Escrevendo Para Minha Criança Interior Ferida

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade

necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"



Belo Horizonte, 13 de junho de 2024

Querido Lolô,

Tenho ótimas lembranças de você na minha infância. Sempre gostei da sua espontaneidade e ficava maravilhado de vê-lo divertindo-se num monte de areia, rolando pelo chão seus carrinhos de lata, ou ainda soltando pipa sozinho nos campos, sob o vento suave do outono.

O tempo passou, Lolô. E, com o tempo, eu cresci. Crescendo, acabei me esquecendo de você, achando que o adulto que me tornei seria capaz de resgatar por conta própria toda a alegria que sentia na sua presença. Errei feio, Lolô. Nada do que conquistei no mundo adulto me trouxe de volta aquele contentamento antigo. A cada dia e a cada nova conquista, fui ficando mais amargurado, até perder-me completamente em profundos poços depressivos.

Passados tantos anos, Lolô, lembrei-me novamente de você. Me doeu — e ainda me dói uma barbaridade — tê-lo abandonado em algum porão dentro de mim. Perdão por isso, Lolô. Hoje sinto que o meu sofrimento é o seu sofrimento também, mas finalmente estou reparando isso. Estou voltando dia a dia para resgatá-lo dos meus porões internos e transmitir de forma incondicional e presencial (a forma mental e platônica nunca funcionou) todo o amor que sempre senti e que muitas vezes lhe neguei. De agora em diante, caminharemos juntos, Lolô.

Conte sempre comigo, Lolô, e gratidão infinita por todos estes anos em que você, anônima, solitária e amorosamente, sempre me carregou no colo, sustentando-me quando o adulto em que me transformei tropeçava e caía diante dos percalços da vida.

Lolô, ao esquecer-me de você, esqueci-me de mim, vagando por muitos anos na minha própria escuridão. Eu e você somos um, Lolô. Minha iluminada e eterna criança interior, eu te amo. E te peço ainda uma última coisa: quando eu novamente voltar a vagar e me esquecer deste amor, por favor, toque-me mais uma vez, ajudando-me a reencontrar o caminho de casa. Toque-me e me diga: "Aloísio, o amor não é para ser pensado e prensado; o amor é para ser sentido, vivido e impresso por todos os lugares onde pulsa o seu coração."

Clique em A Escuridão do Inferno Depressivo para ler a crônica anterior.

Pública é a minha codependência, consciente de que sou muito maior do que todas as minhas ilusões. Só por hoje, eu me dou o direito de ser a pessoa mais importante da minha própria vida.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Emoções e Sentimentos

O Boleto da Alma: O Custo de não se tratar

A Criança Ferida Em Cima do Muro