O Inferno são os outros em mim
"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
Se o céu é Deus em mim, então o inferno são os outros em mim.
Nunca consegui viver a minha própria vida de forma independente, minha vida sempre foi pautada pelos outros.
Segundo o meu doentio olhar, o outro me vigia, o outro me censura, o outro olha para mim com um olhar acusador, o outro está ali, na minha frente, de forma autoritária e imperativa, então esqueço de mim, fujo de mim, sinto-me envergonhado e sem chão, transformando-me em um pasto onde o outro, pela minha dificuldade de estabelecer limites, vem pisotear e pastar...
Pastar sobre minha dignidade; pastar sobre minha individualidade; pastar sobre minhas fragilidades; pastar sobre minha omissão; pastar sobre meu medo contumaz; pastar sobre minha raiva muda e feroz; pastar sobre minha rejeição atroz; pastar sobre minha vergonha tóxica; pastar sobre minha culpa; pastar sobre minhas lágrimas represadas; pastar sobre minhas fraquezas; pastar sobre minhas tristezas; pastar sobre minhas incertezas; pastar sobre minhas carências...
É muito triste viver pautado pelos outros, é horrível regular toda a minha vida pela vida dos outros, mas é assim que a banda tem tocado para mim desde que eu percebi que existo.
Durante os anos de estudante, em todas as provas eu tinha a preocupação de tirar boas notas e passar de ano, mas eu não via estas notas como um passaporte que poderiam abrir portas futuras, mas tão somente como um escudo protetor para defender-me dos olhares de censura dos professores mais severos, e também como uma doentia forma de agradar e não ser criticado por todos os outros ao meu redor: Ele é inteligente; ele é estudioso; ele não fez mais do que a obrigação; ele poderia ter tirado uma nota melhor; ele passou de ano raspando, quase ficou reprovado; ele precisa estudar mais... Eu nunca soube lidar com as críticas e/ou elogios dos outros sobre mim.
Ah, a doentia voz em mim ditando regras para eu agradar aos outros: Sofra agora convivendo de forma infeliz com os outros para finalmente encontrar a felicidade depois da morte; agrade aos outros para receber o amor deles; nunca externe suas emoções a fim de não contrariar os outros; se a multidão gritar, grite também; se a multidão chorar, chore também; se a multidão estiver de mau humor revise suas condutas, pois a culpa pelo desequilíbrio emocional dos outros é sua; se a manada for para a direita, vá para a direita também; se a manada for para a esquerda, vá para a esquerda também; se o outro quebrar a louça assuma a culpa para que fique tudo bem; se o outro brigar com você na rua a responsabilidade é sua...
Ah, a voz sedutora, doce e romântica em mim que promete uma felicidade sem fim num tempo futuro e num lugar distante desde que eu salve todas as outras: Case com aquela moça tão bonita e meiga com um certo ar tristonho, salve-a de sua infelicidade, salve-a da tirania do pai dela e seja para ela o príncipe encantado que o seu pai não foi para a sua mãe, ou ainda o gentil lord inglês que o seu avô não foi para sua avó, e desta maneira você será o sujeito mais feliz do mundo, vivendo até o final dos seus dias com sua princesa de contos de fadas no seu lindo palácio encantado.
Ah, a voz dura e fria, a voz da censura em mim: você é muito calado; você é muito esquisito; homens não choram; você não sabe o que deseja da vida; quem estuda muito fica burro; você é uma besta quadrada; quando um burro fala o outro burro cala; você é menos inteligente do que os outros; você é um pipa voada que destoa dos outros; você é um marciano aqui no mundo dos outros; você pensa demais e é diferente dos outros; você é muito infantil e não consegue se comportar como os outros...
Dentro de mim a voz dizendo para eu salvar os outros, pois sou eu um herói, e algum tempo depois esta mesma voz dizendo que eu estou sendo usado pelos outros, e que agora eu sou uma vítima, e então a voz diz mais tarde, de forma rancorosa, que chegou o momento de eu me vingar de tudo o que os outros fizeram comigo, pois eu fui usado nas minhas mais puras intensões por eles, e então eu me transformo no algoz.
Se o céu é Deus em mim, então o inferno são os outros em mim, e o nome deste inferno é codependência.
O Programa de recuperação dos 12 Passos me ajuda a perceber minhas neuroses e minha codependência, e através desta percepção eu vou aprendendo a ouvir a minha própria voz, a voz que me compreende e aceita exatamente como eu sou, a amorosa e interna voz de um Poder Superior que me acolhe com todas as minhas misérias, fragilidades e inseguranças, voz que num breve lápso entre dois ou mais dos meus pensamentos contínuos sussura suavemente nos meus ouvidos: Prossiga na prática do programa de 12 Passos meu filho, prossiga... você está no caminho certo.
Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida.
Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se à vontade para compartilhar com os demais.
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