A Porta no Fim do Deserto Emocional
"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
Seja muito bem-vindo ao blog; Benvindo é meu sobrenome, Anônimo é o meu nome e pública é a minha gratidão.
Depois que descobri os 12 Passos, descobri também o meu distanciamento de um Poder Superior; não era uma questão de ateísmo ou negação, o ponto central era o meu agnosticismo que obstruía o sentimento de presença deste Poder Superior, conforme O concebo — No início meu intelecto era uma gigantesca montanha e o meu sentir um depressivo e escuro abismo.
Com a prática do programa isto foi ficando mais claro, e pouco a pouco eu fui descobrindo as enormes barreiras mentais que me impediam de fazer contato com este Poder Superior. Minha mente é prodigiosa, uma montanha, mas sentia que minhas emoções mais fraternas estavam todas soterradas em mim, como num abismo, e eu não conseguia sentir coisas boas, mas tão somente coisas ruins, e uma coisa auspiciosa que eu desejava muito sentir através da emoção era o Poder Superior de minha concepção.
Minha dificuldade na entrega do Terceiro Passo — "Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de um Poder Superior, na forma em que O concebíamos" — sempre foi fenomenal, um verdadeiro problema para eu poder avançar espiritualmente no meu processo de recuperação — se houvessem provas de aprendizado no Programa de 12 Passos, tal como provas escolares, eu teria sido sistematicamente reprovado por anos a fio no Passo Três.
Minha mente — pobremente —, achava que com a prática sistemática do Programa de 12 Passos e com o meu esforço pessoal, acabaria encontrando o significado mais profundo desta entrega do Terceiro Passo — meu velho ego possui a força de um Hércules e a presunção de um tirano.
Com o passar das 24 horas cresci muito no processo da recuperação da minha sanidade, mas o Terceiro Passo era ainda somente um desejo mental, eu sabia muito bem disto porém, guardava interiormente a certeza que mais cedo ou mais tarde eu conseguiria finalmente resolver isto — meu velho ego acha que pode tudo.
Até que um dia, depois de muitas e muitas 24 horas, eu sai de uma Sala de 12 Passos sentindo-me muito mal, estava profundamente triste por não conseguir vivenciar a entrega do Terceiro Passo, sentia que conhecia tantas coisas da Programação, tantas coisas após centenas de reuniões, mas o que eu queria era a entrega do Passo Três e isto eu não havia conseguido — meu velho ego foi reprovado mais uma vez.
Fui para casa naquela noite de quinta-feira de um mês de setembro com muito pesar, sentindo-me derrotado e incapaz de realizar a entrega. Subi a rua das Laranjeiras e na bifurcação com o Cosme Velho dobrei à esquerda em direção a Botafogo. Ao passar defronte ao Palácio Guanabara todo iluminado na avenida Pinheiro Machado — uma belíssima e inesquecível visão —, eu sabia claramente que não queria mais os poderes mundanos e suas glórias efêmeras, eu sabia que não desejava mais as artificiais luzes do mundo, o que eu desejava do mais fundo do meu coração era simplesmente sentir o Poder superior e eu havia fracassado, e o triste rastro dos passos do meu velho ego ao longo daquela longa avenida — um falido mentecapto espiritual — atestam e dão fé ao que escrevo neste momento, antes que as areias do tempo venham a apagar estas memórias de minha mente.
Este sentimento profundo de derrota durou mais de uma semana — ou teria sido toda uma eternidade? —, mas o que eu sentia não era revolta, não era raiva, não era angústia, não era ressentimento, não era mágoa, não era rejeição, não era complexo de inferioridade, não era enfim, nenhuma de minhas inúmeras e notórias emoções negativas, era simplesmente um sentimento de fracasso muito grande, mas eu não estava revoltado com isto, estava apenas sentindo a minha própria pequenez e simplesmente vencido e resignado com a situação.
Alguns dias depois eu sai pela manhã para ir para o trabalho, e antes de abrir a porta da casa 3 numa certa vila de Botafogo, um amigo que dividia comigo o urbano espaço do viver fez um comentário breve, algo sobre umas destas notícias ruins que povoam os cabeçalhos dos jornais diariamente...
Sai para a rua, e enquanto caminhava sob a copa frondosa e amiga das inúmeras mongubeiras — árvore brasileira nativa do estado do Amazonas —, percebi que aquela notícia calamitosa não estava afetando-me, algo absolutamente inusitado, alguma coisa havia acontecido comigo, eu deveria estar chateado, preocupado, amedrontado, aterrorizado, revoltado, encolerizado, assoberbado, mas eu simplesmente não estava, e então eu vi o deserto...
"Vi o deserto pessoal, emocional e interior que havia atravessado em direção ao meu Poder Superior; vi minha caminhada sincera e o meu desejo de encontrar este Poder Superior através dos 12 Passos, longo era o deserto, cansativa era a jornada, e no limiar de minhas forças eu avistei ao longe o que eu concebo como a porta de entrada do Terceiro Passo, a porta da casa do Poder Superior, conforme O concebo. Num esforço final caminhei até a porta do meu tão sonhado oásis espiritual e nela bati, mas a porta não se abriu.
Não consigo precisar quanto tempo fiquei ali batendo e batendo na porta e nada da porta se abrir. Exausto, cai no chão e lá fiquei prostrado, com a profunda convicção de que minha caminhada havia sido inútil, que o Programa de 12 Passos era um grande engodo, que não existia Poder Superior nenhum, mas se de fato ele fosse real, não queria receber-me, pois no meu estado de indigência eu certamente não seria merecedor de entrar por aquela porta, e antes de perder a consciência veio a primeira imagem, a imagem de uma companheira de 12 Passos dizendo [é tudo no tempo do Poder Superior, e somente Ele pode prover a recuperação, é tudo através da Graça Dele], e em seguida a segunda imagem, uma imagem muito antiga de um colega de trabalho gargalhando e falando em voz alta dentro do escritório ["capitulou? capitulou?] — meu obtuso ego estava finalmente rendido a dois passos do paraíso.
Então eu vi a porta se abrindo de dentro para fora e me vi sendo carregado para dentro no colo de um Ser muito amoroso, sentindo naquele momento o mesmo que os bebês devem sentir nos colos de suas amorosas mães: Entrega, confiança, segurança, alegria, aconchego, plenitude, vida, conforto, paz...".
De volta a rua das mongubeiras em direção ao metrô, percebi naquele momento único e mágico que estava sentindo uma paz interior que eu nunca havia sentido antes, e descobri encantado que eu estava pela primeira vez em minha vida confiando e entregando minha vida nas mãos de um Poder Superior infinitamente amoroso — Terceiro Passo —, e não somente isto, mas que finalmente eu havia de fato me rendido (Primeiro Passo), ou melhor, capitulado, pois longo foi o processo de entrega, devido ao fato do meu velho ego achar que era capaz de abrir a porta, até finalmente não aguentar mais e cair derrotado no fim da jornada através do meu próprio deserto emocional interior — insano ego.
Desde então continuo — apesar das constantes e pesarosas notícias mundanas dos cabeçalhos dos jornais — sentindo diariamente este bem estar do Terceiro Passo provido pela Graça deste Poder Superior, que no tempo dele fez o que eu mesmo jamais poderia fazer por mim mesmo.
Continuo voltando às salas de 12 Passos, falando e ouvindo sobre estes ignotos mundos interiores presentes em mim e em tantos outros companheiros destas irmandades de 12 Passos, na mais profunda convicção de que muitas outras portas ainda se abrirão através das amorosas mãos de um Poder Superior, conforme O concebo e que agora eu sinto e faz residência dentro de mim, num local sagrado e radiante de luz, infinitamente mais belo que o belíssimo Palácio Guanabara no encantador bairro das Laranjeiras, na maravilhosa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Meu nome é Anônimo, Anônimo em recuperação! Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas.

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