Eu e o Meu Cabeção Pensante


"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade

necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"


Em detrimento de minha própria saúde mental e emocional, meu cabeção pensante passa grande parte do seu tempo muito preocupado com os outros, tentando muitas vezes controlá-los, salvá-los, puní-los, educá-los, mandá-los para os quintos dos infernos...

Bem... enquanto o cabeção pensante negligencia a minha própria vida, deixando-me a ver navios, e para não ficar muito mal na fita comigo, de vez em quando ele libera para mim um pouco do seu tempo livre com os outros, e então começa a alimentar-me com fantasias de felicidade eterna, algo assim como pensamentos de mulheres lindas e felizes que farão de mim um ser humano repleto de paz, pensamentos de ilhas de fantasias onde tudo é lindo e maravilhoso, imagens de lares funcionais onde reina a mais profunda compreensão, beatitude e tolerância, com brinquedos espalhados por todos os cantos, refrigerantes e comida gostosa na geladeira, pessoas felizes e a presença contagiante e anual do Papai Noel descendo pela lareira carregado de presentes no dia de Natal...

Mas também ocorrem dias em que ele dá folga para os outros, e então começa a doar para mim não mais pensamentos de alegria e paz no futuro, mas outros pensamentos, pensamentos desagradáveis tais como: O bicho papão vai te pegar, você é um pipa voada; você vai dar com os burros n'água; você jamais conseguirá ser feliz; você é estúpido; você é inadequado; você é um estorvo no mundo; ninguém gosta de você; você é muito infantil; você não consegue assumir as suas responsabilidades; você precisa tomar tenência na vida: você precisa crescer; você envelhecerá e terminará os seus dias vivendo em situação de rua, dentre tantos outros pensamentos doidos mais.

Seria o meu cabeção pensante uma criança carente, amedrontada e codependente?

Seria o meu cabeção pensante um adulto cronicamente neurótico?

Seria o meu cabeção pensante um avião? Um Pássaro? Um Super Homem?

Seria o meu cabeção pensante o princípio e o fim de todas as coisas? 

Seria o meu cabeção pensante o meu próprio e orgulhoso deus?

Seria o meu cabeção pensante o supremo senhor da minha vida, e o grande imperador de todo o meu destino desde o berço até o túmulo?

Seria o meu cabeção pensante a última gota da água da serenidade no deserto emocional dos meus desequilíbrios mentais e emocionais?

Não, claro que não, nada disso... Se fosse desta forma, e se ele fosse a minha própria consciência e a totalidade do meu ser, ele não poderia estar escrevendo isto, pois quem escreve isto não é o meu cabeção, quem escreve isto é quem silenciosamente observa o cabeção com todos os seus pensamentos tão instáveis quanto macacos pulando sobre as árvores, quem escreve isto sou Eu, Eu em processo de recuperação, quem escreve isto sou Eu despertando do meu sono milenar, quem escreve isto sou Eu, constante e incansavelmente tentando encontrar-me dentro de mim através da imensurável ajuda de um Poder Superior amantíssimo — conforme eu O concebo —, que guia os meus passos pelas veredas espirituais do programa de 12 Passos.

Só por hoje eu continuarei observando o meu cabeção, sem nenhuma crítica e censura, mas tão somente através do amoroso olhar que começa a brotar em mim. Dizem os sábios que o amor, tal como o tempo, é capaz de cicatrizar e curar todas as feridas.

Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se a vontade para compartilhar com os demais.

Clique em As Correntes da Rejeição e as Asas do Amor para ler a crônica anterior, ou em As Duas Drogas para ler a seguinte.


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