A Festa na Casa dos Pretos Pereiras

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária

para aceitar as coisas que não podemos
modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"

Seja muito bem-vindo ao blog; Benvindo é meu sobrenome, Anônimo é o meu nome e pública é a minha gratidão.

Caro companheiro, no último domingo foi aniversário de 80 anos de minha tia paterna e resolvi estar presente — o presente para o codependente é uma conquista. Mal este desejo entrou em meu coração e a descarada da minha rejeição já ficou de cara amarrada, bateu os pezinhos no chão e sussurrou um monte de terríveis coisas nos meus ouvidos...

— Não vá, você vai sentir-se deslocado lá, melhor ficar em casa; a família é muito numerosa e você terá que cumprimentar e entrar em contato com aquela gente toda, sentirá a vergonha tóxica e ficará sem chão, pense nisto, melhor ficar por aqui cuidando das plantas; vá numa outra ocasião, você não gosta de lugar com muita gente e fica mais embaraçado do que inseto em teia de aranha; não vá, não vá, está chegando chuva de março fechando o verão com raios, enchentes, trovões... — fiz ouvidos de mercador.

Era o primeiro domingo de outono, um domingo nublado e a chuva não tardaria muito a cair. Quando tirei o carro da garagem e fechei o portão, a descarada rejeição ainda estava por ali tentando envenenar meus sentimentos com vazio, insegurança, medo, vergonha... — são estes alguns de seus inúmeros dardos mentais e emocionais —, mas não dei a mínima para ela e segui adiante. Quinze minutos depois estava na floricultura juntamente com a chuva que caía a cântaros, e em seguida estava a caminho da casa da minha tia, com uma linda orquídea embrulhada para presente e um lírio da paz também na embalagem do presente no banco do carona — torno a dizer que o presente é uma conquista.

Minha tia reside numa chácara que meu pai comprou para os meus avós lá pelos anos 50 do século passado. Minha família paterna são os Pereiras, todos negros, na verdade, quase todos. Cheguei cedo, lá pelas 10 da manhã, e lá pelas 10 começamos os preparativos para o almoço. Aos poucos os negros Pereiras foram chegando com suas vestes coloridas e os coloridos nos rostos, gente alegre, gente falante, gente brava, gente mansa, gente doida, gente sã. Ao longo da festa no meio daquela negritude toda, sentia-me em casa, sentia-me como se estivesse lá nas savanas africanas berço dos meus ancestrais paternos.

Como é bela uma festa de negros caro companheiro... tanta música — Zeca Pagodinho ficou roco de tanto que cantou —, tanta alegria, tanta falação, todos falando, gargalhando, rindo, falando alto, tudo, tudo ao mesmo tempo. Depois desta louca pandemia, no dia de ontem tirei a máscara e abracei todos os negros queridos do meu coração, e conforme abraçava cada um deles, é como se o espírito do meu próprio pai e outros Pereiras que já foram para o segundo andar da vida estivem ali abraçando e festejando comigo e com os demais. Como são belos os negros caro companheiro, como é encantadora uma festa de negros.

Lá pelas 11 horas, conforme os Pereiras iam chegando (pela graça de Deus eram muitos) alguém indagou — provavelmente um dos inúmeros convidados da titia —: "Será que daremos conta de preparar este almoço a tempo?" Respondi de imediato, "Somos pau pereira e pau pereira é madeira que não dá cupim", e ampla geral e irrestrita foi a gargalhada dos Pereiras que gargalham a torto e a direito por qualquer motivo em dias festivos. Não bastasse tudo isto, minha tia (a aniversariante) ainda fez doce de mamão e no final da festa preparei minha famosa marmitinha — um hábito desde os duros tempos de estudante na capital dos cariocas — para levar para casa um pouquinho da bondade e do amor de todos aqueles negros Pereiras, acompanhado, é claro, pela doçura do referido doce.

Companheiro, caso você tivesse aparecido por lá teria sido muitíssimo bem recebido, independentemente da sua forma, da sua cor, sua raça, seu credo, seu peso, sua altura, seu grau de escolaridade... — foi assim com minha amada mãe no passado. Caríssimo companheiro que leu até aqui, que o Poder Superior — conforme O concebo — te fortaleça e ilumine o seu caminho a fim de que você possa alcançar, nem que seja por um diminuto tempo, o presente precioso de viver, que como uma bússola, indicará  o norte do seu coração — São estes os desejos do negro escritor Anônimo.

Já era noite, uma noite sem lua, quando retornei para casa muito feliz da vida; a descarada da rejeição ainda estava lá no portão da garagem — parecia até o vigia noturno do inferno — com sua cara amarrada, carrancuda e com os braços cruzados.

— Que felicidade é esta afinal de contas? — perguntou ela insolente quando toquei a mão para abrir o portão.

— Rejeição, rejeição... assim como O Poder superior transforma lagartas em borboletas, no domingo de hoje transformei você em alegria acompanhada de flores de orquídeas e Pereiras, lírio da paz e doce de mamão verde com queijo minas — o presente é uma graça.

Meu nome é Anônimo, Anônimo em recuperação! Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas.  

Comentários

  1. Obrigado pela partilha!
    Obrigado, muito obrigado pelos textos publicados!
    Muitas 24 horas de paz e serenidade.

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