12 Passos: No Principio era a Unidade, Depois Vieram as Novidades

 

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"



A reunião estava em andamento; o silêncio, tal como o Poder Superior — conforme O concebo — estavam presentes, tudo dentro das tradições de uma irmandade de 12 Passos. Naquele momento um companheiro falava e os demais simplesmente ouviam, desde o princípio das irmandades sempre desta forma, tudo dentro da normalidade. Então chegou o momento do Viajante Emocional falar; ele já havia ouvido silenciosa e atenciosamente vários de seus companheiros, agora havia chegado finalmente a sua vez. O Viajante sabia que através de sua própria fala — a linguagem do coração —, ele poderia estabelecer pontes de contatos com outros companheiros ao seu redor, transmitindo para eles através das vias profundas de sua emoção uma mensagem de força, fé e esperança, uma mensagem de recuperação — os depoimentos profundos costumam ter este poder, ou melhor, esta graça.

O Viajante começou a fazer uso das palavras e, pouco tempo depois já estava expondo para os presentes os segredos de sua alma na primeira pessoa do singular — é na primeira pessoa do singular que os milagres das recuperações ocorrem —, dissecando minuciosa e destemidamente pensamentos e emoções por tantos anos sepultadas nos seus mais profundos porões mentais — Terceiro Passo , a energia espiritual na sala estava circulando, o silêncio era total, no ar somente o verbo, tudo absolutamente normal, até que um celular tocou, um celular tocou "Hello Moto" na sua linguagem digital e metálica, e esta linguagem mundana quebrou todo o fluxo de pensamentos do Viajante Emocional, destruindo todas as pontes construídas pelo verbo, de tal forma que ele simplesmente se calou — no princípio era o verbo —, passando novamente a palavra para o coordenador da reunião.

Segundo a Primeira Tradição das Irmandades de 12 Passos "Nosso bem-estar comum deveria vir sempre em primeiro lugar, a reabilitação individual depende da unidade das irmandades". Ao longo daquela reunião o Viajante Emocional não falou mais nada, ele havia sido ferido na sua alma e na sua sinceridade ao longo de sua partilha, ferido pelo toque de um simples celular, pelo "Hello Moto" — as novidades adoradas pelo velho ego podem quebrar a unidade da Primeira Tradição.

A caminho de volta para sua casa o Viajante ficou pensando no grande poder dos aparelhos celulares nos dias atuais, um poder revolucionário que vai deixando obsoletas uma porção de coisas tão importantes no passado: rádio, televisão, telefone, fax, copiadoras, serviços de postagens pelo correio, livros, jornais, revistas, relações humanas, diálogos, conversas descontraídas, amizades... um poder tão revolucionário, que se não utilizado com equilíbrio e moderação, pode também deixar no passado e na obsolescência até mesmo um acolhedor grupo de 12 Passos com a simples quebra da unidade da Primeira Tradição, e sem a unidade o bem-estar comum e a reabilitação pessoal de cada companheiro de um grupo tem grandes chances de descer ladeira abaixo e sem freio para os obscuros e depressivos poços de sofrimento das mentes humanas.

Chegando em sua casa e um pouco mais sereno após o aconchego e a atenção das vira latas, o Viajante encontrou uma saída para o transtorno do celular na sala naquela noite: Levar o problema para a consciência do seu grupo discutir, certamente a consciência coletiva teria a resposta para aquela questão.

Meu nome é Anônimo, Anônimo em recuperação! Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se a vontade para compartilhar com os demais.

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