O Narciso que Não Cresce no Jardim

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária

para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"





A chapa está quente, a criança não consegue pisar na chapa, se pisa, queima os pés, queima o corpo, queima a alma, queima tudo. Desesperadamente a criança pula, alucinadamente a criança pula, desafortunadamente a criança pula, pula da chapa. Não demora muito, não demora nada, e a gravidade — a fiel servidora da chapa — traz a pobre criança de volta, de volta para a chapa quente, a agonia do seu ser e existir.

A chapa continua quente e a criança continua pulando, pulando sem parar, pulando feito uma louca; pulando feito uma doida; pulando feito uma alucinada; continua pulando, pulando cada segundo, pulando cada minuto, pulando cada hora, pulando cada dia, cada semana, cada mês, cada ano... e para cada pulo da criança, a gravidade — a carcereira da chapa — traz de volta a indefesa criança de volta para a escravidão da chapa quente, a agonia do seu viver.

Já são décadas de pulo, a criança está exausta, não aguenta mais pular da chapa, mas precisa continuar pulando, tão quente é a chapa — que torvo crime cometeu a criança?

"Que chapa é esta afinal de contas, que chapa é esta?" Esta chapa é a percepção da realidade da criança, uma medonha percepção constantemente presente, tão presente como sua própria respiração. 

"Percepção, que percepção?" Percepção do bicho papão; percepção da mula sem cabeça; percepção do silêncio dos oprimidos; percepção do dedo que aponta; percepção do olhar inquisidor; percepção do homem que vira fera; percepção da ausência; percepção da carência; percepção da voz muda que oprime e cala a voz dos demais; percepção da cara feia que amedronta; percepção das lágrimas represadas; percepção do narciso que não cresce no jardim da sensibilidade humana.

A pobre e assustada criança não consegue concentrar-se, não consegue viver o instante presente, não consegue viver instante nenhum, pois esta sempre gastando suas energias físicas, mentais, espirituais, espaciais, siderais e emocionais para pular da chapa, para não estar na chapa, para não sentir a chapa, para fugir da maldita chapa, o tempo todo tentando evadir-se da ardente chapa, desejando mentalmente ficar suspensa no ar, longe da chapa, mas a gravidade — seria a gravidade o capitão do mato da chapa? —, esta amiga fiel e incondicional da realidade, na sua mais completa lealdade à física de Isaac Newton, sempre traz de volta para a insuportável chapa quente a indefesa criança.

Ah... meu Senhor, não o do engenho e da escravidão, mas o do amor e da liberdade, ah... meu Senhor e meu Deus, que pela Sua Graça me legou todos os 12 maravilhosos Passos, liberte esta criança que habita em mim Senhor, liberte-nos da nossa cristalizada escravidão ao narciso, que tantos anos depois e já ausente, ainda exerce sobre nós um doentio controle que faz das nossas vidas um doloroso caminhar pela chapa quente de dores e traumas que o tempo ainda não consegue apagar.

Meu nome é Anônimo, Anônimo em recuperação! Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas.

Comentários

  1. Eis as infinitas possibilidades que o Poder Superior nos dá para modificar a chapa quente. .... Gratidão Amigo Aluísio.

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