Romeu, Julieta e a Sopa de Cebolas
"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
Era uma vez um homem chamado Romeu. Seu grande sonho era encontrar a Julieta e viver com ela, feliz para sempre.
Na juventude, Romeu virou a noite atrás dela. Ia à balada, voltava ao amanhecer, triste, sonolento e cansado. E a mente, compulsiva, martelava sem parar: "Por onde andará a minha Julieta? Por onde andará?"
Mas a Julieta dos seus sonhos não veio na luz da noite. Ela apareceu sob o sol intenso de um meio-dia de verão carioca.
Romeu ficou radiante quando a viu pela primeira vez, num restaurante. O coração disparou. Ela era linda, meiga, delicada, charmosa. Uma gata.
Depois de dois ou três encontros, ela já estava na casa dele. Romeu não cabia em si de felicidade.
Tudo ia de vento em popa. A Julieta gostava de vestidos bons, de jantar à luz de velas em restaurantes longe, de curtir as noites. No início, Romeu achou tudo encantador. Ela estava desempregada, então ele bancava os custos. Mas isso não importava para quem estava tão apaixonado por aquela gata linda e maravilhosa.
Até que um dia, cansado demais para sair, Romeu ficou em casa. E a Julieta encantada lhe serviu uma sopa de cebola. Romeu amou. "Como ela é prendada. Que bênção. Que bênção."O tempo passou. A Julieta linda e amada não conseguia emprego. Quando conseguia, ganhava pouco, porque não tinha qualificação. Então Romeu, apaixonado, ia ajudando: um cheque aqui, outro ali, outro lá. Naquela época, PIX ainda não existia.
A conta bancária foi ficando vermelha. O ânimo para os passeios foi minguando. Romeu, sempre caseiro, começou a se cansar. E a pior descoberta veio: a única refeição que a amada sabia fazer era aquela sopa de cebola, comprada pronta no supermercado.
Três meses depois do primeiro encontro, Romeu estava infeliz. Sua vida estava de cabeça para baixo. O castelo do "e viveram felizes para sempre" tinha virado um lugar triste para morar.
Foi então que ele lembrou, com saudade, daquela moça simples e de olhos verdes que cruzava seu caminho desde a faculdade. A moça dos vestidos floridos e baratos, das sandálias de dedo, dos pés descalços no campo. A moça que cultivava flores na janela.
Do alto da torre do seu castelo de infelicidade, já arranhado e magoado, Romeu entendeu: no seu conto de fadas, a Julieta tinha virado uma bruxa egoísta e perdulária. E ele, aos olhos dela, era só um sapo inconveniente que já não podia pagar seus caprichos.
Agnóstico convicto até então, Romeu pediu a Deus que tirasse a Julieta do seu conto para sempre. O pedido foi atendido. Ela encontrou outro Romeu, com saldo no banco. E ele passou a viver uma vida simples, com uma pessoa simples, numa casa simples.
Até hoje, quem passa pela rua do antigo Romeu encontra flores na janela, vestidos floridos no varal dançando ao vento, cheiro de comida vindo da cozinha — porque casa sem fogo é casa triste —, cachorros vira-latas e muitas árvores no quintal imenso.
Mas tem uma coisa ainda... De vez em quando, o antigo Romeu suspira fundo e pensa: "Por onde andará a Julieta? Por onde andará?". Codependentes precisam se afastar, todos os dias, de pessoas, lugares e coisas. E, neste conto, até mesmo da amarga lembrança do cheiro da sopa de cebola industrializada da antiga gata.
Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida.
Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se à vontade para compartilhar com os demais.
Clique em Emoções e Sentimentos para ler a crônica anterior.

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