O Bicho Grilo
"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
Apegos, desejos, posses, poço... não posso mais, não quero mais, não desejo mais.
Possuo tanto, desejo tanto, anseio tanto, e quanto mais possuo mais desejo, e quanto mais anseio mais fundo cavo o profundo poço...
O poço depressivo, o poço dos desejos, o poço dos anseios, o poço da felicidade futura que nunca vem, o poço das mágoas passadas que nunca vão, o poço da falta da minha presença, meu vazio... Não posso mais com tanta ausência dentro deste fundo poço.
O posseiro em mim grilou as terras de minhas emoções, e agora vivo pulando de sentimento em sentimento, pulo na solidão, pulo na angústia, pulo na alegria, pulo no medo, pulo na esperança, pulo na rejeição, pulo na negação... virei bicho grilo e agora só ando "griladão" — a palavra nem existe, mas eu preciso criá-la para expressar minhas emoções.
Assim como criei a palavra, dores também criei, tantas que eu perdi a conta, dores reprimidas, dores comprimidas, dores escondidas, pois as dores caladas (honestas dores), muitas vezes chegam antes das lágrimas que eu tento represar para fingir que estou bem, mas por maior que seja a minha desonestidade e meu esforço insano em reprimi-las, minhas dores mais escondidas nunca deixam de ficarem escancaradas na minha face e no meu olhar.
Sou grileiro, tenho muitas posses, por favor não me incomodem, caso contrário solto os meus cachorros em cima de vocês, possuo três aqui em casa. Ah... minhas posses queridas: Meu medo, minha raiva, minha agressividade reprimida, meu medo acanhado, minha rejeição contumaz, minha negação cega, surda e muda, minha intelectualidade totalmente inútil para sentir Deus (conforme eu O concebo), minha ansiedade sem fim, minha nostalgia por tudo o que desejei e nunca vivi, minhas mentiras para manipular os demais... Ah minhas posses queridas... possuo tanto, que de tanto possuir tentei entulhar tudo isto para encher o vazio que sinto todos os dias, simplesmente para não sentir, para não sentir que sinto tanto, tudo em vão.
Possuo tanto que me perdi nas minhas posses e me afundei no meu poço, não posso mais... Não posso mais continuar fugindo, mentindo, iludindo, magoando, protelando, possuindo... Creio que estou cansado de tantas posses, de tantos desejos e de tanto poço; de tanto possuir acabei possuído por tudo que eu supostamente possuo, transformando-me num servo perdido em minha própria casa.
Mas por que cargas d'água eu não largo todas estas posses que me escravizam e me infernizam? É por causa do meu apego e da minha identificação com tudo isto; é por acreditar que eu sou tudo isto; é por não conseguir simplesmente entregar de verdade minha vida e minha vontade nas mãos de um Poder Superior, conforme eu O concebo, pois esta entrega significaria o fim de todas as minhas supostas fortalezas de segurança emocional, estes meus muros de dor e isolamento através de minhas ilusórias posses que mais se assemelham a brinquedos infantis; é por achar que o mundo gira em torno de mim e que eu sou o centro de todo o universo e um pouco mais além; é por acreditar, ainda, (insanidade a minha) que toda esta grilagem vai encher a minha vida de paz, plenitude e alegria de viver.
Hoje acordei cedo sentindo muita, muita angústia... fiquei quieto com a angústia ali do meu lado, não briguei com ela, e quando tomei o primeiro gole de café percebi que não era angústia o que eu sentia, mas simplesmente uma profunda saudade de mim mesmo. Dentro de mim habita algo muito belo (creio que seja o amor), mas para apossar-me deste sentimento, paradoxalmente preciso abrir mão de todas as minhas posses, deixar de ser um grileiro e permitir que o bicho grilo vá embora para a natureza, onde é o seu lugar, a fim de dar os seus próprios pulos em paz.
Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se a vontade para compartilhar com os demais.
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