A Felicidade Trancada na Boleia do Caminhão

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"


Era setembro; o Viajante Emocional enveredou floresta adentro à procura de sua amiga, a Sábia Coruja. Depois de algum tempo de busca, conseguiu encontrá-la no alto de um pé de araribá com o belíssimo verde primaveril de suas novas folhas.

— Sábia Coruja, imensa é a minha alegria em reencontrá-la — falou o Viajante Emocional embaixo da árvore. A ave voou mansamente para um galho próximo ao avistar o seu amigo.

— Seja bem-vindo Viajante Emocional; em que posso ajudá-lo desta vez?

— Gostaria de falar com você sobre minhas impressões sobre o meu sentimento de felicidade.

— Ficarei feliz em ouvi-lo Viajante.

— Quando era criança meu coração ficava partido quando meu pai partia para suas viagens, ele também era um viajante. No momento em que a carreta vermelha desaparecia na curva à esquerda no final da rua, eu ficava muito triste, pois achava que meu pai havia levado minha felicidade junto com ele. 

— Qual era o seu estado de espírito até o retorno dele Viajante?

— Um constante estado de pesar, mas tinha a absoluta certeza de que com a volta do meu pai minha felicidade também voltaria.

— Com a volta dele a felicidade voltava de fato Viajante?

— Este é o ponto do meu drama Sábia Coruja, meu tendão de Aquiles; meu pai retornava, descia da boleia do caminhão, a felicidade surgia por um curto período de tempo, mas depois desaparecia novamente.

— Na presença do seu pai para onde ia a felicidade Viajante?

— Acho que ela voltava para dentro da cabine do caminhão, trancava a porta e ficava por lá ansiosamente aguardando pela próxima viagem Sábia Coruja. 

— Você está dizendo-me que sua felicidade vivia trancada dentro do caminhão?

— Sim... então nunca conseguia senti-la de fato, pois com o caminhão parado na porta de minha casa ela não descia, e algum tempo depois viajava novamente, ou seja, ela nunca esteva presente em minha vida. 

— Isto acontece até os dias de hoje Viajante Emocional?

— Sim Coruja; meu pai já fez a viagem para a eternidade, a carreta vermelha provavelmente não existe mais, mas eu continuo com o estranho padrão de achar que, mais dia menos dia o caminhão vai estacionar novamente na minha porta, a felicidade descerá, e então eu serei finalmente feliz, que coisa mais doida Sábia Coruja. 

— Viajante, creio que o seu imenso amor pela carreta vermelha permaneça até os dias de hoje.

— Sim Coruja; gostaria muito que ela voltasse a parar na frente da minha casa, trazendo com ela minha itinerante felicidade.

— Se isto de fato ocorresse, o que você faria?

— Faria o que não fiz no passado; pegaria a chave da cabine, iria até a carreta, subiria no estribo,  abriria a porta e acolheria num infinito abraço de amor minha própria felicidade. 

— Pois então faça isto Viajante!

— Como isto seria possível Sábia Coruja?

— Viajante, sua felicidade nunca esteve trancada na cabina da carreta, sua felicidade nunca viajou para lugares distantes, nunca viajou para lugar nenhum, isto é somente uma falácia do seu velho ego,  sua felicidade sempre esteve e ainda está dentro do seu próprio coração, cuja chave da porta nunca deixou de estar em suas próprias mãos.

Meu nome é Anônimo, Anônimo em recuperação! Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se à vontade para compartilhar com os demais.

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