A Vergonha Tóxica e a Ave Fênix

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade

necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"


Cinco da manhã. Acordo. Antes de qualquer pensamento comum, vejo sob um nevoeiro um grande círculo de pessoas. No centro, uma criança. Um bebê. O ar é pesado. Opressivo. Ninguém sorri.

Todas de cara fechada. Olhares duros. Amarguradas. Raivosas. Ressentidas. Intolerantes.

Todas querendo se libertar de algo. Todas prontas pra julgar. Pra punir. Era um julgamento. As pessoas do círculo eram os juízes. E eu, a criança indefesa no centro, era o réu.

Todos falam juntos, ao mesmo tempo, a mesma coisa: "Você é o nosso problema. Você é o problema de toda a humanidade. Veja o que você fez. Isto é intolerável. Estamos com raiva e a culpa é sua! Estamos frustrados e a culpa é sua! Magoados, ressentidos, ofendidos, revoltados — a culpa é sua! Nossa vida é péssima e a culpa é toda sua!"

De repente, todas aquelas faces sombrias apontam o dedo para a criança. Em uníssono, dão o veredito: CULPADA!

A sentença: Represaram suas lágrimas antes do primeiro choro.

Taparam seus ouvidos antes que ouvisse qualquer som.

Calarem sua voz antes do primeiro sussurro.

Cortaram as asas dos seus sonhos antes do primeiro voo.

Inverteram seu olhar para que só enxergasse o próprio mundo mental, obscuro e sofrido. Uma bolha.

E a trancaram ali, apartada do mundo real, para que jamais fizesse uma conexão direta e sincera com outro ser humano. Vi a criança sentindo-se culpada por algo que não fez. E dessa culpa injusta nasceu o flagelo de carregar em si a responsabilidade por todo sofrimento alheio. Uma desgraça pessoal. Uma vergonha sem fim de si mesma. Vergonha Tóxica.

E então eu vi a criança passando a vida inteira tentando fugir dessa vergonha. Para não senti-la, fingia que fugia sem sair do lugar — pássaros com asas cortadas não alçam voo. E quando a vergonha chegava, inevitável, abraçando-a com seu manto repugnante de dor, fazendo-a se sentir inadequada e culpada pelo que não fez, ela caía. Rolava vertiginosamente feito uma roda para dentro de si. Para um buraco. Um esconderijo onde ninguém pudesse encontrá-la e puni-la de novo. Um poço depressivo. 

Olhei outra vez para as pessoas do círculo e finalmente entendi: elas só transferiam para a criança tudo que sentiam e não assumiam. Seus próprios sentimentos distorcidos, seus sofrimentos, suas emoções. E a criança, codependente desde o berço, como uma esponja absorveu e assumiu tudo aquilo como se fosse dela.

A imagem permanece, a vergonha ainda está aqui, lá fora ainda a névoa matinal do outono sob as primeiras luzes do amanhecer. Meus cachorros estão latindo, hora de levantar e seguir adiante.

A ave Fênix renasce todos os dias das cinzas onde ainda se esconde a vergonha de uma criança ferida em mim.

Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida.

Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se à vontade para compartilhar com os demais.

Clique em Cultivando Meu Solo Interior para ler a crônica anterior.

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