O Ignoto Sentimento
"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
Seja muito bem-vindo ao blog; Benvindo é meu sobrenome, Anônimo é o meu nome e pública é a minha gratidão.
Existe um ignoto sentimento que acompanha todos os meus passos desde que tomei consciência de que existia...
Não quero falar com ele, pois não desejo sentir o ignoto sentimento; não vou dizer para aquela moça bonita que gosto dela, pois ela pode despertar em mim o que eu não quero sentir, o ignoto sentimento; não vou contrariar ninguém, pois se vier a contrariar poderei despertar o desesperante ignoto sentimento.
Jamais direi "não" aos outros, pois o meu "não" pode ser discordante, trazendo à tona o desconfortante ignoto sentimento que não desejo sentir nem nos meus piores pesadelos. Fora ignoto sentimento, fujo de você tal como o diabo foge da cruz, fujo de você desde que era menino, fujo a cada segundo, a cada minuto, a cada hora, a cada dia, a cada semana, a cada mês, a cada ano; fora ignoto sentimento, eu não quero fazer contato com você!
Ignoto sentimento, sempre fugi de você, sempre te evitei, nunca te enfrentei; ignoto sentimento, de você eu fujo eternamente, pois para mim a sua presença é simplesmente insuportável, para mim é praticamente impossível fazer contato honesto com você, contato direto, olho no olho.
Ignoto sentimento, se você entrar pela porta da frente, certamente eu já estarei fugindo de você pela porta dos fundos, somos como luz e sombra, noite e dia, vida e morte, terra e mar — a presença de um significa a ausência do outro.
Vou gritar aos quatros cantos do mundo: Ao longo de minha vida eu sempre evitei o ignoto sentimento e esta é minha miséria, minha covardia, meus temores mais profundos, minhas dores mais fundas, minha angústia mais tenaz, minhas noites mais escuras, meus dias mais sombrios, simplesmente pelo fato de que quanto mais eu fujo do ignoto sentimento, mais e mais o ignoto sentimento me acompanha.
Quem és tu ignoto sentimento? Qual a sua natureza exata ignoto sentimento? ignoto sentimento, ignoto sentimento, por que me persegues?
Estou agora em um beco sem saída, sem possibilidades de fugas emocionais e geográficas; estou frustrado, arrasado, abandonado, revoltado, desorientado, quero fugir e não consigo, estou dentro do furação de uma crise de abstinência. No fundo do beco vejo um muro; caminho em direção a ele e vejo que o muro é constituído de vários tijolinhos e que cada um deles é uma de minhas próprias emoções.
Vou observando meticulosamente cada tijolinho, cada emoção, uma por uma, é fácil, pois em cada tijolinho tem uma etiqueta com a respectiva emoção: Alegria, raiva, medo, culpa, compaixão, soberba, tristeza, indiferença, solidariedade, amizade... e então algo estranho acontece sob o meu olhar, os tijolinhos vão ficando todos uniformes e todos eles com a mesma etiqueta: ignoto sentimento, ignoto sentimento, ignoto sentimento... Sem saída, sou compulsoriamente conduzido a análise profunda deste sentimento, tal como um metódico cientista estudando determinada substância através de um microscópio eletrônico...
Passa um avião de guerra e despeja suas bombas que cai sobre uma casa provocando grande destruição — qualquer semelhança com a cruel guerra na Ucrânia é mera coincidência; uma vítima sobrevive ao bombardeio, e quando desperta um pouco tonta sob os escombros, passa a temer terrivelmente a possibilidade da explosão de uma bomba sobre sua residência — este evento seria algo verdadeiramente catastrófico. Amedrontada, foge de sua casa e passa quase toda a sua vida fugindo de possíveis bombas que poderiam vir a cair um dia do céu sobre sua cabeça — isto seria uma verdadeira desgraça.
Olho para o pobre homem em estado de choque fugindo ao longo de sua vida das bombas; o homem sofre com as possíveis bombas que podem vir do céu, o homem está atemorizado, reticente, inseguro, apavorado e fugindo, sempre fugindo das bombas. Então o homem desperta e ao abrir os olhos observa o muro com os seus tijolinhos com a mesma etiqueta, desvendando finalment o segredo do ignoto sentimento; em cada etiqueta ele leu: Rejeição, rejeição, rejeição...
Dentro do beco sem saída e em frente ao muro de minhas emoções, descobri que estava fugindo o tempo todo de uma profunda dor que já havia sentido — era um fato —, e que de tão dolorida, não queria senti-la nunca mais, passei então a fugir da realidade e de tudo o mais, rejeitando tudo e, sobretudo, rejeitando a própria inconsciente dor da rejeição vivida, e quanto mais eu rejeitava este sentimento mais eu o alimentava e dava a ele vida, tornando impossível a minha fuga, que nada mais era do que minha auto rejeição, tão presente em minha vida quanto o ar que respiro.
Passa um avião de guerra e despeja suas bombas que cai sobre minha própria casa provocando grande destruição — a rejeição é uma bomba que já explodiu — e finalmente agora, décadas depois, eu consigo sentir o impacto e a dor sobre os escombros. No fundo minhas fugas nada mais eram do que uma cortina de fumaça — como é esperto o meu velho ego — para encobrir minha auto rejeição, o ignoto sentimento.
Meu nome é Anônimo, Anônimo em recuperação! Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas.
Muito bom !
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