Mayday, Desastre Codependente

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"



Na escuridão da noite, a dez mil pés de altura, o avião sobrevoava tranquilamente o imenso oceano emocional sob as nuvens abaixo. Depois de algum tempo o aviador codependente avistou uma tempestade que se aproximava, e não demorou muito para que o aviador e a aeronave entrassem em uma grande turbulência mental e emocional, uma turbulência codependente. A tempestade foi ficando cada vez mais intensa e o aviador começou a perder o controle do avião,  ao mesmo tempo em que passava também a perder o controle de suas próprias emoções, seu coração estava disparado e havia um grande nó em sua garganta. Dentro da grande turbulência a aeronave começou a perder altitude, nove mil pés, oito mil e quinhentos pés, oito mil e duzentos pés...

"Mayday, mayday (*)", gritava  o aviador desesperadamente através dos aparelhos o pedido de socorro para o aeroporto mais próximo, "aqui é a aeronave prefixo Codependente-cdt-01, sou o aviador codependente e estou sob uma forte tempestade, estou perdendo altitude e prestes a cair no imenso oceano do descontrole emocional, mayday, mayday, estou sentindo medo, vergonha, culpa, constrangimento, mayday, mayday, a aeronave está caindo, mayday, mayday, estou perdendo altitude, sete mil e oitocentos pés...".

"Aviador codependente, aqui é da torre do Aeroporto Internacional da Serenidade, mantenha a calma aviador, na sua frente não uma tempestade natural, mas tão somente um ser humano tentando impor a própria vontade sobre você, aperte agora o botão do 'Não' na parte superior direita do painel aviador, aperte imediatamente o botão do 'Não' e envie esta mensagem para o ser humano que te incomoda  que a tempestade passa, câmbio...".

"Mayday, mayday, não consigo enviar  o 'Não' para a tempestade, se eu enviar o 'Não' a tempestade não vai gostar de mim; se eu enviar o 'Não' a tempestade vai apontar o dedo para mim; se eu enviar o 'Não' a tempestade vai me desprezar; se eu enviar o 'Não' a tempestade vai me castigar; se eu enviar o 'Não' a tempestade vai me odiar; seu eu enviar o 'Não' a tempestade vai gritar; se eu enviar o 'Não' terei que entrar em contato com o meu doloroso sentimento de rejeição, mayday, mayday, estou perdendo altitude, sete mil e cento e vinte e cinco pés, mayday, mayday, salve-me por favor, estou caindo, estou perdido, estou sentindo-me tão amedrontado tal como uma criança, mayday, mayday, agora seis mil e quinhentos pés para a queda fatal, mayday, mayday...".

"Aviador codependente, aperte o botão do 'Sexto Passo' na parte superior esquerda do painel, aperte imediatamente o botão do 'Sexto Passo', este é o botão da prontificação aviador, uma vez pressionado este botão você conseguirá dizer um 'Não' para o ser humano à sua frente aviador, aperte o botão agora aviador, aperte o botão que a tempestade emocional passa, câmbio...".

"Mayday, mayday, neste caso não consigo me prontificar, não tenho a coragem para modificar as coisas que posso através do 'Não', portanto não sinto serenidade por não ter a sabedoria para distinguir o que posso e o que não posso modificar, mayday, mayday, neste momento a oração da serenidade são apenas frases distantes do meu ser, estou com muito medo e sendo completamente destroçado emocionalmente pela tempestade, e agora estou caindo cada vez mais rapidamente no oceano do descontrole emocional abaixo, mayday, mayday, quatro mil e quinhentos pés de altura em direção ao abismo, mayday, mayday...".

"Aviador codependente, você ainda pode recuperar o controle da aeronave e de suas próprias emoções, bem na sua frente existe o botão do 'Terceiro Passo', este é o botão da entrega da sua vida e da sua vontade nas mãos do Poder Superior de sua concepção, aperte este botão aviador, aperte antes que seja tarde demais...".

"Mayday, mayday, não consigo apertar o botão do 'Terceiro Passo", o botão da entrega, parece que o botão está emperrado, e agora o meu poder superior é a tempestade à minha frente, estou caindo, caindo, caindo em direção ao turbulento oceano de minhas descontroladas emoções, caindo em direção a raiva que virá posteriormente e não consigo externar agora, caindo em direção a minha própria impotência perante a criança ferida e amedrontada que habita em mim, caindo novamente na insanidade com a repetição de velhos e apodrecidos padrões mentais e emocionais da infância, dois mil pés e caindo, mil e cem pés e caindo, novecentos pés, duzentos pés, caindo, caindo... mayday, mayday..."

"Aviador codependente, câmbio, câmbio, aviador codendente, câmbio...".

A torre não obteve mais nenhuma resposta, apesar de todas as tentativas de socorro, a aeronave codependente e o aviador já deveriam estar naquele momento mergulhados nos profundos e inconscientes abismos do imenso oceano do descontrole das emoções, mas o aviador codependente, tal como a ave Fênix, teria necessariamente que levantar-se de suas próprias cinzas e reviver a mesma experiência que se repetiria no futuro, até finalmente conseguir dizer simplesmente um não — a doença da codependência é como uma aeronave cujos reparos devem ser realizados em pleno voo, o pleno voo do viver.

Meu nome é Anônimo, Anônimo em recuperação! Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se a vontade para compartilhar com os demais.

(*) Mayday é uma palavra-código para emergência. É usada em todo o mundo nas comunicações emitidas por tripulantes de aeronaves ou de navios, quando estão em situação de risco. Faz parte do Código Internacional de Sinais e do Código Fonético Internacional.

A  Foto da postagem é de autoria do extraordinário fotógrafo capixaba José Carlo de Oliveira, falecido em 2021 vitimado pela covid-19. 

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