O Estado da Egolândia
"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
Como é difícil conviver com egos quando estou vivendo no estado do ego também. No estado do ego, a Egolândia, com suas fronteiras de norte a sul, leste a oeste, quem manda é o ego, o grande imperador destes vastos domínios mentais.
O idioma universal na Egolândia é o egocentrismo, e neste estado, todos, absolutamente todos, prestam diariamente culto ao seu imperador supremo, o ego, e por direito de nascimento todos possuem cidadania, são os egocêntricos — todos os cidadãos egocêntricos utilizam máscaras para esconderem sua essência desde o berço até o túmulo.
Os egocêntricos tem lá suas peculiaridades: todos eles possuem a solução para os problemas dos outros; todos eles acham que tem o controle de suas vidas e das vidas dos demais nas palmas das suas mãos; muitos deles são muito inteligentes, e acham que através de suas mentes brilhantes poderão idealizar grandes projetos para todas as questões que afligem o mundo — na verdade a grande maioria não passam de idealistas falidos; todos eles acham que os seus problemas são de responsabilidade dos outros; todos eles se sentem vítima de um mundo injusto e cruel; todos eles sentem culpa, medo, ressentimentos, vergonha, sentimento de não pertencimento, raiva, rejeição, depressão, fobias sem fim, ansiedade, etc. — a lista é muito extensa.
Um dos grandes problemas da Egolândia geralmente ocorre quando dois egocêntricos se encontram pelo caminho. Se por acaso o encontro for entre um egocêntrico autoritário e um egocêntrico submisso, certamente haverá atrito.
Problemas também ocorrem quando um egocêntrico salvador cruza pelo caminho com um outro egocêntrico que deseja ardentemente ser salvo, esta relação entre salvador e vítima até que vai bem por algum tempo, mas invariavelmente terminará em brigas, acusações e discussões sem fim — os egocêntricos possuem uma compulsão absurda por controlarem tudo o que os cerca, incluindo pessoas, e tudo o mais que exista, mas a questão de fato é que onde houverem dois ou mais egocêntricos, ou até mesmo um único egocêntrio, aí também estarão os problemas de convivência.
A grande maioria dos egocêntricos não são felizes vivendo na Egolândia, carregando em si o desejo de abandonarem aqueles domínios a fim de encontrarem a paz, o equilíbrio e a felicidade. Começam então a fazer grandes planejamentos para dias melhores, geralmente no futuro, e passam avidamente a correr atrás de posses, dinheiro, fama, poder e prestígio, e quanto mais conseguem estas coisas, mais infelizes se sentem.
Certa vez, um egocêntrico anônimo raiado de dores emocionais e frustrações sem fim descobriu na Egolândia um programa de 12 Passos: era uma sala simples com pessoas simples, tudo muito simples e natural. Passou a frequentar as reuniões e com o tempo percebeu que aquela programação que todos conseguiam compreender poderia libertá-lo de uma forma definitiva da escravidão do grande monarca daquele estado mental, o seu velho ego, o supremo governador da Egolândia.
Muitas 24 horas depois, já encontrando em si mesmo um estado de espírito jamais imaginado, resolveu falar sobre o seu processo de recuperação com aqueles que o cercavam, e o que aconteceu foi que ele quase apanhou em público em plena luz do dia, pois os cidadãos egocêntricos começaram a ridicularizá-lo, achando que ele havia mergulhado na mais profunda insanidade, não passando de um simples tolo falando coisas idiotas e que incomodavam a muitos.
Grande foi a sua dor a ouvir os comentários a respeito daquele programa de 12 Passos, que segundo os egocêntricos que jamais haviam pisado numa sala — o preconceito é uma verdadeira tragédia — era uma estrada que levava do nada a lugar nenhum:
"Você é um tolo, a saída da Egolândia só é possível através de medicamentos; estas salas de 12 Passos não possuem profissionais competentes para direcionar os participantes das reuniões para um lugar além das fronteiras da Egolândia, isto deve ser feito por pessoas cultas formadas nas universidades, preferencialmente aquelas com inúmeros diplomas afixados na parede; você está se iludindo com este programa, não perca o seu tempo, faça uma viagem, conquiste uma garota, compre uma casa de cinema, seja um influenciador notório e famoso que você logo encontrará a saída, mas não gaste as preciosas horas da sua vida com esta história de humildade e anonimato, isto é um logro e você está sem dúvida alguma caindo no conto do vigário, etc." — a imensa maioria dos egocêntricos que teciam estes comentários eram geralmente muito orgulhosos, e dentre todos os cidadãos da Egolândia estavam certamente entre os mais infelizes.
Depois de tantas críticas, o egocêntrico anônimo finalmente percebeu que nem todos estavam prontos para um mergulho profundo naquelas questõe espirituais pautadas nas reuniões de 12 Passos — aquela água pura —, passando a perceber no seu interior que quanto mais convivia com os egocêntricos fora de uma sala de 12 Passos, mais percebia o quanto esta sala era um refúgio onde ele sentia a máxima segurança em ser ele mesmo, sem nenhum temor de ser criticado, julgado e muitas vezes até mesmo condenado, pois o ego, apesar do seu imenso domínio sobre tudo e sobre todos nos seus vastos domínios na Egolândia, simplesmente não conseguia adentrar naquelas salas.
Ainda era muito difícil para ele despir-se de suas máscaras naquela Egolândia repleta de baile de máscaras, afinal de contas, ele era um egocêntrico também, mas ele já não era mais o mesmo, e neste seu processo de mudança simplesmente já não conseguia mais, em pleno baile egocêntrico, bailar como os demais.
Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida.
Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se à vontade para compartilhar com os demais.
Clique em O Grande Vazio para ler a crônica anterior, ou em O inferno são os outros em mim para ler a seguinte.

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