A Transformação em um Milionésimo de Segundo

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"

Seja muito bem-vindo ao blog; Benvindo é meu sobrenome, Anônimo é o meu nome e pública é a minha codependencia e gratidão.

Lá está ele, lá esta o meu inimigo; é ele o responsável por todos os meus medos e misérias, é ele o responsável pelo meu estado de abandono e angústia; é ele o responsável, é ele o meu inimigo.

Meu inimigo muitas vezes gritou comigo; meu inimigo muitas vezes olhou para mim com um olhar duro e opressor; meu inimigo podia ficar (e ficava) dias sem falar comigo, ou com outro alguém, quando contrariado; meu inimigo ficava constantemente de cara feia, e era tão feia a cara de contrariedade de meu inimigo, que todos na casa faziam das tripas coração para não desapontá-lo, caso contrário, o inferno com seus demônios chifrudos e vermelhos desciam e caiam sobre cada um de nós  o inferno emocional é bem mais tormentoso que o inferno de Dante. 

Olhem o meu estado depois de viver tantos anos nos territórios do inimigo, olhem o meu estado depois de 20 anos nos campos de concentração de meu inimigo... tornei-me um coitadinho, um depressivo, um raivoso, um angustiado crônico, um ressentido; tornei-me um carente cheio de um vazio sem fim, um ser inseguro e medroso, um indivíduo cheio de culpa e vergonha, muita vergonha. 

Sou um medroso crônico; sofro de fobia social, tenho medo de gente, pois vejo nas pessoas a figura perpétua do meu inimigo que nunca me abandona  que inimigo pertinaz. 

Mas enquanto eu vivia sob os domínios do meu cruel inimigo, eu fiz uma solene promessa: "Eu jamais serei como ele". Eu nego o meu inimigo; eu abomino o meu inimigo; eu desprezo o meu inimigo; eu desconheço as razões do meu inimigo por tanta inimizade. Do meu inimigo eu quero a distância e o esquecimento; eu fujo do meu inimigo tal como o diabo foge da cruz. 

Ah... agora estou livre das garras do meu inimigo; agora eu sou independente e tenho a minha própria casa e a minha própria vida. Trago ainda em mim feridas abertas e doloridas da época do cativeiro nos domínios de meu inimigo  como doem estas feridas. 

Procuro por ajuda e encontro uma Sala de 12 Passos, onde posso falar abertamente sobre os meu tempos de escravidão e inimizade, e nas salas descubro que apesar da aparente liberdade, estou ainda preso ao meu inimigo por algemas sutis e invisíveis   codependentes algemas. 

Dia após dia, passo após passo, passo a gostar da sala e do programa que ela oferece. Um ambiente fechado e protegido, um ambiente onde posso falar tudo o que penso e acho do meu inimigo; tudo sem críticas, censuras, e aconselhamentos  não suporto conselhos , tudo protegido por um anonimato espiritual  quem você vê aqui, o que você ouve aqui, quando sair daqui, deixe que fique aqui. 

Nas salas falei por um longo tempo  quase uma eternidade  tudo o que eu achava do meu inimigo; falei alto e em bom tom, na esperança de que tudo o que eu falasse pudesse ser mesmo levado pelo vento para todos os cantos do planeta  por trás do meu anonimato a notoriedade do meu inimigo; meu ego é tagarela. 

Eu vim a acreditar, através da prática do Segundo Passo, na existência de um Poder Superior  até então eu era o poder, o poder inferior , e eu tinha a certeza que este Superior Poder iria libertar-me daquele meu grande inimigo, e quem sabe, até mesmo puni-lo um pouco também  olho por olho, dente por dente. Tudo era uma questão de tempo e disciplina na aplicação dos Passos em minha vida. 

Chegou finalmente o dia  inesquecível dia  em que eu não tinha mais nada a falar a respeito do meu inimigo, havia falado tudo; mas o inimigo ainda estava lá  não sei se vivo, ou simplesmente morto, putrefato e insepulto dentro de mim. Então, enquanto desesperadamente eu tentava a minha salvação mirando para dar o último tiro  a derradeira bala da doentia e insana metralhadora verbal , o Poder Superior interviu, e na abençoada intervenção eu vi a face do meu inimigo, e a face dele era a minha própria face; desde este dia eu nunca mais atirei  o fogo amigo é aquele que mais dói. 

Em um milionésimo de segundo, olhando a primeira vez para a minha própria face, descobri finalmente um universo negado e perdido dentro de mim  minha singular condição humana foi finalmente revelada, algo como: Eu sou e existo, e existindo, sou Eu o responsável pela minha própria vida. 

Em um milionésimo de segundo a maior descoberta de minha vida; em um milionésimo de segundo todas as respostas e o fim de uma infinidade de ilusórios equívocos.

Se meu inimigo muitas vezes gritou comigo, eu, mental e efetivamente, gritei com tantos outros inimigos ao meu redor;  se meu inimigo ficava dias sem falar comigo, eu era capaz de ficar muito tempo também sem falar com os demais; o mau humor do inimigo em mim; a raiva verbalizada do inimigo, lacrada, calada e congelada em mim  raiva congelada transforma-se em ressentimento e distanciamento; os discursos vazios do meu inimigo saindo aos borbotões de minha própria boca no contato com os demais; difícil agora perceber qual ego era  o mais inflado; complicado agora determinar, frente a frente com duas imensas e orgulhosas montanhas, qual delas era a mais alta; impossível agora discernir quem possuía o maior umbigo; insano agora tentar descobrir quem possuía mais espelhos em casa  narcisos amam espelhos. 

Durante quase quatro décadas, enquanto tentava o tempo todo atestar para mim e para o mundo a existência do inimigo externo, neguei a minha própria natureza, simplesmente pela incapacidade de perceber que o meu maior inimigo sempre viveu dentro de mim mesmo  o ego é o maior ilusionista de todos os tempos. 

Foram mais de quatro décadas atravessando desertos, não o do Sinai, mas meus interiores desertos de negação, neuroses, depressão, codependencia, transtornos obsessivos e compulsivos, etc; mais de quatro décadas no poço escuro.

Mas naquele milionésimo de segundo, com o toque do Poder Superior  como eu O concebo , minha vida mudou para sempre. De lá para cá, mais e mais afasto-me de meus pseudos inimigos exteriores, e quanto mais distancio-me deles, mais e mais pacifico o inimigo em mim mesmo, levando finalmente a paz para os meus territórios interiores outrora ocupados — raposas na granja

No princípio meu inimigo interior era como os demônios que eu vi em figuras de livros sacros; como eu odiava aqueles demônios, odiava também a mim mesmo. 

Algum tempo depois minha visão mudou, e descobri que o inimigo era o meu velho ego mental; tentei então, com a própria mente expulsá-lo, mas tudo em vão, pois a mente e o ego são bons camaradas. 

O tempo foi passando, e neste passar de tempo a emoção foi brotando aos pouquinhos de dentro de mim — como gotas em uma fonte , e a emoção foi, pouco a pouco adormecendo o cansado ego — ele já era quase um ancião. Com a soneca do ego, não vi mais nenhum inimigo a quem execrar, excomungar, ou exilar em algum lugar remoto do planeta, mas tão somente uma criança perdida, sofrida, reprimida, e carente dentro de mim mesmo — minha singular criança interior. 

A alegria desta descoberta somente pode ser comparada com a foz de um rio, ou melhor, com a foz de um homem deprimido e cansado no vasto oceano de uma eterna criança cheia de vida e esperança. 

O inimigo interno está finalmente em paz, e não rara vezes ele celebra a vida com a mesma intensidade, força, presença, alegria e gratidão de seu ex-inimigo de outrora e grande amigo de agora.

Benvindo é meu sobrenome, Anônimo é o meu nome e pública é a minha codependencia; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas.

Comentários

  1. Me identifico com este maravilhoso texto. Porém , o meu inimigo ainda me dá ordens, dita as regras da minha vida, não me permite uma entrega verdadeira ao PS. Neste instante, meu imimigo me deu ordens para tomar um remédio de tarja preta para matar a dor que estou sentindo no peito, e eu , o obedeci...

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