A Fugaz Felicidade Codependente

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade

necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"


Desejo intensamente ser feliz, mas nunca agora — é preciso sempre esperar mais um pouco. Meu pai é um homem de estradas. Quando ele voltar, aguardarei a felicidade e, com a sua chegada, serei finalmente pleno. No intervalo entre a partida e o retorno, restam apenas o vazio e uma saudade que pesa e entristece.

Até que ele, enfim, retorna, trazendo consigo a minha alegria. Oh, glória! Papai voltou. Agora sou feliz. Contudo, já no dia seguinte, mesmo com ele em casa, volto a ansiar pela felicidade. Ela já se foi, evaporou-se, e eu recaio no velho padrão de buscar o bem-estar não no aqui e no agora, mas num instante futuro que teima em não se fixar.

Papai parte novamente em seu caminhão, e o golpe se repete: “Oh, que dor, papai partiu. Se ele ficasse, eu seria imensamente feliz...”

E assim o ciclo da felicidade futura recomeça...

Esse tem sido o compasso de uma existência que terceiriza o presente: uma felicidade codependente, aprisionada a eventos e pessoas que virão e que, mesmo quando se concretizam, não trazem o que eu mais anseio — a paz singela de viver e sentir o exato momento em que respiro. Tudo isso porque, no fundo, eu ainda não aprendi a habitar o instante de ser feliz em mim mesmo.

Clique em O Orvalho no Deserto para ler a crônica anterior.

Pública é a minha codependência, consciente de que sou muito maior do que todas as minhas ilusões. Só por hoje, eu me dou o direito de ser a pessoa mais importante da minha própria vida.

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