O Continente dos Humanos
No início era o continente, e eu era o continente também; mas por algum motivo eu resolvi me afastar, não queria mais a integração com o todo, então fui me distanciado aos poucos, até tornar-me uma ilhota.
Os habitantes do continente perceberam o meu afastamento e começaram a acenar e a a gritar: "Viajante Emocional, volte, volte!"
Mas eu não voltei e continuei me afastando. Os habitantes criaram então algumas pontes a fim de não perderem o contato comigo, mas conforme cada ponte chegava à minha ilhota eu simplesmente isolava o seu acesso através de muros, e assim, para cada ponte nascia um muro fechando a passagem, onde eu escrevia para quem tentava transpor a ponte:
Muro da rejeição, não quero conversa, desapareçam da minha vida!; muro do fora daqui, eu serei feliz sozinho; muro do vocês não gostam de mim, fora!; muro do vocês são insuportáveis, desapareçam! muro do deixem-me em paz, eu sei cuidar de minha vida, voltem!; muro do vocês estão cheios de defeitos de caráter, sumam daqui seus insuportáveis!; muro do eu serei muito feliz vivendo isoladamente longe de cada um de vocês, antes só do que mal acompanhado, vão te embora!
Com o tempo percebi que os habitantes do continente não mais acenavam e gritavam para que eu voltasse; percebi também que eles não tentavam construir novas pontes e que também desistiram de transpor as pontes existentes a fim fazerem contato comigo, a esta altura eu já estava muito distante, e a distância finalmente me alienou.
Livre do continente e de tudo que havia lá, minha pequena ilhota, tal como um barco movido pelo vento de minha insanidade, começou a afastar-se mais e mais naquele vasto oceano deixando tudo para trás, passando eu a viver solitariamente na minha ilhota cercada de muros por todos os lados, oh glória, finalmente eu havia conseguido realizar o meu sonho — Será?
Com o passar do tempo grande foi o meu pesar, e não demorou muito para que o meu sonho se transformasse num enorme pesadelo, onde eu era o infeliz protagonista do meu isolado inferno pessoal. Passei a ficar nostálgico, a solidão começou a apertar o meu peito, minha mente foi ficando povoada de pensamentos negativos, fui sentindo-me cada dia mais irritado, vazio e angustiado, e paulatinamente fui transformando-me num neurótico rancoroso, mal humorado e amargurado crônico.
Passei então a rememorar com nostalgia as coisas boas que haviam no continente, desejando ardentemente voltar par lá, mas eu não sabia como, minha ilhota estava isolada demais, não haviam mais pontes, não havia mais nada, eu estava amarguradamente só dentro da minha ilha murada sob um constante nevoeiro no imenso mar de minhas próprias ilusões — era eu o nevoeiro, os muros, as ilusões e a depressiva e isolada ilhota.
Eu que achava que resolveria tudo sozinho através de minha mente, que poderosamente criava como que a passe de mágica imaginários mundos felizes e funcionais, eu que era descrente de tudo e que era agnóstico, no meu desespero sem fim comecei a rogar para Deus que me libertasse de minha prisão, desejava muito retornar para o continente, roguei muito, roguei até a exaustão, roguei até quase enlouquecer de tanta dor, até que finalmente os céus me ouviram, e os céus trouxeram o vento da sanidade que soprava sobre a ilha, e quando eu finalmente ouvi a canção do vento percebi o que ele dizia para mim: "Viajante Emocional, sua ilhota está encalhada neste imenso mar de sua insanidade, para que você retorne para o continente faz-se necessário que você derrube todos os seus muros e reconstrua uma ponte que te leve de volta."
Cada vez que entro numa sala de 12 Passos, o que no fundo estou fazendo é simplesmente tentando destruir, tijolinho por tijolinho, estes enormes muros do meu egocentrismo infantil, e com os destroços deles vou construindo minha ponte que me leva de volta para ao continente dos humanos, pois agora, passando pouco a pouco o nevoeiro do orgulho que tanto me cegou, eu naturalmente sei que sou um simples humano também.
Meu nome é Anônimo, Anônimo em recuperação! Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se a vontade para compartilhar com os demais.

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