A Doença da Negação
Desde que eu era muito pequeno eu já sentia um profundo desconforto para viver a minha vida, pois eu carregava dentro de mim um sofrimento sem pé e sem cabeça que estava tão presente como a minha própria respiração — jamais houve uma trégua.
Minha mãe era a única que percebia que eu sofria (as mães enxergam longe), e no seu nível de conhecimento dizia que a minha dor era devido ao resgate de vidas passadas e que eu teria que aprender a conviver com ela até o final dos meus dias, e em caso de submissão a esta dor com a aceitação da mesma, eu seria glorificado depois da minha morte lá no céu.
Fui então vivendo desta forma, creio que eu não tenha de fato vivido, mas simplesmente sobrevivido a tanta dor que me assolava todos os dias, uma dor crônica e profunda vinda de algum lugar desconhecido dentro de mim.
Com o tempo, e para tentar escapar deste sofrimento sem fim, comecei a imaginar que eu poderia ser feliz se alguma coisa viesse a acontecer em minha vida, e desde então passei a esperar pela felicidade que eu viria a sentir depois de algum evento ocorrer.
Eu seria feliz quando terminasse o grupo escolar e passasse no exame de admissão para o ginásio, algo bem difícil num tempo em que as escolas públicas eram de excelente qualidade; senti-me infeliz enquanto estava no curso primário, passei no exame de admissão para a melhor escola da minha cidade mas, infelizmente a felicidade não veio.
Este processo doido de ser feliz no futuro continuou ocorrendo por muitos anos, até eu estar com o meu canudo universitário nas mãos. Naquela época eu já estava cansado de tanto sofrer, então tomei uma atitude beligerante com relação a Deus, eu me afastei Dele, e naquele período da minha vida o dinheiro começou a entrar na minha conta e eu finalmente achei que a felicidade chegaria — eu fiz do dinheiro o meu deus.
Apesar de todo o sucesso profissional a felicidade não chegou (coisa mais estranha), e dez anos depois da conquista do canudo eu achei que havia descoberto a solução para o meu problema: Uma mudança geográfica para uma cidade do interior, esta era a chave para o enigma da minha infelicidade crônica — nesta época eu estava vivendo no Rio de Janeiro.
De tanto pensar com o meu cabeção pensante nesta mudança para o interior, a mudança de fato se concretizou. Como num passe de mágica, em poucos dias tudo aconteceu: Apareceu uma empresa em São Paulo que precisava de alguém para trabalhar no interior do estado, fiz a entrevista e passei, logo em seguida achei lá no meu futuro paraíso um ótima casa para morar e o proprietário acertou tudo comigo sem contrato, sem fiador e sem nada, tudo na confiança, e não termina aí, a empresa pagou a mudança para mim, tudo como num conto de fadas, e então num sábado eu estava morando no lugar dos meus sonhos junto com a minha mulher e o meu filho — glória a Deus, glória a Deus, agradecia eu lá com os meus botões, finalmente eu estava em paz comigo, finalmente eu estava em paz com Deus, finalmente eu estava pronto para ser feliz.
Naquele sábado depois de colocar a mudança em casa e sair para almoçar eu senti que a minha angústia estava por ali, mas aquilo deveria ser algo passageiro, com o passar dos dias ela certamente iria embora, afinal de contas agora eu tinha absolutamente tudo o que eu sempre havia desejado para ser feliz.
Mas a angústia não foi embora, permaneceu e foi crescendo cada vez mais, atingindo patamares muito mais agudos de dor dentro de mim, e o estranho era que eu não conseguia compreender aquilo, aquela angústia não fazia mais nenhum sentido, eu deveria estar feliz, eu estava vivendo o meu grande sonho.
Minha angústia subiu mais do que o dólar em tempos de desvalorização da moeda brasileira, eu estava muito mal, havia ido para o porão dos meus sofrimentos, e a depressão (eu nem sabia que sentia este trem) se apossou de mim feito um polvo gigantesco com milhões de tentáculos, e naquele período tão triste da minha vida eu deixei de viver e passei simplesmente a sobreviver, e o mais triste, muito triste, eu deixei de acreditar em todos os meus sonhos, e deixando de sonhar eu passei a ser um infeliz protagonista do profundo pesadelo em que minha vida se transformou, meu próprio pesadelo.
Sem entender ainda muito bem a minha forma de funcionar eu ainda tive um lampejo de esperança, um última boia de salvação: Se eu voltasse para o estado do Rio de Janeiro tudo voltaria ao normal, pois certamente minha dor doeria muito menos na minha terra natal, eu precisa voltar, eu precisa voltar.
Largar tudo e voltar significava admitir o meu fracasso naquele sonho de felicidade que não havia dado certo, isto não era assim tão difícil, o difícil seria dizer isto para a minha mulher, pois no meu cabeção pensante ela estava muito feliz ali naquela cidade do interior de São Paulo longe de todas as nossas raízes.
Então numa conversa franca (algo muito raro para um neurótico como eu) eu descobri que ela também se sentia infeliz ali, mas ela "achava que eu estava bem", e não querendo contrariar-me foi ficando calada sem comentar nada a respeito — Ah neurose, ah neurose... você não dá no poste da rua, você não dá no cachorro que passa, você é doença de gente, e você, de fato, não é brinquedo não.
Voltei para minha cidade natal mas a motivação para vida não existia mais, meus dias se transformaram em dias monótonos e sem sonhos, passei a viver uma vida cinza, já não sonhava, já não via mais os horizontes, e desta forma eu fui arrastando os meus dias cumprindo com as minhas obrigações e empurrando a minha vida com a barriga.
No trabalho onde estava naquela época sem a menor motivação surgiu uma luz no fim do túnel: Um gerente percebeu o meu talento profissional e sugeriu que eu desenvolvesse um software (um programa de computador), afirmando que este software seria comercializado em larga escala em toda a América Latina e que com isto ganharíamos muito dinheiro.
O gerente era bom de conversa; o gerente me passava confiança; o gerente me passava segurança; o gerente tinha muitos contatos em São Paulo; o gerente tinha visão; o gerente era tão falante, tão educado, tão elegante, tão legal, que coisa extraordinária aquilo, e aquilo me levou a sonhar mais uma vez, um sonho onde todos os meus problemas estariam finalmente resolvidos, um sonho de riqueza e com uma vida cheia de conforto material, e eu resolvi embarcar neste meu sonho de salvação mais uma vez.
Meu contrato na empresa onde eu trabalhava com este gerente havia chegado ao fim, eu tinha algumas economias, o gerente me estimulou a tocar aquele projeto grandioso, passei então a dedicar todo o meu tempo na construção daquele produto, e neste período fui gastando as minhas economias, mas tudo isto valeria a pena, eu tinha a mais absoluta certeza que depois de alguns meses eu concluiria o trabalho e então estaria finalmente muito bem de vida financeiramente...
O projeto foi sendo tocado, de vez em quando eu ligava para o gerente, e ele continuava estimulando-me a ir até ao fim, e até o fim eu fui, até que tudo ficou pronto, e então num certo dia eu fui fazer a demonstração do produto para ele.
Cheguei na empresa onde eu havia trabalhado, ele ainda trabalhava lá, aguardei por ele por algumas horas, até que finalmente ele me recebeu, já estava anoitecendo, mas aquele era o grande momento da minha vida.
Fui demonstrando pelo computador tudo o que eu havia feito, o meu futuro e todas as minhas fichas estavam naquele projeto, fui demonstrando, demonstrando, demonstrando... até que em determinado momento ele adormeceu, e neste momento tardiamente eu percebi que havia entrado numa grande furada, ou melhor, eu havia embarcado numa canoa furada — os neuróticos possuem o estranho hábito de delegar os atributos de um Poder Superior a um outro ser humano.
Quando voltei a falar com ele alguns instantes depois ele estava distante, muito distante, me disse que voltaria para São Paulo no dia seguinte e que voltaria a falar comigo sobre tudo aquilo num outro dia; ele nunca mais ligou para mim.
Duro foi este golpe para mim, mas ainda não era o fim: Eu havia queimado todas as minhas economias ao longo de um ano, não tinha mais nenhum centavo no banco, estava completamente arrasado, mas mesmo assim a terra continuou girando em torno do sol, e alguns dias depois minha esposa pediu para eu ir à padaria comprar alguns pães, e eu fui mesmo sabendo que não tinha como levar os pães de volta para a casa, e grande foi a minha vergonha e o meu sentimento de derrota.
No meio do caminho entre minha casa e a padaria encontrei uma pequena praça com um único banco e uma única árvore; a noite começava a chegar, sentei-me no banco e no banco chorei um choro profundo de dor, raiva, indignação, vergonha, revolta, impotência... e depois de derramar todas as minha lágrimas e olhar para baixo encontrei uma nota de 2 reais debaixo do banco, e naquele dia aquela nota perdida salvou a minha dignidade diante do olhar dos meus filhos e da minha mulher.
Alguns dias depois deste fato eu entrava pela primeira vez numa sala de Neuróticos Anônimos, e desde aquele primeiro dia até os dias de hoje minha vida mudou completamente, a vida me deu uma segunda chance que eu agarrei como uma boia lançada ao mar para um náufrago, e desde então eu passei a fazer a viagem mais fascinante de toda a minha vida, não uma viagem para terras distantes de sonhos e ilusões, mas uma contínua viagem para dentro de mim que me leva continuamente a processos de autodescobertas, e quanto mais eu me descubro mais eu me encanto comigo mesmo e com a vida.
Se não fosse pela ação de um Poder Superior, conforme eu O concebo, que me concedeu este presente que é o Programa de 12 Passos, eu certamente não estaria aqui para escrever estas linhas, eu certamente teria morrido de desgosto, e no entanto eu continuo aqui, e apesar dos meus tropeços que são naturais, afinal de contas eu sou humano, a cada dia eu sinto que vivo a vida com mais gosto, com mais gosto de viver.
A única coisa que me impede de alcançar o céu da serenidade sobre a minha cabeça são as poderosas e ilusórias correntes do meu velho ego atadas aos meus próprios pés.

Comentários
Postar um comentário