O Sono Milenar
"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
— Moço das Letras, percebo que você tem uma grande facilidade para se comunicar com seres inanimados, animais e plantas. Isto é um verdadeiro talento — comentou o leitor.
— Isto não é um talento. É, na verdade, uma grande dificuldade que me impulsiona constantemente na direção da minha busca.
— Como assim?
— Por trás dessa facilidade em me comunicar com os animais, as plantas e as coisas inanimadas através das palavras, esconde-se minha imensa dificuldade emocional de me comunicar com as pessoas mais próximas... Principalmente com a mais próxima de todas elas.
— E quem seria essa pessoa tão próxima, Moço das Letras?
— Eu mesmo, meu caro leitor.
— E onde, afinal de contas, reside essa dificuldade?
— Reside no meu sonambulismo. Faz muito tempo que adormeci e, adormecido, me perdi. É por isso que escrevo tanto. Escrevo, coloco a mensagem dentro de uma garrafa, fecho com uma rolha e a lanço no mar da minha própria ignorância... Na esperança de que o náufrago — ou melhor, o analfabeto emocional que eu mesmo sou — possa encontrá-la um dia, decifrá-la e, finalmente, despertar do seu sono milenar.
Pública é a minha codependência, consciente de que sou muito maior do que todas as minhas ilusões. Só por hoje, eu me dou o direito de ser a pessoa mais importante da minha própria vida.

Comentários
Postar um comentário