A grande pedra do meu tropeço

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade

necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"



Não me lembro exatamente o dia do incidente. Foi no tempo em que eu ainda era criança.

Não sei se ia ou voltava de algum lugar, mas a lembrança que ficou viva é esta: tropecei numa pedra e senti muita dor.

Ao cair, agarrei-me a ela e, revoltado, disse-lhe asperamente: você nunca mais vai me ferir. Você me paga!

Enterrei a pedra num poço e, por mais estranho que pareça, todos os dias ia visitá-la. Queixava-me e lamentava a grande dor que ela havia me causado.

Com o tempo, passei a prestar-lhe culto diário. A pedra da minha ferida se transformou num deus para mim.

Eu não rezava para ela. Nutria por ela apenas sentimentos negativos: raiva, culpa, ressentimento, frieza, desprezo... Aquela maldita pedra havia virado minha vida de cabeça para baixo e, desde o dia do tropeço, roubado toda a minha alegria de viver.

Apeguei-me tanto àquela pedra que acabei me confundindo com ela. Transformei-me em pedra também. Uma pedra fria e insensível.

Creio que foi nesse dia que me perdi de mim, pois ao tentar voltar para casa, já não sabia mais onde morava.

Grande foi a minha dor por tanto apego à pedra do meu tropeço. Ou melhor, à pedra do meu orgulho.

Admito que não é fácil livrar-me desta pedra. Em recuperação, vou aprendendo a fazer dela, pouco a pouco, o alicerce da humildade que procuro edificar em mim.

Clique em O amor oculto por trás da rejeição para ler a crônica anterior, ou em O amor em forma de renúncia para ler a seguinte.

Pública é a minha codependência, consciente de que sou muito maior do que todas as minhas ilusões. Só por hoje, eu me dou o direito de ser a pessoa mais importante da minha própria vida.

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