A Fita Isolante que me Separa de Deus
"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
No meu mundinho particular, eu era o próprio deus — e, na minha arrogância, acreditava ser mais sábio que o Criador.
Faz tempo que esse mundinho faliu. Lá, eu era o centro, o controlador, o imperador absoluto de um vasto império construído sobre dores e ilusões. Mas, mesmo com o império em ruínas, o "deus" derrotado dentro de mim ainda se recusa a entregar os pontos. Ele passa horas saudoso, planejando como reconstruir suas bases, sempre de forma mais "sólida".
O nome desse deus falido, que resiste à rendição diante do Absoluto, é Orgulho. Ele habita em mim desde o ventre materno e, desde que nasci para este mundo concreto, sou o único responsável por sustentar suas insanidades.
O meu orgulho é implacável. Na depressão, ele me sussurra que sou o ser mais infeliz do mundo; na euforia, garante que sou o mais inteligente e privilegiado do universo. Quando estou bem, ele me coloca em um pedestal de superioridade; quando estou mal, me joga no abismo da inferioridade. Por ser tão solitário, ele me mantém, invariavelmente, isolado de tudo e de todos.
Meu orgulho nunca se sentiu confortável no mundo criado por Deus. Sendo sincero, ele nunca acreditou em nada superior a si mesmo; por isso, resolveu criar uma realidade paralela onde pudesse reinar sozinho. Sempre que encontra outro "orgulhoso" pelo caminho, ele entra em parafuso: enxerga no outro uma ameaça, um invasor que pode destroná-lo de sua falsa soberania.
O meu orgulho é um mestre em justificar meu sofrimento. Ele diz: “Você sofre porque é neurótico, porque é codependente, porque o mundo é injusto, porque é uma vítima da sociedade, porque foi criado sob abuso”. Ele coleciona desculpas, enquanto me mantém olhando obsessivamente para o próprio umbigo ou para o julgamento alheio — sem jamais, de fato, olhar para mim mesmo.
Ele é um ator nato, camaleônico em suas máscaras: ora é o juiz, ora a vítima; ora o herói, ora o vilão; o coitadinho, o salvador da humanidade, a criança ferida ou o adulto irado. Essas máscaras são a fita isolante que me separa de Deus e da minha própria essência.
"Meu Senhor e meu Deus, perdão por tanto orgulho. Sinto-me como um barquinho à deriva numa tempestade, em plena noite escura, com a insana convicção de que sou maior do que o próprio oceano."
Hoje, compreendo que a natureza exata do meu Quinto Passo é, essencialmente, encarar o meu orgulho. Sou imensamente grato por ter sido conduzido a uma sala de 12 Passos. Se dependesse da vontade dominadora do meu orgulho, meus pés jamais teriam atravessado aquela porta.
Clique em Um Rio Sempre Encontra a Sua Foz para ler a crônica anterior, ou em A Escravidão do Olhar Alheio para ler a seguinte.
Pública é a minha codependência, consciente de que sou muito maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje, eu me dou o direito de ser a pessoa mais importante da minha própria vida.
Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se à vontade para compartilhar com os demais.

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