A Bomba da Vergonha Tóxica

 

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade

necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"



Existe um sentimento profundo que me habita, um sentimento que, embora muitas vezes confundido com a culpa, possui uma natureza distinta. Na culpa, sinto-me desconfortável por algo que fiz. Na vergonha, sinto-me desconfortável por algo que sequer aconteceu: é a sensação de ser, e não apenas de ter agido.

Se a vergonha fosse um lugar, seria aquele em que jamais desejei pisar — o pior lugar do mundo. Quando ela me toma, a dor é lancinante, como a de uma criança indefesa frente a um mundo que parece cruel, povoado por olhares que julgam e condenam com frieza. Nesses momentos, o meu maior desejo é que o chão se abra, para que eu possa desaparecer e não mais enfrentar a exposição das minhas fragilidades.

Essa vergonha secreta é minha. De certa forma, parece estar comigo desde o ventre. Por isso, compreendo que não posso responsabilizar terceiros por ela, mesmo aqueles que, ao longo da vida, a tornaram pública. Eu era pequeno quando o sentimento chegou, como uma bomba prestes a explodir. Mas, como toda bomba, ela precisava de um estopim. E, durante muito tempo, acreditei que esse estopim fossem as outras pessoas.

Como eu não sabia lidar com a minha parte na bomba, tentei desesperadamente controlar o estopim alheio. Vivi fazendo "das tripas coração" para que ninguém o acendesse: fugi do contato profundo, anulei-me para agradar, tornei-me superficial, um fantoche manipulado pela minha própria insegurança. Menti para mim e para os outros, criando mundos paralelos onde todos eram bons, compreensivos e onde eu podia ser o herói — alguém brilhante, amado e, portanto, intocável.

Hoje, percebo que todas essas tentativas foram ineficazes. É impossível controlar o mundo. E, mais do que isso: mesmo que eu pudesse, a bomba ainda estaria aqui. A vergonha não depende do outro; ela é o total desconhecimento da minha própria natureza e do meu valor. É a sensação angustiante de não ser merecedor de estar aqui, como se eu fosse um equívoco da existência. É o resultado de estar desconectado do meu Poder Superior interior, buscando desesperadamente um equilíbrio em deuses externos que, na verdade, são apenas outros seres humanos tentando sobreviver.

O "cabeção mental" acelerado, os anos passados no poço da depressão e o isolamento da fobia social não são causas; são efeitos colaterais. São sintomas desse medo profundo, dessa fragilidade tóxica que me mantém apartado de mim mesmo.

Só por hoje, peço ao Poder Superior, conforme O concebo, que remova este sentimento primitivo e me permita habitar, finalmente, no aqui e no agora.

Clique em Minha Existência nos tempos da IA para ler a crônica anterior, ou em O Prisioneiro de Si Mesmo para ler a seguinte.

Pública é a minha codependência, consciente de que sou muito maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje, eu me dou o direito de ser a pessoa mais importante da minha própria vida.

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