Botafogo: Estação Terminal

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade

necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"



Diziam que depois de Botafogo havia um túnel escuro. E eu preso na estação carregava o pior medo: atravessá-lo. Estava cansado. Cansado de andar por aquelas estações há anos. Deixei de acreditar nos trens, no ir e vir, na vida. Sobretudo, deixei de acreditar em mim mesmo.

Nada mais fazia sentido. Dia após dia, parado em Botafogo, estação terminal para mim, esperava o próximo trem pra voltar. Jurava que embarcaria. Imaginava trens especiais, sempre o próximo. Todos passavam. Eu, paralisado. Queria embarcar, mas não conseguia. Preso no tempo, na vida, na estação, em mim mesmo. Vivia no vazio, no cárcere pessoal, cercado pelo medo do túnel que vinha depois. Não conseguia mover-me.

Uma força invisível me detinha. Voltar era impossível. Já conhecia todas as estações anteriores: Catete, Flamengo, Largo do Machado, Glória, Carioca, Cinelândia, Central... Anos transitando por elas. Agora em Botafogo, sem chão, sem ação, sem alegria. Chama apagada, sol encoberto, noite sem luar, navio sem farol.

Meninos que vi embarcar já eram adultos. A vida seguia, como o trem. Eu, toupeira na toca subterrânea, com medo de sair. Passava o trem do carnaval, gente alegre, e eu não entrava. Vinha o trem dos homens de negócio, e eu não discutia ideias. Preso no passado, no futuro, ausente do presente. Deixava todos os trens passarem.

Até que, fim de ciclo, fim de inverno ou inferno pessoal, depois de anos paralisado, um dia percebi: a estação estava vazia. Descobri o próprio vazio, a solidão. E a imensidão desse vazio despertou um medo colossal. Medo de perder-me pra sempre ali, no nada. Medo de morrer sem ter vivido. Medo de perder-me dentro de mim.

A dor era tanta, o desespero tão real, que movido pelo medo e pela impossibilidade de voltar, sem alternativa, finalmente criei coragem. Levantei. Caminhei pra saída. Determinado, fui em direção ao maior temor: o túnel escuro. Mesmo com medo, vi sob o Morro da Babilônia a entrada do túnel. Enfrentei o inimigo, ou a ilusão, e o atravessei. Percebi que não era tão escuro. A escuridão era fruto da minha mente doentia.

Do outro lado, tudo era novo. Depois de anos naquela cidade, finalmente vi o Rio. E o Rio era bonito. Tinha o dom de ser Janeiro o ano inteiro. Tinha um Jardim, não o da Babilônia, o Botânico. Tinha um Tom, cheio de sol, luz e canções. No Rio encontrei o mar. Belo, imenso, amigo do Rio. Seguindo o mar pela avenida, deparei-me com a rua que preenchia todos os vazios. Que extirpava a angústia, a inércia, o medo. A rua que nascia junto ao mar e seguia serena, infinita. uma significativa descoberta pra mim: rua Duvivier.

Desde então, estou aprendendo a viver de outra forma, cultivando dentro de mim a alegria profunda, deixando pra trás, pra sempre, a vida de toupeira depressiva nas subterrânea vias do metrô de São Sebastião do Rio de Janeiro, cidade que eu aprendi a amar com todas as forças do meu coração.

Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida.

Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se à vontade para compartilhar com os demais.

Clique em Batidas Na Porta para ler a crônica anterior.

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