fugir do sofrimento, eu o amplifico; ao ousar tocar minhas feridas, eu abro caminho para a cicatrização. Se eu não me toco, torno-me intocável para o mundo. E, conforme concebo o divino, preciso ardentemente do toque Dele para reaprender a me acolher e, assim, sentir transbordar o meu próprio toque de amor por todas as expressões da vida. Clique em O Agricultor e o Incendiário para ler a crônica anterior, ou em Conversa de Neurótico para ler a seguinte. Pública é a minha codependência, consciente de que sou muito mai...

O Agricultor e o Incendiário

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Ontem, fui ao campo. Estava em paz, acreditando que o aceiro impediria o fogo de avançar até lá.  Mas ele chegou. Queimou muitas árvores e me deixou uma profunda tristeza.  “Como isso aconteceu, se a área está protegida?” Olhando em volta, vi muito pasto queimado ao longe. Na cerca, o fogo sempre parava. Ele não entrou sozinho. Percebi: quem entrou foi o incendiário. Por um impulso doentio, riscou o fósforo na área de reflorestamento. Em meu próprio processo de recuperação em 12 Passos, preciso aceitar que foi o fogo que queimou meu campo, não a pessoa. Se eu me prender à raiva e a pensamentos de vingança contra alguém que nem conheço, retorno ao ressentimento, ao vitimismo e à doença. Só por hoje, o irmão fogo consumiu as árvores do amado campo degradado que adotei com amor.  Eu aceito e...

O Passo da Prontificação

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" No Sexto Passo, me prontifico inteiramente a deixar que Deus remova todos os meus defeitos de caráter. Demorei uma barbaridade para compreender este passo; a princípio, achava que era um erro de impressão, algo totalmente sem sentido. Estava redondamente enganado... Eu não conseguia entender o sentido do Passo Seis simplesmente por não enxergar que eu possuía — e ainda possuo — defeitos de caráter. A raiz da minha doença emocional é a negação de minhas próprias falhas. É uma patologia que deturpa tudo ao meu redor, transformando os outros em seres defeituosos e chatos que precisam ser corrigidos por mim. É ela que faz de mim um Dom Quixote moderno, saindo de casa todos os dias para tentar transformar o mundo à força, em uma cruzada de absoluta insanidade. A profundidade da minha recuperação é...

Meu Pasto Mental

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Passo por um pasto no campo, olho para ele e penso: "Poderia plantar mil árvores aqui." Pouco depois, passa um construtor e pensa: "Daria para erguer um condomínio de prédios neste espaço." Passa um pecuarista e calcula: "Conseguiria engordar duzentos bois neste pasto." Passa um agricultor e vislumbra: "Aqui nasceria um lindo milharal." Passa um pintor e se encanta: "Que cenário belo, preciso retratá-lo em tela." Passa um religioso e projeta: "Poderia construir um templo sagrado neste pedaço de chão." Até que passa um piromaníaco. Olha e nem pensa: vai direto à borda do capinzal, risca um fósforo e sente uma alegria doentia ao ver tudo arder em chamas. O pasto é exatamente o mesmo, mas a perspectiva e a reação diante dele mudam confo...

O Passo da Entrega

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" O Terceiro Passo é o Passo da entrega a um Poder Superior, conforme eu O concebo. Mas a verdade é que eu já conhecia a entrega... Durante muitos anos, vivi profundamente à mercê de quadros depressivos graves, experimentando de forma intensa e constante cada minuto dos meus infortúnios mentais. Por muito tempo, entreguei-me de corpo e alma às minhas dores, aos meus medos, aos meus horrores, às minhas angústias e às minhas desilusões intermináveis. Entreguei-me verdadeiramente a isso. Eu conheço a entrega. E, por conhecê-la tão profundamente — e também por ignorância espiritual —, acabei entregue à minha própria escuridão, entregue à minha própria indigência. Hoje, no café da manhã, isso me veio à cabeça. Refleti e pensei: "Viajante Emocional, se você tem essa força extraordinária de entre...