Minha Dulcinéia aos 14 Anos
"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
Eu tinha 14 anos quando a vi pela primeira vez. Linda. Sorridente. Meiga. A princesa do conto de fadas que ia preencher minha vida de sentido até o fim. Num segundo, eu transformei uma garota normal numa deusa vinda de outra galáxia.
Esse foi o primeiro tiro certeiro da codependência em mim. Porque nós, codependentes, somos exímios sonhadores. Temos medo do mundo real, então criamos o nosso. Idealizado. Perfeito. Nosso!
Se passaram mais de 50 anos desde aquele dia. E até hoje, aqui dentro, mora a sensação de que ela poderia me salvar. Me levar num passe de mágica pra um lugar feliz que eu nunca visitei. É como se tudo tivesse acontecido há 5 minutos — Na codependência, a dor da infância é uma ferida aberta. Todos os dias são o mesmo dia.
Se você não é codependente, vai dizer:
"Rapaz, você tá enganado. Ela é gente como a gente. Fica de mau humor. Ressentida."
"Ela existe só na sua cabeça."
"Como se apaixonar por alguém a 334 km de distância, com quem você nunca trocou 10 palavras?"
E eu respondo: "Vocês estão todos enganados. Será que não veem os seres encantados que passam pela vida?"
Eu era o próprio Dom Quixote. Quixote era apaixonado por Dulcinéia Del Toboso. A mulher mais nobre e iluminada do universo. Na vida real? Dulcinéia era uma camponesa cansada, rude, tentando ganhar o pão. Mas pra ele, não.
"Vocês foram enfeitiçados. Dulcinéia é perfeita. E eu vou ser cavaleiro por ela." — assim dizia Dom Quixote.
No começo eu achei Quixote doido. Até entender que Cervantes não escrevia sobre ele. Escrevia sobre mim, 300 anos antes de eu nascer.
Só por hoje sou um codependente Anônimo. E Dom Quixote é, sem dúvida, o codependente mais famoso da literatura.
Clique em A Criança Oculta: A Linha que Divide a Neurose e a Codependência para ler a crônica anterior, ou em O Fósforo úmido para ler a seguinte.
Pública é a minha codependência, consciente de que sou muito maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje, eu me dou o direito de ser a pessoa mais importante da minha própria vida.
Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se à vontade para compartilhar com os demais.

Comentários
Postar um comentário