As Areias das Praias da Vida


"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade

necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"


Eu estava com muitas saudades do mar; no domingo de carnaval acordei bem cedinho e me preparei para partir. Na hora da saída veio aquele velho aperto no coração, pois nestes momentos a criança que habita em mim traz à tona as recordações das constantes viagens do meu pai, aquele caminhoneiro que viveu muitos anos da sua vida mais nas estradas do mundo do que na sua própria casa — como foi difícil para mim lidar com a ausência do meu pai na minha vida, como foi difícil.

Mas aconteceu algo interessante, são os frutos dos 12 Passos; num determinado momento, rodeado ali pelos cachorros que literalmente não largavam o meu pé — eles sabiam que eu estava de partida —, me veio à mente pela primeira vez em minha vida um questionamento: "Quando papai partia eu olhava simplesmente para o meu lado e o lado dos demais que ficavam em casa (minha mãe e meus irmãos), sem jamais colocar-me no lugar dele. O que sentiria o meu pai naqueles momentos de despedida, o que sentiria? E então eu percebi lá no fundo do meu coração que certamente ele sentia a mesma coisa que eu estava sentindo naquele instante, um sentimento ambíguo com o imperativo da viagem e o desejo de ficar em casa com os seus, e naquele inesquecível momento eu e o meu velho pai éramos simplesmente um".

Alguns minutos antes das cinco liguei a chave do carro, aguardei por alguns instantes o óleo circular pelo motor e sai sem olhar para trás, se eu olhasse correria o risco de voltar. Lá pelas seis horas presenciei o nascer do sol na baixada fluminense, e por volta das sete e meia estava passando pela ponte Rio Niterói, e neste momento lágrimas desceram dos meus olhos, lágrimas de gratidão pela vida e por este presente de 12 Passos que recebi um dia de um Poder Superior, conforme eu O concebo, pois nesta mesma ponte num certo domingo da minha juventude eu também chorei, não um choro de gratidão pela vida, mas um choro de abandono e solidão tal era a dimensão da doença das emoções em mim.

Creio que o relógio marcava nove e meia da manhã quando virei a rua que levava à casa do meu amigo lá na região dos lagos e neste exato momento eu avistei o mar depois de tanto tempo, como é lindo o mar, com é precioso o presente de viver.

Ah meu pai, como sinto saudades de ti, mas saiba meu velho, saiba aí do lugar onde você está agora, saiba que quanto mais eu me recupero em 12 Passos mais gratidão e respeito eu sinto por você, creio que somos muito parecidos papai, creio que estou começando a gostar de mim, creio que estou finalmente começando a gostar de nós.

Papai, quando eu era muito pequenino você me disse certa vez que o mar era grande, muito grande, e agora eu afirmo que você tinha toda razão, pois hoje o meu olhar, que no fundo é uma extensão do seu, também percebeu aquela grandeza, quase infinita, que é o oceano de gratidão que brota em mim e que vai, pouco a pouco, transformando-se em ondas que se quebram amorosamente nas areias das praias da vida.

Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se a vontade para compartilhar com os demais.

Clique em A Varanda da Cela Mental para ler a crônica anterior, ou em O Ator, a Peça e o Eu Profundo para ler a crônica seguinte.


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