À Caça de Mim Mesmo

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade

necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"



Sou profundamente grato ao Poder Superior, conforme eu O concebo. Felizmente, não adotei bichinhos virtuais nem saí caçando criaturas em telas; dessas modernidades consegui me livrar.

Para a maioria das pessoas, contudo, sou meio doido. Ando pelas ruas recolhendo sementes e, tempos depois, volto aos mesmos cantos para cuidar das mudas que nasceram. Dizem que sou lelé, esquisito, funcionário da prefeitura ou biólogo. Alguns acham que queimei os miolos estudando matemática, e há quem jure que sou um ET vindo de longe.

Ninguém fala comigo; preferem apenas julgar de longe. Mal sabem eles que frequento grupos de 12 Passos — do contrário, já teriam chamado o resgate.

Cuidar de brinquedos eletrônicos é socialmente aceito. O que não aceitam é acordar cedo para plantar árvores, preocupar-se com o futuro do planeta ou tentar conter o caos do mundo com as próprias mãos — um dia de cada vez, uma semente de cada vez.

Essa estranheza vem de longe. Menino ainda, eu já caminhava só pelos campos, conversando com galinhas, cães e passarinhos, ou sumindo no topo das árvores. Meu pai dizia preocupado: "Nely, ando cismado com este menino...". E minha mãe, sábia, devolvia: "Deixe o menino, Sebastião... Deixe o menino."

Hoje, escuto minhas emoções e converso com elas em meus escritos. Para o mundo, isso é loucura. Para mim, é o caminho de volta.

Vou assim, devagar e a meu modo, pelas linhas certas de Deus. Entre dias de confiança e dias de dúvida, sigo buscando a beleza que carrego por dentro.

Esta manhã, ao terminar o plantio, caminhei até o fim do terreno e encontrei uma jabuticabeira transbordando de frutos doces e reluzentes. Comi sem pressa, saboreando cada um. A árvore fora plantada por um amigo que já partiu — uma bênção que não era para ele, mas que chegou até mim.

Guardei as sementes. Vou plantá-las para que, no futuro, alguém prove desses frutos e pergunte quem esteve ali e plantou a árvore. E, no vento, poderei responder: "Foi o Poder Superior, pelas mãos de um homem que saía ao campo, bem cedinho, à caça de si mesmo."

Clique em O Império do Pensamento Compulsivo para ler a crônica anterior, ou em Lugar de Bodes é no Pasto para ler a seguinte.

Pública é a minha codependência, consciente de que sou muito maior do que todas as minhas ilusões. Só por hoje, eu me dou o direito de ser a pessoa mais importante da minha própria vida.

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