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Escrevendo Para Minha Criança Interior Ferida

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Belo Horizonte, 13 de junho de 2024 Querido Lolô, Tenho ótimas lembranças de você na minha infância. Sempre gostei da sua espontaneidade e ficava maravilhado de vê-lo divertindo-se num monte de areia, rolando pelo chão seus carrinhos de lata, ou ainda soltando pipa sozinho nos campos, sob o vento suave do outono. O tempo passou, Lolô. E, com o tempo, eu cresci. Crescendo, acabei me esquecendo de você, achando que o adulto que me tornei seria capaz de resgatar por conta própria toda a alegria que sentia na sua presença. Errei feio, Lolô. Nada do que conquistei no mundo adulto me trouxe de volta aquele contentamento antigo. A cada dia e a cada nova conquista, fui ficando mais amargurado, até perder-me completamente em profundos poços depressivos. Passados tantos anos, Lolô, lembrei-me novamente...

A Escuridão do Inferno Depressivo

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Vivi cinquenta anos no inferno. Acordava todos os dias desejando não existir, mas a vida teimava em pulsar dentro de mim. ​Naquele lugar, eu não suportava a pessoa que era, tampouco aceitava os outros como eram. Em síntese: eu não gostava de gente. Minha mente dividia o mundo em duas categorias rígidas: os maus e os bons; os algozes e as vítimas. Claro que me colocava entre os bons, ainda que, desse lado, só coubesse eu e mais meia dúzia de almas — consequência direta de uma rejeição cega que me impedia de enxergar um milímetro além do meu próprio nariz. ​Enquanto acreditei que aquele inferno era provocado por terceiros ou por circunstâncias que eu tentava alterar com pensamentos mágicos e imaginação, permaneci trancado no mesmo sofrimento. ​Meus demônios tinham o rosto das pessoas autoritári...

O Próximo que habita em mim

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Aprendi desde cedo que devo amar a Deus (conforme eu O concebo) sobre todas as coisas, e ao próximo como a mim mesmo. "Viajante Emocional, quem é o seu próximo?" O meu próximo são os outros. E o outro mais próximo é o próximo do momento, creio eu. "Mas, Viajante Emocional, você sempre teve dificuldade nos relacionamentos com os outros — e quanto mais próximos de ti, maior é essa dificuldade. Então, como amá-los?" Faço um grande esforço nesse sentido, mas percebo sinceramente que não consigo avançar muito, principalmente quando esses próximos são tão irritados, intransigentes, orgulhosos, manipuladores, controladores, distantes, tão... "Tão parecidos com você, Viajante Emocional!" Parecidos comigo? "Sim, Viajante Emocional. Você tem grande dificuldade com os ...

A Insônia e o Cavalo Mental

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" São 4h30 da manhã. Minha mente transborda como uma cachoeira em fluxo contínuo e exaustivo. Sinto a cabeça quente, prestes a ferver: preciso encontrar o interruptor para desligar essa atividade incessante e relaxar antes que a resistência queime. Acompanhando a correria, chegam a ansiedade, as preocupações, as culpas do passado e a ânsia por um futuro onde eu finalmente me sinta em paz. Meus pensamentos dispararam como cavalos selvagens e, nessa pressa para lugar nenhum, roubam-me o presente. São ideias antigas, mofadas pelo tempo, que tentam me empurrar para um refúgio seguro — um lugar livre de críticas, de opressão ou da constante sensação de estar sob vigília. Meu cavalo mental corre o tempo todo, corre de si mesmo, corre de tudo o que o cerca. Corre desesperadamente na tentativa de fugir...

A inutilidade das coisas para preencher o meu vazio

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Passei anos tentando preencher meu vazio interno com distrações mentais e bens materiais.  ​O grande dilema é que nada neste mundo tem esse poder. Se existisse algo capaz de suprir essa falta, eu já teria encontrado, pois procurei e acumulei sem parar. No entanto, quanto mais juntava, mais profundo e doloroso o vazio se tornava. ​Minha mente, embora fisicamente limitada, carrega um universo infinito de entulhos acumulados ao longo do tempo: ressentimentos, raiva, fantasias românticas, pensamentos mágicos, nostalgias envelhecidas, planos futuros, vergonhas e amarguras. Tantas camadas, tanto ruído... ​Fora do campo mental, o impulso é o mesmo. Preciso me vigiar constantemente para não acumular o mundo físico: potes, garrafas, bilhetes antigos, pedras, embalagens, conchas, livros... É a compulsã...

Dá Escuridão à Luz dos Passos

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" A depressão é a morte da vida. Mas quem sofre com ela continua respirando, enquanto a existência se transforma em um mar de cinzas — um estado em que todas as quartas-feiras são de cinzas. O mar é cinza, o céu é cinza, a vegetação é cinza, tudo se cobre de cinzas sobre uma escuridão interna onde reina um cansaço infinito, como se eu arrastasse correntes pesadas nos pés. São os escombros da alegria, da esperança, do amor, do sentimento de pertencimento e do propósito de viver; as cinzas de tudo o que é belo e dignificante. Nasci com essa tendência. Desde a mais tenra infância, até onde minha memória alcança, esse estado profundo já fazia parte de mim — ou da minha morte em vida. Eu achava aquilo normal, como se viver no inferno fosse o esperado. A certeza de que esse mar de amarguras seria ete...

As Telas

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Convivo com as telas desde os anos 80. A primeira delas ficava em um escritório no Castelo, centro do Rio de Janeiro, bem em frente ao consulado francês. O consulado e o prédio onde trabalhei ainda estão lá; a tela e a empresa, não. Naquela época, tudo era novo e deslumbrante. Aquele era o meu primeiro emprego formal, o início da minha carreira, e ter uma tela de computador exclusiva sobre a mesa era um verdadeiro privilégio. Eu gostava daquela interface de fundo verde e, até hoje, tantos anos depois, ainda consigo sentir o encanto de digitar palavras e receber de volta a resposta da máquina. Ao longo de dez anos, aquela tela — e as que vieram depois — funcionou como um refúgio. Diante delas, eu sentia que pertencia ao mundo, criando projetos e escrevendo programas que me levavam a um lugar d...