A Varanda da Cela Mental
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
Minha mente é uma prisão, e em algum lugar dela existe uma varanda bem alta; eu tenho a liberdade de ir à varanda a qualquer momento para observar toda a realidade lá embaixo. Como estou preso na mente, não sei exatamente como é a realidade, então lá do alto da varanda mental eu fico imaginando como seria se eu realmente pudesse estar lá, e é desta forma imaginária que eu vou vivendo os meus dias desde que percebi que existia, criando a todo instante de dentro da prisão a minha própria realidade paralela, imaginada, sonhada e idealizada.
Lá estou eu na varanda mental observando a realidade; passa uma pessoa apressada, passa um idoso andando bem devagar, passa um grupo de crianças indo para o grupo escolar, as pessoas vão passando, a vida vai passando, a realidade vai passando e eu observando, observando...
De repente passa lá na realidade uma moça muito bonita; lá do alto da varanda eu olho para ela, então ouço alguém falando "como vai você Elisa?" Elisa é o nome dela, meu coração dispara, ela tem algo de muito especial, e daquele momento em diante eu vou à varanda todos os dias para ver a Elisa passar, a Elisa é linda, a Elisa é maravilhosa, a Elisa é meiga, a Elisa é sensível, a Elisa é elegante, a Elisa é assim, a Elisa é assado, e assim vai a minha mente criando a realidade paralela em relação a ela, a Elisa idealizada, a Elisa com quem eu não falei nem um simples olá.
O tempo passa e eu continuo lá do alto da varanda paquerando a Elisa, e agora a coisa vai ficando mais séria, e eu já estou agora namorando a Elisa, já estou indo ao cinema com a Elisa, já estou frequentado a casa da Elisa e conhecendo os seus familiares, oh glória, que gente maravilhosa são estes familiares da minha amada Elisa.
Ainda estou na varanda, talvez esteja na hora de arrumar um trabalho, vou precisar de dinheiro para constituir um lar com minha amada, a bela Elisa, e com o tempo virão os filhos e teremos um lar onde viveremos felizes para sempre, ah... Elisa do meu coração, eu te amo com todas as forças do meu ser.
Estou tão feliz lá na varanda; olho lá para baixo e vejo a Elisa, mas que coisa mais estranha... A Elisa está acompanhada, a Elisa está enamorada, a Elisa está de mãos dadas com alguém, ah meu Deus do céu, como pode isto meu Deus, a Elisa está me traindo, a Elisa não me ama, a Elisa está comprometida com outro, ah meu Deus do céu.
Estou tão infeliz lá na varanda; preciso ir até a realidade tentar falar alguma coisa com a Elisa, mas eu não consigo ir até lá, estou preso na varanda, estou preso na mente, estou preso no meu sofrimento, estou agora num estado profundamente depressivo, como se estivesse preso dentro de um poço escuro amarrado por pesadas correntes. Criei coragem, sai do poço, o porão de minha prisão mental, fui à varanda e olhei lá para a realidade, e agora a Elisa já noivou, já casou, já engravidou e já tem até uma filha, ah meu Deus do céu, ah meu Deus, perdi a Elisa para sempre e nunca mais serei feliz, perdi a Elisa para sempre e nunca mais amarei ninguém, perdi a Elisa para sempre e para sempre serei infeliz mergulhado na mágoa e na dor de ter perdido a minha amada Elisa.
Como é triste e solitária a vida aqui na minha varanda mental, grande é a minha dor, e nada mais me resta senão seguir vida adiante arrastando as minhas correntes de sofrimento e solidão sem fim, ah Elisa, ah Elisa, como tudo teria sido diferente se estivéssemos juntos vivendo o nosso "e viveram felizes para sempre".
A história poderia terminar aqui, mas lá na varanda da minha prisão mental os mesmos filmes são exibidos várias vezes, o roteiro é sempre o mesmo, mudam os atores coadjuvantes, mas eu, o protagonista do drama, continuo participando de todas estas doentias projeções mentais.
De repente passa lá na realidade uma moça muito bonita; lá do alto da varanda eu olho para ela, então ouço alguém falando "como vai você Giovana?" Giovana é o nome dela, meu coração dispara, ela tem algo de muito especial, e daquele momento em diante eu vou à varanda todos os dias para ver a Giovana passar, a Giovana é linda, a Giovana é maravilhosa, a Giovana é assim, a Giovana é assado, e assim vai a minha mente criando a realidade paralela em relação a ela, a Elisa idealizada, a Giovana idealizada, a Melita idealizada, a Thelma idealizada, a Maria Jarbina idealizada...
Ah... mulheres mentais imaginadas e idealizadas, ah... mulheres mentais, como tudo teria sido diferente se estivéssemos juntos vivendo o nosso "e viveram felizes para sempre".
Meu Senhor e meu Deus, conforme eu O concebo, ajude-me a sair da varanda e descer até a realidade a fim de simplesmente viver a vida como ela é, pois grande é o meu sofrer com todos estes fantasmas mentais, meus amores platônicos da juventude, visitando-me cotidianamente na varanda da cela da minha prisão mental.
Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se a vontade para compartilhar com os demais.
Clique em A Espera Infeliz para ler a crônica anterior, ou em As Areias da Praia da Vida para ler a crônica seguinte.

Comentários
Postar um comentário