Alguém Leu...


"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade

necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"


Hoje cedo, enquanto estava cuidando das árvores no campo, pensei com muito carinho e gratidão no jovem estudante universitário que fui lá no distante ano de 1979, o ano mais difícil e desafiador da minha vida até presente momento.

Na minha época de estudante eu morei por um ano numa minúscula quitinete no centro de Niterói, num prédio bonito por fora e completamente desolado por dentro, onde havia no ar o tempo todo uma mistura de cheiros que se condensavam num cheiro predominante e levemente desagradável, um cheiro de repolho azedo.

Passava muitas horas do meu dia estudando dentro daquele espaço de uns 25 metros quadrados que eu dividia com mais cinco estudantes. Na mesa, num canto, geralmente havia uma montanha de papéis com anotações dos meus estudos, e entre estas anotações técnicas haviam outras com frases curtas e de cunho pessoal, onde eu de vez em quando escrevia: 

"Este momento difícil não existe, o importante é o futuro que virá onde eu serei finalmente feliz. Um dia eu serei um analista de sistemas. Um dia eu serei independente financeiramente. Um dia eu vou encontrar uma linda mulher e vou casar-me com ela. Um dia eu terei dois filhos e ambos terão nomes de santos. Um dia eu vou morar numa casa no interior que tenha um pé de jatobá e cachorros vira-latas no quintal..."

Sempre haviam várias destas singulares anotações entre os meus papéis de estudo de matemática, como se de certa forma eu também estive estudando e registrando o que sentia e desejava no papel. Eu sabia que escrevia aquelas coisas com um sincero e grande desejo de que viessem a se concretizar um dia, mas o meu sofrimento e insegurança eram tão grandes, que na verdade nem eu mesmo acreditava muito na concretização dos meus sonhos, sonhos impossíveis que eu teimosamente sonhava mesmo assim, simplesmente para não afogar-me no pesadelo diário da minha dura rotina naqueles primeiros anos na cidade grande, sentindo-me completamente apartado da minha terra natal e de tudo o que eu conhecia e amava. Grande era a minha dor. 

Todas as minhas anotações pessoais do passado eu rasgava com receio de que alguém pudesse vir a ler um dia, e eu sempre guardei a certeza de que ninguém, de fato, havia lido todas aquelas coisas tão particulares que eu escrevi num certo período da minha juventude. 

Hoje cedo lá no campo, ao lado de um majestoso pé de jatobá, e na companhia dos meus três vira-latas, parei um pouquinho e refleti sobre tudo isto... Daqui a pouco estarei aposentado, trabalho já faz muitos anos na área da tecnologia da informação; meus filhos com nomes de Santos já saíram para o mundo para cuidarem da vida deles...

Senti então um profundo sentimento de alegria pela vida, e neste instante veio uma maravilhosa e não pensada frase na minha cabeça: "Você estava enganado Viajante Emocional do cabeção pensante, Alguém leu as suas anotações secretas Viajante, Alguém leu..."

Profundamente grato eu descobri que Alguém, de fato, leu tudo nos mínimos detalhes, e ao ler acrescentou aos meus desejos infinitamente mais do que eu pedi, e este Alguém é um Poder Superior amantíssimo, conforme eu O concebo.

Agora eu sinto que mesmo diante dos mais profundos pesadelos, vale muito a pena continuar adiante e não deixar de cultivar jamais sonhos de esperança.

Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se a vontade para compartilhar com os demais.

Clique em A Chave Com Esmalte Vermelho para ler a crônica Anterior, ou Os Rios Não Entram Em Controvérsias para ler a seguinte.


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