As Telas

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade

necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"



Convivo com as telas desde os anos 80. A primeira delas ficava em um escritório no Castelo, centro do Rio de Janeiro, bem em frente ao consulado francês. O consulado e o prédio onde trabalhei ainda estão lá; a tela e a empresa, não.

Naquela época, tudo era novo e deslumbrante. Aquele era o meu primeiro emprego formal, o início da minha carreira, e ter uma tela de computador exclusiva sobre a mesa era um verdadeiro privilégio. Eu gostava daquela interface de fundo verde e, até hoje, tantos anos depois, ainda consigo sentir o encanto de digitar palavras e receber de volta a resposta da máquina.

Ao longo de dez anos, aquela tela — e as que vieram depois — funcionou como um refúgio. Diante delas, eu sentia que pertencia ao mundo, criando projetos e escrevendo programas que me levavam a um lugar de destaque. Ali, eu me sentia poderoso, capaz, autossuficiente e inteligente. Trabalhava horas a fio e aquilo era pura diversão; sem perceber, fiz da tela uma poderosa anestesia para minhas dores emocionais. Tornei-me um trabalhador compulsivo.

Mas por que eu as amava tanto? Agora eu sei.

Em conexão com as telas, minhas dores não entravam em cena para azedar o meu dia. Angústias, medos, vazio existencial, mágoas, ressentimentos, insegurança, rejeição e vergonha tóxica eram simplesmente detidos. Eu fugia da realidade e me transformava em um super-homem, usando poderes mentais para agradar a todos e promover o crescimento da organização. Sentia-me o salvador, o centro, esperando em troca a gratificação e o tapinha nas costas. Eu me sentia um semideus — a codependência é uma doença que carece de profundos estudos.

Aos poucos, porém, nem mesmo as telas conseguiram deter a avalanche de sentimentos reprimidos. A depressão começou a invadir minha vida, infiltrando-se nos escritórios bonitos, apesar de todas as ferramentas à minha disposição.

Minhas tentativas insanas de fuga só foram interrompidas quando passei a frequentar grupos de anônimos, quatorze anos após o primeiro contato com a computação. Nestes grupos, descobri outras telas: não as eletrônicas, mas telas vivas e humanas que refletem a minha própria condição.

Hoje, estou cercado por dispositivos de todos os tipos. Convivo com eles diariamente, mas aprendi, através da própria dor, a não transformá-los em deuses e a não delegar a nenhum deles o poder de me governar. Elas têm sua importância no mundo moderno e eu preciso delas, mas seria profundamente doentio voltar a depender delas para fugir da realidade ou buscar a felicidade.

A dependência de qualquer coisa é um lugar desolador, cuja dor é tão intensa que nenhuma tecnologia consegue aplacar. Uma dor que resiste a tudo, exceto a um profundo e verdadeiro olhar para a tela dos olhos de outro ser humano.

Clique em  Sob o Céu de Fortaleza para ler a crônica anterior.

Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se a vontade para compartilhar com os demais.

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