O Galo que Jamais Cantou
"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
Minha mãe costurava incessantemente. Daquele ofício dependia o orçamento da casa, mas nem sempre os clientes honravam seus compromissos. De quando em quando, ela precisava de mim. Além de brincar com meus soldados de chumbo, eu desempenhava o papel de cobrador oficial da costureira. Eu detestava aquilo. Por que sair pelas ruas mendigando o que era nosso por direito? No fundo, eu sentia que cada um deveria cumprir com sua palavra sem que fosse preciso um menino à porta.
— Dona Fulana — eu dizia, com a voz tímida —, minha mãe pediu para eu vir buscar o pagamento da costura.
— Diga a ela que estou de mudança, menino. Vou embora amanhã. Deixarei um galo no galinheiro, nos fundos. Assim que a mudança sair, pode vir buscá-lo. É como posso pagar.
Voltei para casa esperançoso. Eu gostava de aves; tínhamos um quintal com galinhas de todas as cores — brancas, pretas, amarelas, carijós. Um galo seria bem-vindo. Minha mãe, ao saber, aquiesceu em silêncio. Esperamos. No dia seguinte, vi o caminhão de mudança passar pela nossa porta. A cliente, porém, sequer olhou para o lado. Seguiu seu caminho, rumo ao desconhecido.
Minha mãe, com a ternura de quem nada espera, pediu que eu fosse buscar o galo. Imaginei uma ave grande e bonita; pensei que seria a medida justa para o trabalho honesto da minha mãe. Com o coração leve, entrei no quintal vizinho. Fui até os fundos, empurrei a porta de madeira e deparei-me com o vazio. Não havia galo, nem galinha, nem penas, nem ovos. Nada.
A raiva e a indignação me paralisaram. Voltei para casa e contei tudo à minha mãe. Ela ouviu, calada, e sofreu com a resignação de quem já esperava a ingratidão do mundo. A amargura, porém, era minha. Corri para o quintal e escondi-me na casinha do Camborde, nosso vira-lata, trazido do Sul da Bahia na carroceria do caminhão de meu pai. Abraçado ao cachorro, chorei. Chorei pelo galo que nunca cantou, pela honra ferida de minha mãe e, sem saber, chorei por todos os honestos, sempre tão vulneráveis ao engodo dos espertos.
Passados cinquenta anos, ainda pedalo pelas estradas do tempo e encontro aquele menino. O galinheiro vazio volta a assombrar minha mente, e a dor de minha mãe, a tristeza pura daquele olhar de criança, ainda me persegue. Naquele dia distante, descobri o mundo. Descobri o Brasil, quinhentos anos após Cabral. Desde então, senti-me como um pássaro, ou quem sabe um galo, alvejado na dignidade e ferido no voo da inocência.
Hoje, porém, aproximo-me do menino que fui. Soprei sobre suas asas feridas. O galo cantou a primeira vez, e o menino sentiu um alívio. Soprei novamente, com a sabedoria dos anos, e o galo cantou a segunda vez. Soprei, por fim, com todo o amor que o tempo me ensinou, e ele cantou pela terceira vez.
Vi, maravilhado, as asas do menino se restaurarem. O galo corria solto pelo terreiro da infância. Choro, agora, de alegria. Descobri que aquele sopro era o perdão, o único sentimento capaz de curar as feridas dos inocentes que, mesmo alvejados, insistem em voar pelos céus dos justos.
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Pública é a minha codependência, consciente de que sou muito maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje, eu me dou o direito de ser a pessoa mais importante da minha própria vida.
Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se à vontade para compartilhar com os demais.

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