O Próximo que habita em mim
Aprendi desde cedo que devo amar a Deus (conforme eu O concebo) sobre todas as coisas, e ao próximo como a mim mesmo.
"Viajante Emocional, quem é o seu próximo?"
O meu próximo são os outros. E o outro mais próximo é o próximo do momento, creio eu.
"Mas, Viajante Emocional, você sempre teve dificuldade nos relacionamentos com os outros — e quanto mais próximos de ti, maior é essa dificuldade. Então, como amá-los?"
Faço um grande esforço nesse sentido, mas percebo sinceramente que não consigo avançar muito, principalmente quando esses próximos são tão irritados, intransigentes, orgulhosos, manipuladores, controladores, distantes, tão...
"Tão parecidos com você, Viajante Emocional!"
Parecidos comigo?
"Sim, Viajante Emocional. Você tem grande dificuldade com os que se parecem com você, pois, no fundo, eles são o reflexo da sua própria imagem — e você nunca gostou muito da imagem que tem de si mesmo, não é?"
Sim... concordo.
"Você já consegue perceber agora quem é o próximo que você precisa amar, Viajante Emocional?"
Estou meio perdido em relação a esse próximo. Se esse próximo não é o outro, quem seria então?
"Viajante Emocional, conte para mim em brevíssimas palavras a sua experiência de ingresso na universidade."
Na época, escolhi quatro universidades federais. Meu grande sonho era passar na da primeira opção, pois era a melhor. Mas, por poucos pontos, não consegui, tendo que ir para a terceira. Esse fato me deixou muito, muito triste; fiquei simplesmente arrasado.
"E então..."
Bem... nos quatro anos em que estudei naquela universidade, não houve um dia sequer em que eu não lamentasse meu fracasso por não ter alcançado os pontos necessários para a primeira opção. Passei a me sentir um derrotado que errou questões relativamente elementares no vestibular. O sofrimento foi grande, e o desprezo que senti por mim mesmo é algo inenarrável.
"Viajante Emocional, de forma mais geral, como você se sente no cotidiano quando também não atinge os objetivos projetados no seu cabeção mental e emocional?"
Ah... quero punir-me severamente. Logo vêm a vergonha, a culpa, a frustração, a raiva, o sentimento de abandono e de não pertencimento a tudo o que é belo e bom. Meu padrão mental desaba; chegam aos borbotões pensamentos negativos que, de tão revoltados e agressivos, mais se assemelham aos antigos guerreiros bárbaros da Idade Média. Não demora muito e lá estou eu no fundo da minha caverna solitária, desolado dentro de um poço depressivo, tomado por uma amargura sem fim e por um desejo perverso e insano de me punir severamente por tanta inadequação para viver neste mundo de forma transparente e natural. Nestes momentos de desequilíbrio, chego a ficar tonto... tonto de tanta dor.
"Mas como você consegue perceber tudo isso, Viajante Emocional?"
Ah... é como se houvesse dois dentro de mim: um Viajante Emocional bom e um Viajante Emocional mau. E, nessa hora, o que o Viajante Emocional bom mais deseja é punir o mau, ou mandá-lo para um lugar bem longe, com passagem só de ida, para poder viver em paz sem carregar um fardo tão pesado.
"Um fardo pesado para o Viajante Emocional bom?"
Isso... O Viajante Emocional bom está cansado de carregar este fardo: o Viajante Emocional mau, neurótico, codependente, desajustado, com transtorno obsessivo-compulsivo, com déficit de atenção, tão doido, carente e doente...
"Viajante Emocional bom, então você sente desprezo por esse Viajante Emocional neurótico que vive dentro de você — o Viajante Emocional mau?"
Creio que sim...
"E deseja com toda a força do seu coração o afastamento e a punição desse estorvo em sua vida? Esse Viajante Emocional mau, infeliz, inseguro, inapto, burro, besta, pipa voada, rejeitado, frustrado, desajustado, fracassado, derrotado, ansioso, nervoso, depressivo, incompetente, carente, descontente, codependente, ambivalente, dentre tantas outras negatividades... segundo as suas próprias palavras?"
Sim, exatamente isto: por este Viajante Emocional neurótico tão próximo de mim!
"Tão próximo de você, Viajante Emocional?"
Sim, tão próximo que não existe distância entre eu (o Viajante Emocional bom) e ele (o Viajante Emocional mau). Pois este outro Viajante Emocional, o doente, de tão próximo, está mesmo é bem dentro de mim.
"Viajante Emocional bom, agora você finalmente consegue me dizer quem é o próximo que você precisa amar?"
O próximo que eu preciso amar é aquele que está bem dentro de mim: o Viajante Emocional mental e emocionalmente doente a quem, inconscientemente e por anos a fio, doei o mais profundo desprezo. Pois agora eu sei que eu — o Viajante Emocional bom — e o próximo — o Viajante Emocional mau — somos simplesmente um Viajante Emocional só.

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