O Inimigo, o Demônio e a Criança Interior Ferida
"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
No primeiro dia era um inimigo oculto dentro de mim — meu bode expiatório; eu não sabia nada a respeito dele, e por muitos anos sofri com seus intermináveis pensamentos negativos que me levavam, invariavelmente, para o pior lugar do meu universo pessoal: Meu depressivo poço. Brigávamos constantemente e eu desejava muito que ele fosse embora para sempre.
No segundo dia descobri que o meu inimigo oculto — o responsável pelas minhas dores morais — era profundamente manipulador, controlador e um grande trapaceiro. Tentando desesperadamente livrar-me dele, realizei todas as suas vontades, mas apesar de tudo isto meu inimigo não foi embora, nossos desentendimentos eram constantes e desejava que ele fosse para os quintos dos infernos, e ele de fato foi.
No terceiro dia meu inimigo oculto passou por uma metamorfose, transformando-se no demônio que habitava descaradamente os quintos do meu próprio inferno pessoal, um demônio vermelho, chifrudo e mal caráter. Então era isto, o causador de todas as minhas dores emocionais era o próprio demônio vivendo dentro de mim? Que empáfia, que audácia, que intromissão em minha vida, eu, um santo; eu, um iluminado; eu, o queridinho de Deus; eu, o enviado das esferas espirituais; eu, o salvador de toda a humanidade; eu, o amigo do Buda — meu ego é muito criativo.
"Cruz credo, vade retro satanás", gritava eu tentando expulsá-lo, mas ele não partia de jeito nenhum, simplesmente ferindo-me agudamente todos os dias, forçando-me a comer diariamente o pão que ele amassava com o próprio rabo. Eu odiava aquele demônio insolente em mim, rogava pragas para ele, e quanto mais pragas eu rogava pior me sentia, meu demônio era muito bom de briga e muito apegado a minha pessoa, éramos praticamente unha e carne, que coisa mais insana.
No quarto dia, sentindo muita angústia, acabei indo para os quintos do meu inferno tirar satisfações com o demônio — o causador de minhas misérias —, percebendo estranhamente que ele estava tão angustiado quanto eu. Não briguei com ele, senti compaixão, dei meia volta e sai do meu inferno, que coisa mais doida.
No quinto dia não fui ao inferno brigar com o demônio, a angústia dele era a minha própria angústia, resolvi então deixá-lo em paz, não gostava daquele demônio, mas passei a respeitá-lo pela dor comum que nos unia — a compaixão é um extraordinário sentimento.
No sexto dia a angústia ficou mais intensa, e com ela sentimentos profundos de abandono e carência corroíam minha alma como um ácido; eu tinha certeza que meu demônio também estava sentindo a mesma coisa, mas como ele me causava uma certa aversão, resolvi não ir ao meu inferno pessoal conversar com ele — armistício não é sinônimo de paz.
No sétimo dia os doloridos sentimentos de angústia, medo, solidão, abandono, carência, rejeição e outros vieram com uma intensidade muito grande, senti então uma imperativa força conduzindo-me ao meu inferno interior, sabia, pela intuição, que precisava definitivamente falar com aquele demônio, estávamos estranhamente ligados pelos mesmos pesares emocionais.
Qual não foi a minha surpresa ao descobrir — finalmente — que não havia nenhum demônio lá, não havia nenhum inimigo lá, o que lá havia era simplesmente uma criança ferida, sofrida, reprimida, deprimida e encolhida, minha própria e singular criança interior esquecida dentro dos meus escombros emocionais por tanto tempo — enorme foi a minha alegria com a descoberta de que ela havia sobrevivido depois de décadas de abandono.
Desde então estou pacificado comigo, não preciso mais caçar e punir inimigos externos — eles simplesmente não existem — pelas minhas dores existenciais, mas tão somente crescer para o amor na companhia desta criança que sempre habitou em mim, criança tão ferida e amedrontada quanto eu mesmo. Sinto que amo muito esta criança e que também sou muito amado por ela, e sinto, sobretudo, que de agora em diante eu e a minha criança interior temos um grande problema em comum: Desmascarar definitivamente nosso velho ego, o grande ilusionista que habita dentro de nós.
Meu nome é Anônimo, Anônimo em recuperação! Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se a vontade para compartilhar com os demais.

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