Sob o Céu de Fortaleza

 

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade

necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"



O conceito de céu sempre foi um refúgio solitário na minha imaginação: um lugar lindo, perfeito e exclusivo onde só eu habitava e era feliz. Um recanto particular, irreal e doentio.

Mas isso mudou. Fui a um encontro de 12 Passos em Fortaleza e descobri o meu verdadeiro céu. A grande revelação é que, nele, eu não estava sozinho. Era um espaço real, habitado por pessoas de carne e osso. Fica longe de onde moro, mas é acessível de ônibus, navio, avião, carro ou a pé — de alguma forma concreta se chega lá, bem diferente do meu antigo céu, onde só a minha espaçonave imaginária conseguia entrar.

Sob o céu de Fortaleza, encontrei companheiros irmanados e sem máscaras. Gente que abriu o coração para partilhar medos, angústias, fracassos, sucessos, sonhos, pesadelos, temores, alegria e esperança. Todos dividindo suas emoções e suas próprias vidas, revelando-se tão parecidos e humanos quanto eu.

"Companheiro, tenho medo de que o mundo acabe; companheiro, estou feliz por estar aqui; companheiro, estou descobrindo um Poder Superior libertador; companheiro, me dá um abraço; companheiro, venha se hospedar na minha casa; companheiro, venha conhecer a beleza dos cordéis; companheiro, vamos tomar um banho de mar, passear de buggy, ver o cajueiro, assistir a uma temática; companheiro, vamos jantar e conversar sobre a vida; companheiro, olha que flor mais linda; companheiro, aprendi a tocar violão e outros instrumentos; companheiro, eu também fugi muito ao longo da minha vida; companheiro, vem conhecer a Estrela, minha cadelinha; companheiro, vamos tomar um café na padaria, um sorvete; companheiro, estamos juntos, o programa funciona..."

Sob o céu de Fortaleza, revi velhos amigos e fiz novos — daqueles que parecem antigos de longa data. Senti-me integrado à minha tribo, inteiro e presente. Minha rejeição não viajou para lá, e meus medos ficaram pelo caminho; que graça boa. Levei apenas a minha presença e trouxe de volta, para sempre, a de tantos companheiros de sotaques variados que agora moram na minha vida e na minha alma. Percebi, simplesmente, que cada um deles é a extensão da minha própria humanidade.

Sob o céu de Fortaleza há um mar verde e um povo amoroso que acolheu este encontro. Minha gratidão eterna a cada companheiro que cruzou o meu caminho. Foram tantas pessoas e tantas trocas marcantes que me levam de volta ao verdadeiro céu que já existe em mim — um céu agora tão real, vivo e bonito quanto o de Fortaleza.

Clique em No Princípio Era o Poço para ler a crônica anterior, ou em As Telas para ler a seguinte.

Pública é a minha codependência, consciente de que sou muito maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje, eu me dou o direito de ser a pessoa mais importante da minha própria vida.

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