Quando Briguei com Deus


"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade

necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"


Minha relação com Deus (conforme eu O concebo) sempre foi distante, acho que o confundi com os homens, e desde então meu relacionamento com Ele sempre foi muito superficial. Quando eu precisava Dele para alguma coisa fazia algumas orações decoradas, rogava bastante e esperava o resultado logo de imediato, e quando o resultado não vinha ficava um pouco chateado com Ele que não atendia aos meus apelos prontamente, no fundo, no fundo, eu tratava Deus como um balconista de loja.

Então a relação existia, mas era superficial, mas isto piorou uma barbaridade quando fui estudar no Rio de Janeiro. Via nos postais que o Rio era uma cidade maravilhosa, cheia de belas praias, belos cartões postais, belas áreas verdes, o paraíso dos turistas, etc, e como havia passado no vestibular para uma universidade federal, lá fui eu para o Rio de Janeiro cheio de contentamento e gratidão a Deus, este Deus maravilhoso que me concedeu a graça de morar num paraíso tropical, oh glória.

No primeiro dia meus sonhos viraram pó, iria morar com desconhecidos numa quitinete minúscula, dentro de um prédio completamente degradado e de má fama com mais de vinte e sete mil portas por andar naqueles infinitos corredores com cheiro de repolho azedo, sem contar que a praia perto da faculdade fedia a óleo, esgoto e peixe estragado; sem contar que andava por ruas com esgoto escorrendo na beira do asfalto; sem contar que a comida do bandejão se transformou num desafio quase diário, não foi fácil para mim engolir aquilo; sem contar que eu andava pelas ruas mais duro do que um coco da Bahia, meu dinheiro era rigorosamente economizado até os centavos para tentar vencer o mês sem atropelo; sem contar que eu estava apaixonado e na maior fossa por uma linda mulher que havia ficado na minha cidade, pois a minha amada mental que praticamente não me conhecia já tinha um namorado real; sem contar que achei o curso de matemática um horror, onde já se viu ter que provar que 1 x 1 = 1, dentre tantas outras coisas mais.

Achei então que Deus havia me dado uma rasteira, que havia me enganado; fiquei muito triste e revoltado com a situação, então decidi romper com Deus. Naquela época eu frequentava uma Igreja e passei a não ir mais, e na minha amargura e revolta eu falei com Deus: "Eu vou me estrepar aqui nesta cidade vivendo uma vida miserável e cheia de incertezas, mas guarde aí no céu onde Você se esconde uma coisa: Eu nunca mais vou querer saber de Ti, aceito o meu destino mas não quero mais conversa Contigo, de agora em diante eu cuido da minha vida e Você cuida do seu universo."

Cumpri meu juramento, comi o pão que o diabo amassou com o rabo por longos quatro anos, até que ao término da faculdade, quando eu achei que iria literalmente dar com os burros n´água, portas começaram a se abrir para mim... Consegui estágios, consegui uma bolsa integral para cursar um dos melhores cursos do Brasil na minha área, consegui o primeiro emprego, a primeira promoção, a segunda promoção, etc, etc.

Minha vida deu uma guinada para melhor, passei a comer em bons restaurantes, tinha dinheiro no banco e no bolso, tinha carro, boas roupas, já não andava mais com sapatos furados de segunda mão, e então, eu tão feliz da vida me virei novamente para Deus e falei com Ele lá da minha ignorância cósmica: "Passei pelo inferno mas agora está tudo bem, continuarei seguindo minha carreira solo, não preciso mais de Você, eu superei os desafios e agora vou decolar na vida rumo à realização de todos os meus sonhos."

Para encurtar a história, 14 anos depois de todos os sonhos realizados, acabei um dia, depois de tantas inconscientes e inconsequentes decoladas, pousando forçadamente numa praça num final de tarde chorando uma barbaridade, pois simplesmente não tinha dinheiro para comprar os pães que minha mulher havia pedido, estava perambulando perdido, sem dinheiro, desempregado,  envergonhado, derrotado, arrasado, desanimado, desorientado, mal assombrado feito um fantasma assoberbado, sem sonhos, sem esperança e horizontes. Depois de chorar compulsivamente por algum tempo, abaixei a cabeça e vi que debaixo do banco havia uma nota de R$2,00 cujo valor foi o suficiente para voltar para casa com um mínimo de dignidade e alguns pães dentro do saco da padaria.

Foi a partir deste dia que comecei a me reconciliar com Deus, e três ou quatro dias depois eu era levado por Ele a uma sala de 12 Passos onde começou, e ainda prossegue, o meu processo de recuperação mental, emocional e, sobretudo, espiritual. 

Sou muito grato por aqueles quatro anos tão difíceis no tempo do estudo universitário, e agora eu percebo com a mais pura clareza da minha alma que nunca estive só, e que todas as portas que se abriram, e ainda se abrem até os dias de hoje, não são por méritos meu, mas tão somente pela graça e intervenção Dele na minha vida.

Hoje, olhando para trás, vejo tudo de uma forma mais tranquila, sem o peso da culpa ou mágoas ou remorsos, vejo com profundo espírito de gratidão percebendo que tudo ocorreu da forma como deveria ter ocorrido, e que todas as pedras emocionais que tanto odiei e onde tanto tropecei e tanto me feri, foram as mesmas pedras que pavimentaram o meu caminho para que eu chegasse um dia num lugar onde eu tanto gosto de estar, uma sala de 12 Passos, onde eu vou aprendendo verdadeiramente a estar comigo mesmo, com os demais e, sobretudo, com Deus, conforme eu O concebo.

Vejo claramente que cheguei na sala no tempo certo, e o tempo certo foi o meu mais profundo fundo de poço, quando já estava chegando aos meus 40 anos, e por que não cheguei antes? Meu cego orgulho era tão devastador, que se tivesse chegado antes, teria no tempo errado dado meia volta, ido embora e voltado para a minha doença mental e emocional em progresso constante, porém, no sábio tempo Dele tudo aconteceu, e então ele amorosamente me disse "Agora é a sua vez meu amado filho do cabeção pensante, vá para a Sala de 12 Passos descobrir uma nova e maravilhosa forma de viver."

Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se a vontade para compartilhar com os demais.

Clique em Meu Irmão, o Rei Sísifo para ler a crônica anterior, ou em A Espera Infeliz para ler a crônica seguinte.


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