A Criança Ferida Num Canto da Casa
Faz muitos anos (desde a infância) que aprendi a utilizar o pensamento como ferramenta de sobrevivência num mundo conturbado, algo assim como uma ponte sobre meus abismos de dores, e desta forma fui pensando cada vez mais e mais.
Olhem que beleza... a chapa está quente, a atmosfera emocional do ambiente está carregada, isto me traz dor e sofrimento, então o que eu faço para escapar disto, o que eu faço? Fisicamente eu não consigo escapar, crianças não fogem de casa, crianças muito pequenas não conseguem correr, posso tentar esconder-me dentro do armário, mas também não resolve, mas tem algo que resolve: Posso pensar que aquilo não está acontecendo, posso pensar em algo em minha mente que me transporte para um mundo imaginado longe dali, um mundo de silêncio, harmonia e paz. A fuga mental foi tão eficaz que resolvi continuar utilizando deste mecanismo para afastar-me das situações emocionais conturbadas, e então fui pensando, pensando, pensando tanto até ficar viciado em pensar.
Se o pensamento é a criatura, então sou eu o criador, o que aconteceu foi que a criatura rebelou-se contra o seu próprio criador e passou a fazer dele um escravo servil, o que quero dizer é que agora, mesmo que eu não queira, quem está dando as cartas do jogo é a minha mente compulsiva por pensamentos, o tempo todo, todo o tempo.
Estou na praia num dia de sol, céu azul, brisa agradável, areia gostosa de pisar, mar bonito de se ver e de se nadar e nada, nada de eu estar ali, minha mente resolve estragar o meu dia e me joga para a alienação, então deixo de estar na praia e passo a estar em outro lugar mental, ora pensando em um drama do passado, ora pensando em alguém, ora pensando numa conta para pagar, ora pensando onde vou almoçar, ora pensando em ganhar na loteria, pensando, pensando sem parar, que drama!
Houve épocas em que os poderosos pensamentos me livraram até da fome, foi na época da universidade, quando chegava a hora do lanche e eu não tinha dinheiro para lanchar, quando a forme chegava eu simplesmente me afastava da cantina, entrava numa sala, abria um livro e começava a estudar problemas matemáticos, e a força do pensamento era tanta que eu simplesmente conseguia não sentir a minha própria fome.
A questão atual é que isto não funciona mais, a questão atual é libertar-me de minha criatura e assumir o controle da minha vida, preciso aprender a pensar em minhas emoções, preciso aprender a sentir os meus pensamentos, preciso aprender a viver no agora, e no agora não tem pensamentos, pois os meus pensamentos distorcidos somente existem no ontem (depressão, angústia, mágoas, ressentimentos, nostalgia, criança ferida, codependência), ou no amanhã (desejos vindouros, ansiedade, projetos mentais mirabolantes de felicidade, realização de sonhos).
Só por hoje tentarei pensar menos, não preciso controlar a mente, não preciso controlar meu pai, não preciso controlar as autoridades, não preciso controlar nada, meu pensamento é puro controle, é puro medo, é pura insegurança, é pura armadura de proteção, meu pensamento é como uma criança ferida e sofrida em algum canto da minha casa em algum lugar perdido no tempo.
Meu nome é Anônimo, Anônimo em recuperação! Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se a vontade para compartilhar com os demais.

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