O Jogo do Sim ou Não


"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade

necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"


Eu estava sentindo-me muito infeliz, havia alguma coisa muito errada em minha vida, eu precisava de uma mudança radical a fim de encontrar a minha merecida felicidade. Meu velho ego é um exímio jogador, e naquele distante ano de 1992 resolvi jogar com ele o jogo da cabine fechada, jogo este onde eu não ouvia as perguntas formuladas por ele, e quando uma luz brilhava no interior da cabine eu respondia inconscientemente Sim ou Não. No final do jogo, depois da última pergunta, eu teria o meu prêmio.

A propósito... imagine aí na sua mente um Sim e um Não bem sonoro e bem forte, algo assim: Simmmmmmmmmmmmmm ou Nãããããããããããããããããããão. Pode rir ao longo do jogo se assim o desejar, isto de forma alguma me ofenderá, e se lágrimas brotarem de seus olhos, permita que elas escorram pela sua face.

Início do jogo...

"Viajante Emocional", falou meu velho ego, "você trocaria a cidade onde você vive atualmente por uma cidade bela e agradável no interior, um lugar de gente feliz?"

Sim.

"Viajante Emocional, você não vai sentir nenhuma falta das amizades que você cultivou por aqui, bem como de todas as suas conquistas pessoais arduamente alcançadas?"

Não.

"Viajante Emocional, você trabalha numa multinacional, ganha bem, todas as janelas do alto edifício da sua empresa  são cartões postais internacionais da cidade do Rio de Janeiro, você deseja trocar tudo isto por uma cidade do interior que neste exato momento você nem sabe exatamente onde fica?"

Sim.

"Viajante Emocional, você não gostaria de refletir mais um pouco, não trocando o certo pelo duvidoso?"

Não.

"Viajante Emocional, você tem certeza absoluta de que uma mudança geográfica para um lugar distante daqui vai trazer para você a felicidade que você sempre buscou e jamais alcançou?

Sim.

"Viajante Emocional, você está na iminência de ser promovido, seu talento intelectual é notório no seu trabalho, você não acha melhor ficar por aqui e desfrutar de todo o seu esforço profissional depois de alguns anos de dedicação?

Não.

"Viajante Emocional, você vai largar tudo isto e brevemente estará trabalhando numa outra grande metrópole, porém, não num edifício confortável, belo e arejado como este, mas dentro de um subterrâneo numa poderosa empresa bancária, questões de segurança, onde você verá apenas uma fresta de luz vinda de uma janela basculante a 40 metros acima de você.  Você tem certeza que deseja realmente passar por esta experiência, ou melhor, por esta provação de trabalhar oito horas por dia num buraco feito uma toupeira?"

Sim.

"Viajante Emocional,você vai morar bem longe da casa dos seus pais e de seus parentes mais próximos, sua mãe ama de coração receber sua visita com frequência, assim como sua sogra também ama ser visitada pela sua esposa, você não quer ponderar sobre tudo isto antes de decidir?"

Não.

"Viajante Emocional, seu filho já está ambientado por aqui, tem os coleguinhas dele, tem os tios, os primos e os avós, todos relativamene próximos, apesar disto, você está de fato disposto a ir para o seu longíquo mundo imaginário de paz e alegria eterna?"

Sim

"Viajante Emocional, você vai comer o pão que o diabo amassou com o rabo, sua rotina será muito triste, vai viver num lugar frio, terá que acordar as quatro da manha e correr para um ponto, a fim de chegar as oito em ponto no seu escritório subterrâneo, o buraco da toupeira, viverá no interior onde não será feliz tendo que ir para a grande cidade de São Paulo todos os dias, e daí em diante seus dias serão cheios de amargura por tudo o que deixou para trás, e também cheio de saudades dos seus parentes e dos seus amigos, você tem certeza que deseja ir mesmo assim?

Sim.

"Viajante Emocional, agora a pergunta final, e sua resposta selará o seu destino: Você trocaria todos estes seus sonhos de ventura imaginadas no seu Cabeção Compulsivamente Pensante, sonhos estes que vão levar-te para os porões de uma depressão infinitamente mais profunda do que a depressão que você já sente e sempre sentiu, simplesmente pela vida que você já tem aqui e agora?"

Não.

Fim do jogo; tudo foi consumado e grande foi a minha dor.

Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se a vontade para compartilhar com os demais.

Clique em Meu Inimigo Oculto para ler a crônica anterior, ou em O Bicho Grilo para ler a crônica seguinte.

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