O Estranho Relógio Codependente
"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
Existem dois relógios em minha vida; o primeiro é o relógio universalmente conhecido que marca o passar do tempo, sempre o tempo presente, e o segundo é o meu interno e pessoal relógio codependente, estranho relógio psicológico que marca somente o tempo passado e o tempo que ainda virá, nunca o agora. Eu deveria usar sempre o relógio convencional, o relógio do aqui e do agora, mas em muitas situações cotidianas meu tempo é regulado pelo relógio codependente, o estranho relógio, e todas as vezes que regulo o meu tempo por este instrumento, deixo de ser o adulto de agora, e volto a ser a criança sofrida e ferida de ontem.
Nove horas da manhã no relógio convencional, alguém grita comigo — algumas pessoas costumam gritar —, e neste instante regulo as horas pelo relógio codependente, e não tem mais aqui e agora, estou no passado e emoções congeladas e armazenadas se fazem presentes, meu coração dispara, não sei o que fazer, estou sem chão, não sou mais eu as nove horas da manhã, agora é o tempo da criança ferida em mim atemorizada com aqueles que gritam com ela — algumas pessoas costumam gritar com as crianças —, agora é o tempo da codependencia no estranho relógio, agora é o tempo das velhas emoções automatizadas, requentadas e sempre prontas para virem à tona.
São agora quinze horas e vinte minutos no relógio convencional; no meu trabalho duas pessoas entram em conflito, estou entre elas e não sei o que fazer, meu coração dispara, deixo de lado o horário convencional, e mais uma vez mergulho no passado tentando controlar os distúrbios emocionais de um lar disfuncional, mais uma vez voltei a ser a criança amedrontada tentando apaziguar todos os conflitos entre aqueles que amo, sentindo-me responsável por tudo e por todos à minha volta, mais uma vez perdi a hora e mergulhei no meu estranho relógio codependente.
Vinte e duas horas de um domingo — marca os ponteiros do relógio convencional —, amanhã é segunda-feira, dia do retorno a rotina da vida diária. Não quero a segunda-feira, não quero a rotina e a vida que venho levando, quero uma vida diferente onde serei finalmente feliz. Inconscientemente adianto os ponteiros do meu estranho relógio codependente; agora estou no futuro casado e feliz para sempre com aquela moça maravilhosa que mora numa cidade distante com um belíssimo coreto na praça; agora estou no futuro longe desta realidade terrível vivendo numa terra encantada e repleta de felicidade, uma terra onde não existem problemas existenciais, a terra do nunca do Peter Pan, a terra do pó de pirlimpimpim da fada, a terra dos castelos, princesas, príncipes, mil e uma noites e felicidade eterna.
Segunda-feira, 19 de junho do ano de 2023, o relógio convencional marca exatamente dezoito horas e cinquenta e dois minutos, agora estou aqui, agora estou escrevendo, mas até quando? O estranho relógio codependente está no meu bolso ao alcance instantâneo de minhas emoções, e a qualquer momento eu posso dar uma olhadinha para ele, dar uma espidinha no passado, dar uma espiadinha no futuro, e desta forma trôpega vou fugindo do passar das horas, fugindo do aqui e do agora, e continuarei fugindo até finalmente nascer em mim a consciência de que o meu psicológico e codependente relógio que atrasa com tanta frequência não adianta nada em minha vida mental e emocional.
Poderiam perguntar: "Quem regula o tempo todo o passar das horas do estranho relógio codependente?", e a resposta está no incansável relojoeiro que habita em mim, aquele que necessita do passado e do futuro para criar sua própria identidade, aquele que não suporta o presente, pois este simplesmente revela a sua ausência, meu velho ego.
Meu nome é Anônimo, Anônimo em recuperação! Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se a vontade para compartilhar com os demais.

Sim,companheiro!!!
ResponderExcluirNada é mais importante do q o tempo presente..*o aqui e o agora..
Onde nossa alma brinca,com a possibilidade de várias realizações..
Onde me dou o luxo de ser Eu mesma..*Sem as velhas amarras..
Sem as velhas faces da inconsistência..
#Abçs!!!