A Criança Interior na Casinha do Cachorro

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"



Era uma vez uma criança interior que, movida pelo medo profundo do mundo externo, refugiou-se por longos anos dentro de uma casinha de cachorro. Aquela humilde estrutura havia se tornado sua fortaleza; ali dentro, ela acreditava estar a salvo de todas as agruras da vida.

Com o tempo, porém, o peso daquela rotina cobrou seu preço. A casinha transformou-se em uma prisão, e o desejo de sair tornou-se urgente. Mas havia um obstáculo: as paredes eram erguidas por tijolos de um material implacável. A criança tentou quebrá-los com todas as forças, em vão. A resistência daquela barreira trouxe-lhe uma dor imensa, condenando-a a viver esquecida e abandonada por longos anos dentro de sua fortaleza inexpugnável.

De vez em quando, com a voz sufocada pelo desespero, ela gritava: — Socorro! Estou presa! Alguém pode me libertar?

Sempre que o fazia, ouviam-se as vozes do lado de fora, repetindo a mesma sentença desoladora: — Os tijolos dessa casinha são feitos de um material mais resistente que qualquer cimento; é impossível para nós, aqui fora, tirá-la daí de dentro.

A criança ouvia aquilo com o coração apertado, mas jamais desistia. O tempo passou, implacável, até que, num certo dia, ela adormeceu. Ao despertar, teve uma revelação surpreendente: compreendeu que aqueles tijolos não eram feitos de um metal comum, mas de rejeição — uma substância tão resistente e tóxica quanto a vergonha, impossível de ser destruída de fora para dentro.

Contudo, a jornada não parava ali. Em um segundo despertar, algo ainda mais extraordinário se revelou: a rejeição que compunha a estrutura não vinha do mundo externo; era interna, fabricada por ela mesma. Estupefata, a criança percebeu que era a única responsável por empilhar, tijolo por tijolo, cada fragmento daquela prisão emocional.

Diante de tal descoberta, desabou. Chorou, rolou no chão, sentiu um profundo desprezo por si mesma e pelos outros. Odiou a realidade, desferiu socos estéreis contra as paredes intransponíveis. Tomada por uma revolta avassaladora contra a vida, contra Deus, contra o mundo e, sobretudo, contra si mesma, gritava da escuridão: — O mundo me rejeita! Ninguém me ama! Todos são tóxicos, ferem, apontam o dedo e mentem! Não quero nunca mais sentir essa dor! Sou menos que a menor partícula do universo... (Mentes codependentes são, de fato, muito criativas na autocomiseração).

A história poderia ter terminado nessa amargura, mas houve um terceiro despertar. Ao observar calmamente os tijolos de rejeição que a cercavam, uma luz clareou sua mente: o problema nunca foi a rejeição do mundo em relação a ela, mas a sua própria autorrejeição.

Nesse instante, ecoaram em sua memória as antigas palavras: "É impossível para cada um de nós aqui do lado de fora tirá-la aí de dentro."

Daquele dia em diante, a criança ferida e amedrontada fechou permanentemente a sua fábrica interna de tijolos. Começou, então, a retirar, com paciência e paulatinamente, cada velho bloco de sua fortaleza. Até que, finalmente, sentiu o toque caloroso da luz do sol. Radiante de felicidade, descobriu que havia um mundo imenso esperando por ela — bastando que continuasse a desconstruir, dia após dia, a prisão que ela mesma havia construído.

Meu nome é Anônimo, Anônimo em recuperação! Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se a vontade para compartilhar com os demais.

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