O Ator, a Peça e o Eu Profundo


"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade

necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"


Minha vida é uma peça teatral; lá estou eu no palco representando inconscientemente vários papeis: O neurótico, o codependente, o egocêntrico, o controlador, o medroso, o ansioso, o irritado, o omisso, o indiferente, o bobo da corte, o bonzinho que agrada a todos, o homem que nunca diz não, o construtor contumaz de mundos maravilhosos de faz de contas, o agnóstico, o orgulhoso, o coitadinho, a criança sofrida e infeliz, o pensador compulsivo, etc.

Enquanto permaneço no palco vivendo intensamente estes papeis e identificando-me profundamente com cada um deles, não consigo perceber que isto é apenas uma peça e que eu sou apenas um ator, um atormentado ator interpretando com intensidade todos os meus dramas, como se de fato eles fossem reais. 

Interpreto tudo isto usando diversas máscaras que estão sempre ao alcance de minhas mãos sempre que determinadas situações da vida se apresentam (geralmente situações de conflitos entre humanos), e isto geralmente ocorre quando eu acho que não sou capaz de viver os acontecimentos cotidianos mostrando-me como exatamente eu sou, e nestes momentos eu coloco as máscaras e passo a interpretar o papel conveniente para aquela situação; grande foi e grande ainda é o meu sofrimento nestas peças exibidas com frequência, tais como as séries da televisão, por tantos anos ao longo da minha vida.

Mas então começa a acontecer ao longo do tempo e da peça uma coisa extraordinária... Em processo de recuperação em 12 Passos eu começo a perceber que mesmo com a peça em andamento, supostamente comigo no palco fazendo as interpretações, eu consigo sair deste palco, descer até a plateia e de lá ficar observando atentamente o infeliz ator vivendo de forma tão intensa as suas misérias mentais, morais, existenciais e emocionais numa peça cheia de apegos onde tudo gira em torno do seu próprio umbigo.

Mas como pode isto? Como pode eu estar lá no palco representando os meus papeis, ou melhor, o meu papelão, e ao mesmo tempo estar lá embaixo na plateia assistindo a tudo isto como um observador sereno, distante e silencioso, como pode isto? Chegamos então num paradoxo, pois é impossível que eu, ou outro ser humano, ou ainda outra coisa qualquer possa estar simultaneamente em dois lugares ao mesmo tempo.

Paradoxo nenhum! Quem está lá no palco utilizando as máscaras conforme o roteiro da peça é o meu velho ego, e quem está lá na plateia assistindo a tudo isto sou Eu, o meu Eu verdadeiro, o meu Eu profundo. 

O grande divisor de águas no meu processo de recuperação em 12 Passos foi a descoberta de que Eu não sou o meu ego, e perceber isto foi um extraordinário despertar espiritual, uma verdadeira Graça de um Poder Superior, conforme eu O concebo, manifestando-se em minha vida. No meu estado de adormecimento espiritual o meu velho ego adora me pregar peças.

Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se a vontade para compartilhar com os demais.

Clique em As Areias das Praias da Vida para ler a crônica anterior, ou em A Doença da Negação para ler a crônica seguinte.

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