A Lei da Inércia e a Recuperação

 

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade

necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"


A Primeira Lei de Newton, também conhecida como Lei da Inércia, afirma:

“Todo corpo permanece em repouso ou em movimento retilíneo uniforme, a menos que uma força resultante atue sobre ele, modificando esse estado.”

Gosto de usar essa lei da Física como metáfora para compreender a doença emocional e o processo de recuperação. Assim como um corpo tende a conservar seu estado de movimento, também eu tendo a permanecer nos padrões emocionais e comportamentais que conheço, mesmo quando me fazem sofrer.

Na doença, minha inércia se manifesta na repetição: penso como sempre pensei, reajo como sempre reagi e percorro os mesmos caminhos, esperando resultados diferentes. Para sair desse estado, preciso de uma força capaz de provocar uma mudança. No meu caso, essa força pode vir da dor que já não consigo suportar, da esperança que começa a surgir, da experiência de outras pessoas ou de um Poder Superior, conforme eu O concebo.

É nesse contexto que reconheço a importância das reuniões, dos Doze Passos e da aplicação de seus princípios em todas as minhas atividades. Eles me ajudam a romper a inércia dos velhos hábitos e a sustentar uma nova maneira de viver.

Muitas vezes, foi a própria dor que me colocou em movimento. Quando continuar como estava se tornou insuportável, comecei a buscar outra saída. A dor não resolveu meus problemas, mas funcionou como um impulso para que eu procurasse ajuda e desse os primeiros passos em direção à recuperação.

Entretanto, iniciar o movimento não significa estar livre do risco de voltar aos velhos padrões. Posso me acomodar, acreditar que já estou curado e abandonar justamente as práticas que me ajudam a permanecer em recuperação.

É quando começo a pensar: “Já estou curado; não preciso mais ir às reuniões”; “Já estou diplomado, agora sou professor de Doze Passos”; “Conheço tudo sobre o programa” ou “Vou desistir, esse programa não funciona para mim”.

Também posso depositar minhas esperanças em forças externas: uma fuga geográfica, um casamento com a Mulher-Maravilha, um bilhete premiado da Loteria Federal, uma promoção no emprego ou até mesmo a ingestão de 27 garrafões e meio de chá de jatobão!

São tentativas de mudar as circunstâncias sem necessariamente modificar aquilo que carrego dentro de mim. Posso trocar de endereço, de relacionamento ou de conta bancária e continuar preso aos mesmos pensamentos e comportamentos. Mudo o cenário, mas permaneço emocionalmente no mesmo lugar.

Quando olho para minha história, reconheço mudanças que representam verdadeiras rupturas com antigas formas de viver. Fiquei calado por muitos anos e hoje consigo falar e escrever sobre meus sentimentos; vivi cinquenta anos num poço depressivo e agora consigo ouvir os passarinhos cantando nas copas das árvores; fui um mal-humorado crônico — minha mulher dizia que eu não sabia sorrir — e hoje solto gargalhadas largas e sonoras. Antes, acreditava que a felicidade estava sempre no futuro, em algum lugar distante; agora começo a encontrá-la no instante presente. 

Imaginava que ficaria para titio, eternamente solteirão e emburrado, mas me casei, meus filhos cresceram e estão encaminhados na vida. Ainda não sou avô, mas sou tio de um monte de sobrinhos! E a angústia que sentia diante do desmatamento das florestas brasileiras também encontrou uma direção: hoje, planto árvores todos os dias, deixando atrás de mim um rastro verde e cultivando uma floresta que cresce e se renova dentro de mim.

Em cada uma dessas transformações, reconheço a passagem de uma condição antiga para uma nova maneira de viver. Não aconteceu tudo de uma vez, nem por uma única força. Foram mudanças construídas ao longo do tempo, por meio de decisões, ações e experiências que me ajudaram a abandonar velhos padrões e consolidar novos hábitos.

É importante, porém, não confundir movimento com progresso. Posso estar muito ocupado e continuar fugindo de mim mesmo. Posso mudar de trabalho, de cidade ou de relacionamento sem avançar um centímetro em direção à sanidade. O movimento que procuro na recuperação não é simplesmente fazer coisas diferentes, mas caminhar na direção de uma vida mais consciente, responsável e serena.

Por isso, preciso continuar praticando. As reuniões, os Doze Passos, a troca de experiências e a aplicação dos princípios do programa funcionam, para mim, como referências que me ajudam a manter o rumo. Não eliminam todos os obstáculos nem garantem que eu nunca volte a sofrer, mas me oferecem recursos para reconhecer a estagnação e retomar o caminho quando me desvio.

A Lei da Inércia também me lembra que não devo confundir a ausência de crises com a conclusão da recuperação. Quando tudo parece estar bem, posso ser tentado a interromper as práticas que me ajudaram a chegar até aqui. Mas é justamente nos períodos de tranquilidade que preciso continuar cultivando os hábitos que sustentam minha mudança.

Hoje, compreendo que a recuperação não é um diploma que recebo ao final de um curso, mas uma prática diária. Não basta ter começado a mudar; preciso continuar disposto a aprender, a pedir ajuda e a rever minhas atitudes.

Na Física, a inércia não é uma força: é a tendência de um corpo conservar seu estado. Na minha vida, uso essa ideia para reconhecer minha tendência de permanecer nos velhos padrões. E, assim como uma mudança de movimento exige uma força resultante, minha recuperação exige disposição para agir, aceitar ajuda e praticar princípios diferentes daqueles que me mantiveram preso ao sofrimento.

A inércia dos velhos hábitos pode me manter durante décadas no mesmo lugar emocional. A recuperação começa quando rompo essa tendência e se fortalece quando continuo escolhendo, um dia de cada vez, o caminho da mudança.

Porque, na minha vida, romper a inércia significou muito mais do que começar a me movimentar.

Significou começar a viver.

Clique em O Momento Presente para ler a crônica anterior, ou em As Sementes da Recuperação para ler a seguinte.

Pública é a minha codependência, consciente de que sou muito maior do que todas as minhas ilusões. Só por hoje, eu me dou o direito de ser a pessoa mais importante da minha própria vida.

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