A Viagem ao Planeta Vermelho

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade

necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"



O Carnaval terminara. A cidade, exausta de folia, voltava ao seu ritmo cinzento, sinalizando o início real do ano. O Moço das Letras, embora cansado, sentia-se contente: em poucos dias estaria de férias. Tudo estava milimetricamente planejado; crônicas, só a partir de abril.

Ao chegar em casa, preparou seu habitual café com pão e manteiga. Foi quando notou, sobre a mesa, um objeto escuro, há muito esquecido e coberto por uma fina camada de poeira. Ao tocá-lo, sentiu um peso estranho. No instante em que levava o objeto aos olhos para decifrar a inscrição, surgiu a seu lado, como num passe de mágica, a sua Criança Interior, vestida dos pés à cabeça com um traje de astronauta. O Moço das Letras riu, um riso largo que preencheu a sala.

— O que é isso? Fantasia de astronauta? O Carnaval já acabou, minha cara. Desfiles e blocos só no ano que vem!

A Criança retirou o capacete com serenidade, abrindo um sorriso cúmplice.

— Não gosto de café. Tem suco? Ou uma limonada? Estou com sede!

O homem serviu-lhe um guaraná gelado, que ela bebeu com prazer.

— Hoje vou contar a história de um homem que viajou para Marte, o planeta vermelho.

— Ah, Criança... hoje não. Estou cansado, precisando de férias. Deixemos para abril.

— Vou contando bem devagarinho. Você não precisa escrever agora, apenas memorize. Lembra-se daquela crônica sobre o regresso de um homem do planeta vermelho? Pois chegou a hora de falar sobre a partida.

— Mas, em que reino ocorreu esse fato? Preciso saber para relatar aos leitores.

— No Reino do Concreto, Moço das Letras. O seu reino. O reino do seu amigo, o Agricultor Urbano. O reino das naves, dos carros, da internet e da pressa.

Sem a pressão da escrita, ele se acomodou na copa. Enquanto a Criança bebia seu guaraná, a narrativa começou.

Era uma vez um homem que, desde a infância, cultivava um sonho: ser o primeiro a pisar em solo lunar. Quando os americanos chegaram à Lua em 1969, o sonho dele naufragou. Obstinado, o nosso protagonista ousou sonhar mais alto: "Serei o primeiro a pisar em Marte".

Não sendo engenheiro de foguetes, construiu sua nave mental. Sua mente, poderosa, tornou-se a carcaça e o motor. Ele realizava voos de teste na sala de aula, na rua, em qualquer lugar. Bastava apertar o botão invisível e, enquanto o corpo permanecia inerte, sua consciência decolava para o espaço.

— Por que ir tão longe? — interrompeu o Moço das Letras.

— Ele não queria estar aqui. Tudo era vazio, enfadonho. Ele buscava a evasão, o isolamento, a distância dos homens. Como não podia fugir fisicamente, fugiu pelas vias da imaginação.

— Por que não uma ilha deserta? Seria mais simples.

— Em uma ilha, ele seria encontrado. O desejo de evasão era tão vasto que só o espaço profundo poderia contê-lo.

Anos depois, casado e com filhos, a nave mental estava pronta. Anunciou a partida. A mãe, preocupada, implorou que ficasse. O pai, com a sabedoria dos homens que pouco falam, apenas sugeriu: "Verifique o óleo, a água e a correia dentada". A esposa, em prantos, tentou dissuadi-lo. Ele, ignorando a realidade técnica e afetiva, prometeu voltar na segunda-feira.

Na madrugada de sexta, beijou a família, entrou na nave, acendeu as luzes externas e partiu.

A viagem foi breve em sua velocidade de pensamento. Pousou em Marte, deixou a pegada, pegou uma pedra e escreveu: "Lembrança de minha viagem a Marte". Mas o planeta era desolado, frio e um tédio atroz. O astronauta, então, quis voltar. Foi quando o motor falhou. A mente, exaurida de tanto esforço para criar a fantasia, não conseguia mais reparar a própria nave. Ele estava perdido.

Tentou o rádio. Houston disse: "I'm sorry". O Azerbaijão, temendo uma gafe política, silenciou. Ele estava só, preso na vastidão vermelha.

O tempo dilatou-se. Dias, meses, anos. Ele vagou sob o brilho de Fobos e Deimos, transformando-se no anti-herói de si mesmo. Na Terra, o luto dos familiares esmaeceu e a vida seguiu. Menos para a mãe. Ela não pediu ajuda aos técnicos; recorreu à fé. Nas segundas-feiras, nos fundos do quintal, acendia uma vela e rezava, enviando, através da oração, um fio de luz que atravessava o abismo espacial.

Certo domingo, o homem caminhava em Marte, oprimido pela própria ausência. Lembrou-se de tudo: do pão, da família, da própria humanidade. Chorou lágrimas que, no espaço, tornaram-se estrelas. Nesse instante de entrega, avistou uma ponte luminosa. A luz de sua mãe encontrou o seu deserto. A mente, curada pelo amor, finalmente identificou o problema: a correia dentada, esquecida sob a ignição, como o conselho do pai.

Ligou o motor. O som, doce e familiar, preencheu a nave. Ele retornou não mais como um sonhador alienado, mas como um homem que finalmente compreendeu o valor de estar presente.

— Terminou, Criança?

— Sim.

— Existe alguma prova material?

— As pegadas dele estão lá, esperando pelos próximos astronautas. E a outra prova...

O Moço das Letras não ouviu a resposta. A Criança desaparecera. Sobre a mesa, restou apenas o copo vazio e, em sua mão, uma pedra pesada com a inscrição: "Lembrança de minha viagem a Marte".

Grossas lágrimas rolaram. Ele compreendeu que o isolamento mental é a mais perigosa das prisões. Muitos vivem entre nós, mas caminham em Marte, desconectados da vida real, aguardando, talvez, que alguém na Terra acenda uma luz por eles.

Clique em Meu Velho Ego Não Sabe Rezar para ler a crônica anterior, ou em O Galo que Jamais Cantou para ler a seguinte.

Pública é a minha codependência, consciente de que sou muito maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje, eu me dou o direito de ser a pessoa mais importante da minha própria vida.

Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se à vontade para compartilhar com os demais.

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