Olhem Lá Dentro do Poço
"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
Olhem lá dentro do poço, olhem... Sou eu companheiros, sou eu completamente enraivecido, arruinado, endurecido, magoado, chateado, revoltado...
Estou nas cordas apanhando da vida, estou nas cordas amedrontado, ferido, envergonhado, estou nas cordas companheiros...
Sinto-me como um lixo humano; sinto-me como o verme putrefato da pata traseira esquerda do cavalo do bandido; sinto-me como poeira voando ao sabor dos ventos; sinto-me como um ser sem valor nenhum; sinto-me como o pó cósmico perdido para sempre dentro de um grande buraco negro em algum lugar distante do universo.
Ah, miséria sem fim... Todos os dias desperto do meu pesadelo com a sensação de estar carregando um saco de cimento sobre o peito e arrastando pesadas correntes atadas aos meus pés. Meus sentimentos de cansaço e desânimo são absolutos, minha esperança de sair deste inferno é nula. Ah, meu Deus, tem uma caverna funda, um muro, depois do muro uma montanha, depois da montanha um túnel, depois do túnel um outro túnel que desemboca num labirinto perdido numa ilha distante no meio do nada... Tudo escuridão, tudo desânimo, tudo sofrimento, tudo solidão, tudo desolação.
Ninguém, absolutamente ninguém sabe que estou aqui, isto é um segredo que levarei para o túmulo. Para dizer a verdade, acho que apesar de vivo, me sinto mesmo é como um túmulo fechado ou ainda como um livro que jamais foi aberto. Ninguém pode saber que estou aqui, pois sentirão vergonha de mim e me criticarão, ou ainda dirão que eu sou um fraco, um pamonha, um pipa voada, um banana, um burro, um bobo, uma besta quadrada, um Zé Mané, um João Ninguém...
Portanto, ninguém pode saber, não confio em ninguém, tenho medo de todos, sobretudo medo daqueles que gritam comigo, daqueles que me calam com o apontar dos dedos, daqueles que mentem para mim, daqueles que dizem "faça o que eu digo mas não faça o que eu faço", daqueles que olham para mim com um olhar de censura, um duro e frio olhar...
Ah, meu Deus, é horrível carregar toda a culpa do mundo sobre minhas costas, é dantesco sentir tanta vergonha e tanta rejeição, é doloroso para mim pedir compulsoriamente a benção daqueles que me desprezam.
Olhem lá dentro do poço, olhem... Sou eu companheiros, sou eu com medo da vida e da morte, sou em com medo do pai e carente da mãe, sou eu sentindo-me apartado de tudo e de todos, vivendo de forma dolorosa e isolada dentro do meu próprio mundo, sou eu tentando sobreviver à minha própria catástrofe através da imaginação, criando diuturnamente mundos mentais maravilhosos de faz de contas e era uma vez, onde finalmente eu serei feliz para sempre.
Quero a minha chupeta vermelha, quero a minha mãe, estou com medo de ir para a escola, medo de ir para qualquer lugar, medo de sair daqui de dentro do meu mundinho protegido por meus supostos muros de segurança e imaginação, estou com medo de tudo e de todos, quero a minha chupeta vermelha, quero a minha mãe.
Ah... vou me esforçar e farei das tripas coração para sair daqui deste buraco e então todos finalmente gostarão de mim e me respeitarão. Estudarei bastante, conseguirei um bom emprego, comprarei carros e bens e sempre terei dinheiro no banco e prestígio junto à sociedade, e desta maneira finalmente serei aceito e amado por todos e finalmente reintegrado na tribo.
Ah... Meu Senhor e meu Deus, todos os meus sonhos foram realizados e eu continuo aqui tão vazio quanto um balão de gás estourado no final da festa, continuo aqui ainda perdido dentro de mim.
O desfecho do relato poderia ter sido catastrófico, mas nos dias em que eu estava no lugar mais fundo do meu depressivo poço, lá nos porões das minhas misérias morais sem fim, fui convidado por alguém a participar de uma reunião de 12 Passos, e a prática deste programa chancelada por um Poder Superior, conforme eu O concebo, mudou completamente o rumo da minha vida, libertando-me da minha própria cegueira espiritual.
Só por hoje não estou mais nas cordas apanhando da vida, só por hoje estou acordando para a vida.
Olhem lá dentro da sala companheiros, olhem... Sou eu companheiros, sou eu coordenando reuniões, sou eu preparando o cafezinho, sou eu levando a mensagem, sou eu escrevendo, sou eu ouvindo, sou eu não entrando em controvérsias, sou eu sorrindo, sou eu lavando as louças, sou eu parando no sinal vermelho, sou eu pagando meus impostos em dia, sou eu indo de encontro às pessoas, sou eu aprendendo o ABC da humildade, sou eu aprendendo a viver, sou eu em recuperação.
Olhem lá dentro da sala companheiros, olhem lá dentro da sala da vida, olhem, olhem... Sou eu, o Viajante Emocional, sou eu largando os meus inúteis controles e finalmente aprendendo a soltar-me e a entregar-me incondicionalmente nas mãos de Deus...
Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida.
Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se à vontade para compartilhar com os demais.
Clique em A Vergonha Tóxica e a Ave Fênix para ler a crônica anterior, ou em Eu e o Meu Velho Ego para ler a seguinte.

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