A Criança Ferida Escondida na Bagagem

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade

necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"


[AGENTE DE SEGURANÇA] — Senhor, alguma coisa na bagagem? Medicamentos, vidro, metal, produtos de higiene?


[PASSAGEIRO] — Não! Somente roupas e uma criança ferida.

[AGENTE DE SEGURANÇA] — Como assim? Por que motivo o senhor a colocaria na bagagem?

[PASSAGEIRO] — Porque ela tem pavor de ser rejeitada. Ficaria apavorada e com o coração acelerado bem aqui na sua frente; sentiria vergonha, um impulso incontrolável de fugir... Consegue imaginar a cena dela correndo em desespero por este aeroporto gigantesco, tentando se esconder de todos?

[AGENTE DE SEGURANÇA] — Mas, senhor... eu não estou vendo criança nenhuma na tela do raio-X.

[PASSAGEIRO] — A minha criança ferida não aparece no raio-X, senhor. Ela não sai em fotos, não está nas redes sociais, não aparece em lugar nenhum. O refúgio dela é um quarto escuro e fechado, onde fica fantasiando como seria ser feliz em um mundo que ela enxerga como extremamente hostil. Ela tem medo do mundo. É uma criança machucada, ressentida, abandonada... A dor dela é tão profunda que nenhum aparelho humano é capaz de detectar.

[AGENTE DE SEGURANÇA] — Mas se ela é invisível para o mundo, como o senhor sabe que ela existe? Não seria fruto da sua cabeça?

[PASSAGEIRO] — Não falo da mala que está na esteira, senhor, mas da minha bagagem emocional. É lá que ela habita. E ela só se revela para quem a olha com carinho, empatia e sem julgamentos. Para o resto do mundo, ela continua invisível.

[AGENTE DE SEGURANÇA] — E como eu posso enxergá-la?

[PASSAGEIRO] — Olhe no fundo dos meus olhos. Com calma, sem pressa...

[AGENTE DE SEGURANÇA] (pausa, observando atentamente) — Meu Deus... Agora eu vejo. Que dor silenciosa... Eu sinto muito, senhor. Vou liberar a sua passagem pela fila prioritária. Para onde vocês estão indo?

[PASSAGEIRO] — A um encontro de 12 Passos, onde pessoas como eu levam suas crianças feridas. Lá, nós aprendemos a reescrever nossa história e a viver livres das correntes da codependência.

[AGENTE DE SEGURANÇA] — E por que o senhor guardou essa criança na bagagem por tanto tempo?

[PASSAGEIRO] — Porque na minha neurose, senhor, aprendi a esconder tudo o que dói. Escondi até mesmo a criança que um dia eu fui e que continua ferida aqui dentro.

Clique em A Hóspede do Meu Interior para ler a crônica anterior, ou em A Luz da Lâmpada e a Escuridão da Rejeição para ler a seguinte.

Pública é a minha codependência, consciente de que sou muito maior do que todas as minhas ilusões. Só por hoje, eu me dou o direito de ser a pessoa mais importante da minha própria vida.

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