O Herói, a Vítima e o Vingador
"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
Quando o Trabalho Vira Codependência
Nos meus primeiros anos de carreira, eu temia os sábados e domingos. Eu simplesmente não sabia o que fazer com as horas vazias desses dias. Por isso, ansiava pela segunda-feira.
Nos dias úteis, eu podia me mergulhar completamente no escritório. Usava toda a minha capacidade mental para realizar verdadeiros "trabalhos de Hércules". Eu era aquele profissional cobiçado, o solucionador dos problemas técnicos mais complexos.
Certa vez, um gerente me disse que eu trabalhava como um leão. Em outra ocasião, outro gestor confessou que gostaria de ter mais dez profissionais como eu na equipe.
Que maravilha... Naquele cenário, eu me sentia aceito, integrado e útil. Eu brilhava. E, enquanto eu trabalhava, o vazio, o medo, a angústia, a solidão e a rejeição desapareciam.
As Duas Faces da Dedicação
Por que eu era tão obstinado? Hoje entendo que existiam duas razões.
A primeira sempre foi muito clara: eu genuinamente amava o que fazia e colocava toda a minha energia em cada projeto.
A segunda razão, porém, era muito mais sutil, e só vim a descobri-la muitos anos depois. Eu desejava, desesperadamente, agradar aos meus superiores para que eles gostassem de mim.
Eu me matava de trabalhar pensando: "Eles vão me promover". Colocava a empresa em primeiro lugar acreditando: "Eles serão gratos, vão me respeitar e me dar o amor e o acolhimento que me faltam".
Movido por essa ilusão, cheguei a aceitar salários abaixo da média do mercado. Mas, apesar dos meus esforços sinceros e equivocados, o final da história era sempre o mesmo: eu terminava tratado como qualquer outro funcionário.
O Ciclo Repetitivo da Ilusão
Sem o reconhecimento proporcional ao meu sacrifício, o "herói salvador" da empresa rapidamente se transformava em um indivíduo amargo e ressentido. Eu pedia demissão e recomeçava o mesmo ciclo em outro lugar.
Dentro de mim, habitavam três personagens: o herói, a vítima e o vingador.
Repeti sistematicamente esse roteiro por mais de 20 anos — afinal, nós, codependentes, somos repetitivos e sistemáticos. Por trás daquele trabalhador compulsivo que achava que a produtividade anestesiaria suas dores profundas, estava um ser humano mergulhado na codependência, terceirizando a sua própria estabilidade emocional.
O mercado corporativo está cheio de empresas ansiando por profissionais assim: brilhantes, codependentes e dispostos a mover montanhas em troca de migalhas ilusórias de afeto e validação. Fui aquele que fez do próprio trabalho uma droga viciante em busca da serenidade.
A Doença Silenciosa
A codependência mata. Mata mais do que a violência urbana, mais do que os acidentes de trânsito, mais do que as guerras e muitas doenças crônicas. Ela mata silenciosamente, sorrateiramente e de forma solitária, fantasiada de "dedicação profissional" ou "amor extremo".
O Processo de Recuperação
Hoje, sou eternamente grato ao Programa de 12 Passos. É na prática diária desse programa que encontro a ajuda necessária para enxergar, com clareza e honestidade, a minha própria condição humana.
Clique em Meus espelhos, meus iguais para ler a crônica anterior.
Pública é a minha codependência, consciente de que sou muito maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje, eu me dou o direito de ser a pessoa mais importante da minha própria vida.
Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se à vontade para compartilhar com os demais.

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