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O Marisco, o Mar e a Rocha

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Estava tudo em paz desde o princípio dos tempos... lá estava o mar, lá estavam os mariscos, lá estava a rocha. Mas a impermanência reina, e o mar muitas vezes se revoltava — uma verdadeira vida de mar. Na sua fúria, as ondas cresciam e se chocavam violentamente contra a rocha, que parecia aceitar estoicamente a rotina de apanhar na beira da praia: uma resignada vida de rocha. Até que um certo marisco se incomodou profundamente com as pancadas. Ele vivia um dilema: por um lado, respeitava o mar e, mais do que isso, temia-o — um pavor que o impedia de amá-lo, especialmente nos dias intempestivos. Por outro, amava a rocha com tanta intensidade que, apesar do seu minúsculo tamanho, desejava a todo custo libertá-la daquela violência constante. Após muito ponderar, encontrou uma solução para o dram...

A Criança Interior na Casinha do Cachorro

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Era uma vez uma criança interior que, movida pelo medo profundo do mundo externo, refugiou-se por longos anos dentro de uma casinha de cachorro. Aquela humilde estrutura havia se tornado sua fortaleza; ali dentro, ela acreditava estar a salvo de todas as agruras da vida. Com o tempo, porém, o peso daquela rotina cobrou seu preço. A casinha transformou-se em uma prisão, e o desejo de sair tornou-se urgente. Mas havia um obstáculo: as paredes eram erguidas por tijolos de um material implacável. A criança tentou quebrá-los com todas as forças, em vão. A resistência daquela barreira trouxe-lhe uma dor imensa, condenando-a a viver esquecida e abandonada por longos anos dentro de sua fortaleza inexpugnável. De vez em quando, com a voz sufocada pelo desespero, ela gritava: — Socorro! Estou presa! Al...

Um Encontro de Alegrias

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Naquele encontro o s músicos da festa junina  entre uma música e outra comentavam: Como eles são alegres, mas de onde virá esta alegria, de onde virá? Eles não bebem, eles não estão utilizando nenhuma substância, mas eles estão alegres, e cantam, e brincam, e gargalham e dançam... De onde virá tanta alegria, de onde virá? Sai do encontro cheio de alegria, uma grande alegria; estranho que a alegria não cabia no chalé, a alegria não cabia na pousada, não cabia no carro, não cabia na estrada de volta para casa, a alegria não cabia em lugar nenhum, nem mesmo em mim. Mas por que será? É que a alegria é algo tão grandioso que não cabe em nada, uma alegria que vem de um encontro com a alegria dos outros,  com o olhar dos outros, com a manifestação dos outro, com a presença dos outros, uma alegria in...

Os Altos e Baixos das Recuperações em 12 Passos

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Contam os antigos que na cidade de Piraí  — sul do estado do Rio de Janeiro — , viveu um agricultor que buscava a sabedoria através da prática constante do Programa de 12 Passos. A sua caminhada pela estrada da recuperação de sua saúde mental, emocional e espiritual era permeada por altos e baixos, e para cada um destes momentos ele tinha uma placa. Quando estava se sentindo mal consigo mesmo e com os demais, ele afixava a placa número 1 na porteira do seu sítio, e na placa estava escrito:  AFASTE-SE, MEU EGO É CONTAGIOSO! Quando estava em paz consigo mesmo e com todos ao seu redor, ele afixava a placa número 2 na mesma porteira. Contam ainda os antigos que aquele homem frequentou o grupo de 12 Passos por muitos e muitos anos, e com o passar do tempo quase ninguém conseguia mais se l...

O Estranho Relógio Codependente

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Existem dois relógios em minha vida: o primeiro é o universal, que marca o compasso implacável do presente; o segundo é o meu relógio interno, um mecanismo psicológico e codependente que habita apenas no passado e no futuro, incapaz de habitar o agora. Deveria reger-me sempre pelo relógio convencional, o do aqui e agora. Contudo, em tantas situações cotidianas, é o relógio codependente que dita o ritmo. E todas as vezes que acerto meus ponteiros por ele, o adulto de hoje silencia para dar lugar à criança ferida de ontem. São nove horas da manhã no relógio convencional. Alguém grita comigo — afinal, algumas pessoas têm o hábito de gritar. Nesse instante, meu relógio interno é acionado. O presente desaparece, tragado pelo passado. Emoções congeladas vêm à tona: o coração disparado, a sensação d...

O Décimo Primeiro Passo e as Vacas Mentais

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Faz muitas 24 horas que venho adiando o Décimo Primeiro Passo — Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade —, amanhã eu faço, depois de amanhã eu faço, um dia ainda faço... Minhas orações são muitas vezes mentais e mecânicas, não consigo estabelecer através delas um contato profundo com o Poder Superior, conforme O concebo, e meditar, ah, meditar para mim é quase impossível, minha mente está sempre povoada por uma infinidade de contínuos e ininterruptos pensamentos. Venho meditando todos os dias e os pensamentos — o porta voz do meu ego  —  sempre lá. Preciso apenas observar os pensamentos sem entrar em contato, s...

Frank Buchman e os Seis Homens Errados

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" Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras" Em 1908 — vinte e sete anos antes da fundação de Alcoólicos Anônimos —, o jovem pastor protestante Frank Buchman foi enviado para coordenar um educandário para órfãos no interior da Inglaterra. Tudo corria bem até que a instituição enfrentou uma grave crise financeira. Diante da escassez de recursos para alimentar as crianças, reuniões de serviço diárias tornaram-se o cenário de intensos debates. Após acaloradas discussões — algo que soa familiar a quem frequenta reuniões de serviço —, a maioria deliberou que a solução seria reduzir a ração alimentar dos órfãos. Buchman protestou veementemente, mas foi vencido. Sentindo-se profundamente ferido, magoado e tomado por um rancor incontido contra aqueles seis homens, acabou adoecendo e afastando-se para cuidar da saúde. Enquanto as crianças sofria...