A Criança Interior na Casinha do Cachorro

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"



Era uma vez uma criança interior, que por tanto medo do mundo externo viveu por longos anos dentro de uma casinha de cachorro. A casinha do cachorro era sua fortaleza, e ali dentro ela achava que estaria salva de todas as agruras do mundo exterior.

Com o tempo a criança interior se cansou de tudo aquilo, sua casinha havia se transformado em uma prisão, e ela queria muito sair, sair da casinha do cachorro, mas... Os tijolinhos da casinha eram feitos de um duro material, a criança tentou quebrá-los para sair mas não conseguiu, pois estes eram muito resistentes — grande foi a dor da criança, que passou a viver abandonada e esquecida dentro da sua casinha de cachorro edificada por inquebráveis tijolinhos por muitos e muitos anos.

De vez em quando, lá de dentro da sua casinha, a criança gritava com a voz sufocada: Socorro, socorro, estou preso na casinha do cachorro, alguém pode libertar-me? Neste momento ela sempre ouvia vozes, vozes exteriores, vozes que diziam sempre a mesma coisa...

— Os tijolinhos da sua casinha, sua casinha de cachorro, são feitos de um material mais resistente do que cimento fabricado pela NASA; é impossível para cada um de nós aqui do lado de fora tirá-la aí do lado de dentro.

A criança interior ouvia tudo aquilo com muito pesar, mas mesmo assim não desistia jamais de sair dali, e o tempo passou, passou... até que num certo dia ela adormeceu, para em seguida sentir um despertar, e despertando descobriu por si mesma que os tijolinhos eram feitos de rejeição, um material muito resistente e tão tóxico como a vergonha, algo impossível de ser quebrado de fora para dentro, mas não termina aí, a criança teve um segundo despertar, e despertando mais uma vez, descobriu algo mais extraordinário ainda: A rejeição contida nos tijolinhos de sua casinha não era algo fabricado pelo mundo externo, era algo interno, fabricado por ela mesma. Estupefata a criança percebeu que era ela também a responsável por empilhar, um por um, todos os tijolinhos de rejeição de sua própria prisão emocional, sua casinha de cachorro.

Com todas estas descobertas a criança chorou; a criança rolou no chão; a criança sentiu um grande desprezo por si mesma e por todos os demais; a criança odiou a realidade; a criança deu socos nos tijolinhos da casinha — eram muitos. Desta maneira, no interior da prisão a criança interior ficou muito revoltada, revoltada com a vida, com Deus, com os homens, com o mundo, com o universo, revoltada sobretudo consigo mesma, e na sua revolta gritava lá de dentro de sua casinha de cachorro: O mundo me rejeita, ninguém me ama, todos são tóxicos, todos ferem, todos gritam, todos apontam o dedo, todos mentem, não quero nunca mais sentir este desagradável sentimento, a rejeição do mundo em relação a mim, ah como sou infeliz, sou menos que uma infinitésima parte da menor partícula de todo o universo  as mentes codependentes são muito criativas.

A história da criança presa na casinha do cachorro poderia terminar aqui, mas houve ainda um terceiro despertar, e despertando pela terceira vez e observando calmamente os tijolinhos de rejeição de sua prisão, uma luz clareou sua mente e ela percebeu que o problema não estava na rejeição do mundo em relação a ela, mas na rejeição dela em relação a ela mesma, uma autorejeição.

Neste momento veio novamente à sua mente o eco das vozes que falavam com ela nos seus pedidos de socorro: "É impossível para cada um de nós aqui do lado de fora tirá-la aí do lado de dentro." Deste dia em diante a criança interior ferida, presa e amedrontada fechou sua fábrica de tijolinhos de autorejeição, e passou de dentro para fora a retirar paulatinamente aqueles velhos tijolinhos de sua casinha, até que finalmente ela sentiu o contato da luz do sol e da vida, e descobriu radiante de felicidade que existia muita vida para ser vivida do lado de fora de sua prisão, desde que ela continuasse removendo, dia após dia, todos aqueles tijolinhos de autorejeição da sua casinha de cachorro, até descontruir totalmente sua própria prisão mental e emocional.

Meu nome é Anônimo, Anônimo em recuperação! Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se a vontade para compartilhar com os demais.

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