Frank Buchman e os Seis Homens Errados
"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
Em Mil novecentos e oito, vinte e sete anos antes da criação de Alcoólicos Anônimos, Frank Buchman era um novato pastor protestante ainda sem um local para professar a sua fé; não havia uma igreja, mas havia um educandário para órfãos, e para lá Frank Buchman foi enviado a fim de coordenar os trabalhos com outros seis homens.
Tudo ia relativamente bem, até que a instituição passou por crises financeiras. Diariamente aqueles homens se reuniam a fim de tentarem resolver aquela questão. O que fazer com pouco dinheiro e tantas crianças?
Depois de muitas e acaloradas discussões naquelas reuniões de serviço — isto soa familiar? —, foi deliberado pela maioria que a solução para o problema seria reduzir a alimentação da criançada. Buchman protestou; Buchman gritou; Buchman tentou demovê-los daquela ideia; Buchman ficou profundamente magoado; Buchman sentiu-se ferido; Buchman ficou enfurecido; Buchman, de tanta tristeza e ressentimento pela decisão daqueles seis homens, adoeceu e afastou-se da instituição para cuidar da sua saúde. Enquanto as crianças passavam por racionamento de alimentos, sua ira engordava cada vez mais.
Nos meses seguintes Buchman visitou vários médicos, fez inúmeras dietas e exercícios de relaxamento, mas nada resolvia a sua questão. Os especialistas disseram que ele deveria tomar vários banhos por dia, isto faria bem para ele. Posteriormente Buchman escreveu: "Exteriormente eu era o homem mais limpo do mundo, mas por dentro sentia-me muito sujo". Dentro dele haviam seis homens errados apodrecendo diariamente todos os seus padrões mentais e emocionais.
Buchman era um homem sincero, um homem de fé; em um certo dia ficou sabendo que um grande pregador estaria presente numa pequena igreja do interior da Inglaterra. Como estava passeando por vários lugares a fim de tentar recobrar o seu equilíbrio, resolveu ir até aquela igreja na esperança de ouvir o grande pastor e, quem sabe, recuperar o seu perdido equilíbrio mental e emocional, perdoando de uma vez por todas aqueles seis homens errados.
No dia da pregação Buchman chegou bem cedo à pequenina igreja de pedra, mas não foi só, como de costume, aqueles seis homens errados estavam mentalmente com ele; na verdade aqueles seis homens errados jamais o abandonaram depois daquela famigerada discussão, aqueles seis homens errados, aqueles seis homens diabólicos e infernais.
A igreja estava quase vazia; Buchman sentou-se em um banco próximo a uma senhora que tinha uma pequena cruz em suas mãos. Seus pensamentos não estavam na igreja, estavam longe, estavam no ressentimento, na mágoa, na discórdia, na raiva que nunca dormia, raiva apodrecida, congelada e não revelada por aqueles seis homens errados que estavam deixando as crianças a margem da fome. Certamente naquele dia ele poderia ouvir o grande pregador e finalmente recobrar a sua paz.
Num certo momento Buchman olhou para a senhora ao seu lado; ela também olhou para ele, olhou diretamente dentro dos seus olhos, dizendo palavras simples, profundas e amorosas sobre uma entrega sincera de tudo nas mãos de Deus — Terceiro Passo. Naquele instante Buchman foi espiritualmente tocado pelas palavras daquela senhora; naquele momento Buchman viajou ao passado e lembrou-se dos ensinamentos amorosos de sua mãe; naquele momento Buchman foi tocado por Deus e despertou de seu sono milenar — Décimo Segundo Passo.
Sentado naquele banco Buchman descobriu a sua arrogância e que era o sétimo homem errado — Quarto Passo; sentado naquele banco Buchman sentiu que deveria fazer reparações para aqueles seis homens — Nono Passo; sentado naquele banco Buchman prontificou-se a escrever seis cartas — Oitavo Passo; sentado naquele banco Buchman resolveu pautar sua vida por quatro valores absolutos: Honestidade, amor, pureza e altruísmo.
Sentado naquele banco Buchman sentiu que deveria transmitir a mensagem do seu despertar espiritual para todos os que cruzassem o seu caminho — Décimo Segundo Passo; sentado naquele banco Buchman viu por vários lugares do mundo pelo tempo que ainda haveria de vir, pequenos grupos de pessoas reunidas falando de suas experiências de vidas e praticando os quatro valores absolutos — cada reunião de um grupo de 12 Passos em qualquer lugar do mundo é uma expressão da visão de Buchman.
Algum tempo depois Buchman fundou na Inglaterra um grupo chamado Oxford, onde as pessoas se reuniam e estudavam um trecho da Bíblia. Depois da leitura haviam os comentários, e em seguida cada um poderia falar de suas questões mentais e emocionais. Estes grupos foram proliferando-se, e um dia chegaram aos Estados Unidos — qualquer semelhança com os grupo de 12 Passos da atualidade não é uma mera coincidência.
Um dia um alcoólico que estava prestes a ir para a prisão foi convidado a participar das reuniões do grupo Oxford na sua cidade — o juiz deu a ele sua última chance de liberdade. Este alcoólico depois de algum tempo de frequência às reuniões nunca mais bebeu; este alcoólico era amigo de um certo Bill, que o encontrou certa vez na rua radiante de alegria, e este alcoólico levou a mensagem do grupo Oxford até Bill, que também ingressou na irmandade. Um dia Bill também parou de beber, e numa certa ocasião, viajando a negócios, na iminência de voltar ao álcool, levou a mensagem do grupo Oxford para um certo Bob, e Bob com o tempo também parou de beber...
Com a chegada constante de muitos alcoólicos aos grupos Oxford, com o tempo houve a necessidade da separação, com a consequente criação de AA (Alcoólicos Anônimos). Bill escreveu: "Falar com Frank Buchman sobre o nosso desligamento do grupo Oxford foi uma das coisas mais difíceis que tive que fazer ao longo de toda a minha vida". Nos primeiros grupos de AA fundados nos Estados Unidos haviam referências aos quatro absolutos de Frank Buchman: Honestidade, amor, pureza e altruísmo; com o passar do tempo isto foi se perdendo, assim como o nome do próprio Frank Buchman caiu no esquecimento.
Desde 1908 a mensagem vem sendo passada; do grupo Oxford nasceu AA; depois Al-Anon, N/A, NA e tantas e tantas outras irmandades de 12 Passos com suas portas abertas recebendo com alegria e acolhimento aqueles que precisam de ajuda para suas questões mentais e emocionais.
Cada grupo de 12 Passos espalhados por todo o mundo é uma expressão viva do despertar e da visão de Frank Buchman; naquele banco, em uma fração de segundos o Terceiro, o Quarto, o Oitavo, o Nono e o Décimo Segundo Passos; naquele banco a Quinta Tradição — levar a mensagem para quem sofre; naquele banco da pequenina e interiorana igreja de pedra, através das amorosas palavras de uma pessoa anônima, o Poder Superior transformou a discórdia dentro do coração de um homem em um programa de recuperação mental e emocional para muitos indivíduos em torno de todo o planeta terra.
Gratidão Poder Superior, conforme eu O concebo; gratidão Frank Buchman pela sua profunda abnegação, coragem, dedicação e honestidade. Sou também um homem errado, mas graças a mensagem de 12 Passos que um dia também bateu às minhas portas, tenho deixado de ser um ignorante a cerca do fabuloso mundo interior que habita dentro de mim, mundo este que contém todas as chaves para a minha felicidade.
Meu nome é Anônimo, Anônimo em recuperação! Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se a vontade para compartilhar com os demais.

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