Meus Doidos Medos
"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
Sinto medo de ser o agressor e medo de ser o afetuoso; sinto medo de ferir e medo de ser ferido; sinto medo de chorar e medo de engolir o choro; sinto medo de impor limites e medo de que imponham limites para mim...
Sinto medo da verdade e medo da mentira; sinto medo do mundo concreto e medo daquele imaginado no meu cabeção pensante; sinto medo de dizer sim e medo de dizer não; sinto medo de ficar e medo de partir; sinto medo da ida e medo da volta...
Sinto medo de viver e medo de morrer sem nunca ter vivido; sinto medo de falar e medo de calar; sinto medo do momento presente e medo do momento que ainda virá; sinto medo de mim e medo de ti; sinto medo da presença e medo da ausência...
Sinto medo de ser e medo de não ser; sinto medo de ganhar e medo de perder; sinto medo de ousar e medo de fracassar; sinto medo do início, medo do meio e medo do fim; sinto medo de olhar e medo de que olhem para mim;
Sinto medo do que escrevo e medo do que não escreverei jamais; sinto medo de que falem de mim e medo de que não falem; sinto medo dos vivos e medo até de alguns mortos; sinto medos, tantos e incontáveis medos, medo de tudo, sinto medo até de Deus, sinto tanto medo que acho que sou um medo só — será que no instante da minha gênese só havia o barro do medo e nada mais?
Que medo é este que faz de mim um morador do nada, que faz de mim um habitante de lugar nenhum, que medo é este que me acompanha como minha própria sombra desde os dias da minha mais tenra infância, que medo é este?
Dentro do meu doido medo o algoz e a vítima; dentro do meu doido medo o corajoso e o covarde; dentro do meu doido medo o herói e o bandido; dentro do meu doido medo o salvador e o controlador; dentro do meu doido medo a mente e o coração; dentro do meu doido medo a insana negação de todo o universo.
Medo neurótico; medo caótico; medo insistente; medo persistente; medo contundente; medo doente; medo carente; medo indescente; medo codependente; medo do cinto afivelado; medo do sentir acorrentado...
Creio que eu não possuo o sentimento de medo, me parece que na verdade eu sou possuído por ele, que faz de mim um escravo inseguro, desprezível e sem valor, que faz de mim um capacho dos seus caprichos.
Seria este medo branco? Seria este medo preto? Nem branco nem preto, pois o branco é branco e o preto é preto, e ponto final. Mas este medo não é um ponto, é uma vírgula abrindo sempre novas feridas para medos que virão em pesadas prestações que eu continuarei pagando através do meu descontrole emocional, este medo doido que é uma mistura de tudo o que nunca existiu, uma mistura cinza de coisas mortas que nunca viveram, ou sua cor não seria a cinza, e sim o amarelo?
Não, ele também não é amarelo, creio que não deva existir medo amarelo, apesar de que em algumas situações emocionais ele fica de fato amarelo, amarelo de vergonha, amarelo de ressentimentos, amarelo de culpa, até ficar finalmente verde de tanta raiva, raiva reprimida, raiva comprimida, raiva deprimida, raiva engolida, raiva calada, raiva congelada, raiva surda, muda e cega... Mas ele também não é verde, seguramente que não!
Mas refletindo melhor, quem sabe ele poderia ser, não o amarelo autêntico conforme já vimos, mas aquele amarelado desbotado, embolorado, obsoleto e antiquado, aquele amarelado de uma folha de papel cuja idade regula com a minha, onde se pode ler sem muita dificuldade o que nele está escrito, como se estivesse estampado em minha própria testa: Seus medos nada mais são do que os frutos amargos e indigestos da árvore da sua própria rejeição.
Se eu fosse apenas um simples neurótico, acho que já não seria tão ruim assim, mas removidas as minhas máscaras neuróticas, eis que surge no meu horizonte de viver a codependência com todos os seus intricados mecanismos de controle mental e emocional sem fim, os meus doidos medos, a minha rejeição.
Tudo isto pelo simples fato de que eu ainda não aprendi a me amar, e enquanto eu não me amo, vou inconscientemente rejeitando tudo o que eu encontro pelos tropeços sem fim do meu caminho, inclusive eu mesmo, pois afinal de contas eu e o torto caminho do meu próprio viver somos uma coisa só, uma coisa doida permeada por um medo ainda mais doido dentro de uma rejeição muito mais doida ainda — será que eu sou doidão?
O medo doido parece coisa cômica, mas de vez em quando ele se transforma em forma doída e ferida de viver, e nestes momentos mais difíceis a graça do riso somente consegue brotar dos porões do meu inconsciente pela Graça de um Poder Superior, conforme eu O concebo, caso contrário tudo seria uma angustiante doidice só.
Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida.
Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se à vontade para compartilhar com os demais.
Clique em O Sepultamento das Causas Remotas para ler a crônica anterior, ou em A Força de Um Poder Superior para ler a seguinte.

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